
Hoje não consigo escrever sobre Luiz Paulo Costa como quem prepara um obituário, porque conheci o homem que existia além dos cargos, dos mandatos, dos livros e das fotografias antigas, convivi com ele na Academia Joseense de Letras, sentei-me ao seu lado por diversas vezes, ouvindo suas histórias, suas observações e seus silêncios, e agora, voltando a presidir a instituição que ele ajudou a reconstruir, compreendo o peso de uma cadeira quando aquele que tantas vezes esteve nela deixa de chegar.
Luiz Paulo morreu nesta quinta-feira (17), aos 83 anos, depois de uma existência profundamente ligada à história de São José dos Campos, atravessando o jornalismo, a política, a literatura, a luta pela democracia e a preservação da memória de uma cidade que conhecia não apenas pelos documentos, mas pelas ruas, pelos personagens e por tudo aquilo que testemunhou enquanto São José se transformava diante de seus olhos.
Poucos talvez saibam quanto a própria Academia deve a Luiz Paulo, porque ele participou diretamente de sua retomada, ajudando na época o vereador Walter Hayashi e Paulo Locatelli, presidente do Clube Joseense e Amigos, a localizar em cartório os documentos da antiga AJL e integrando o movimento que permitiu sua reorganização a partir de 2010, razão pela qual cada sessão que realizamos também carrega parte da colheita das mãos daqueles homens que decidiram impedir que esta Casa, a Casa de Cassiano Ricardo, desaparecesse.
Ocupante da Cadeira 4, escolheu como patrono Chico Triste, amigo e mestre de tantos anos de jornalismo, sobre quem escreveu A sua bênção, Chico Triste, numa relação bonita entre literatura, gratidão e memória, como se Luiz Paulo soubesse desde sempre que pertencer a uma Academia significava também guardar os nomes daqueles que o tempo insiste em levar.
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Foi vereador durante quase vinte anos, participou de momentos importantes relacionados à Fundação Cultural Cassiano Ricardo e ao Vicentina Aranha, acompanhou conflitos sociais e transformações decisivas da cidade, enquanto no jornalismo, iniciado em 1965, chegou à correspondência de O Estado de S. Paulo e integrou a equipe premiada com o Esso pelas reportagens sobre as geadas de 1975.
Mas sua maior vitória talvez tenha sido sobre aquilo que tentou destruí-lo quando ainda era jovem, porque Luiz Paulo conheceu as prisões da ditadura, passou pelo navio-prisão Raul Soares, pela Base Aérea de Santos, pelo DEOPS e pelo DOI-CODI, sofreu torturas e carregou sequelas físicas, mas sobreviveu aos homens que pretendiam quebrá-lo e, décadas depois, escreveu “A Cadeira do Dragão”, transformando o lugar da dor em literatura, documento e testemunho, de modo que hoje podemos dizer que Luiz Paulo não apenas escreveu sobre a Cadeira do Dragão, mas venceu a Cadeira do Dragão.
Conviver com ele me ensinou que uma vida não cabe nos grandes acontecimentos, porque permanecem também a conversa antes da reunião, uma lembrança contada como se tudo tivesse ocorrido ontem, seu conhecimento quase íntimo de São José e aquela sensação rara de ouvir alguém que não precisava consultar a história porque caminhara dentro dela.
Hoje, presidindo a Academia Joseense de Letras, compreendo ainda mais a responsabilidade que recebemos daqueles que sustentaram esta Casa quando seria muito mais simples permitir que ela desaparecesse, e por isso sua Cadeira 4 ficará sem seu ocupante, mas nunca sem sua memória, porque Luiz Paulo ajudou a colocar de pé as próprias cadeiras que hoje ocupamos.
Eu, que tive o privilégio da convivência, despeço-me de um companheiro de Academia, de um jornalista, escritor, homem público e testemunha extraordinária de nossa cidade, mas sobretudo de alguém que atravessou a violência, sobreviveu ao silêncio, escreveu aquilo que tentaram apagar e chegou ao fim podendo dizer, mesmo sem precisar pronunciá-lo, que o dragão não venceu.
Sobre o autor: Fabrício Correia é escritor, jornalista e Presidente da Academia Joseense de Letras