
Essa semana eu publiquei na minha rede social um livro que ganhei do meu irmão Walter Magalhâes Junior, lembrei por que escolhi trabalhar com água. Entre as fotografias de Água, de Érico Hiller, um depoimento me fez parar: “A situação da água? Pouca. A que tem é dos bicho e é a de beber. Pra beber a gente coa com o pano.”
Aquela pessoa descrevia sua sobrevivência. Essa distância me incomodou mais do que qualquer discurso sobre sustentabilidade. Criamos a O2eco Tecnologia Ambiental para contribuir com a recuperação da água. O livro me lembrou das pessoas que dão sentido a esse trabalh.
Elas estão pelo Brasil inteiro. Segundo o Instituto Trata Brasil, com dados do SINISA de 2024, cerca de 33 milhões de brasileiros, ou 15,9% da população, permaneciam sem acesso ao abastecimento de água potável. Imaginem, é como ter três Portugais inteiros vivendo sem acesso à rede de abastecimento de água.
Além de fazer a água chegar, precisamos proteger sua origem. O relatório Observando os Rios 2026, da SOS Mata Atlântica, avaliou 162 pontos em 128 rios e corpos d’água durante 2025: 18,5% apresentaram qualidade ruim ou péssima, apenas 3,1%, boa. Nenhum atingiu qualidade ótima. São resultados dos pontos monitorados, não de todos os rios do bioma. A dimensão humana desse problema é enorme, mais de 116 milhões de brasileiros vivem na região da Mata Atlântica,
A degradação dos mananciais e a falta de abastecimento comprometem a mesma necessidade, viver com saúde. Coar água num pano não assegura potabilidade. Quando esse é o único recurso disponível, a dignidade está sendo comprometida no cotdiano.
Por isso, renda e saneamento precisam entrar na mesma conversa. Como exigir autonomia sem garantir condições para estudar, trabalhar e permanecer saudável?
É nesse contexto que considero necessário discutir incentivos como o Bolsa Família. Minha posição não depende de esquerda, direita ou preferência eleitoral. Defendo sua reformulação orientada por resultados, fiscalização e integração com serviços públicos e oportunidades de renda.
O IBGE estimou que, sem os benefícios dos programas sociais, a extrema pobreza em 2024 passaria de 3,5% para 10%. O cálculo inclui diferentes programas, não apenas o Bolsa Família. Ignorar essa proteção seria irresponsável. Aceitar que ela conviva indefinidamente com água insegura também é.
A integração deve cobrar entregas do Estado, sem penalizar famílias pela infraestrutura que não receberam.
Para as empresas, essa é uma agenda e oportunidade concreta de ESG, reduzir seus impactos, proteger mananciais, apoiar recuperação de açudes e cuidar do “S” do pilar Social, da sigla com manutenção e resultados verificáveis. As comunidades precisam participar. O investimento privado deve complementar, sem substituir, a responsabilidade pública.
Desprezar uma região por suas escolhas eleitorais transforma divergência política em exclusão humana. Nenhum brasileiro vale menos pelo lugar onde nasceu ou pelo voto que dá.
Foi isso que o livro me devolveu, propósito com responsabilidade.
Enquanto beber água segura continuar sendo privilégio, nosso desenvolvimento continuará incompleto. A dignidade começa quando enxergamos o outro e se concretiza quando fazemos a água chegar. Empatiaa precisa virar ação. Água potável não é favor nem promessa eleitoral. É direito.
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