O cantor porto-riquenho Bad Bunny fez história no último dia 8 de fevereiro no tradicional show do intervalo do Super Bowl, principal evento da liga de futebol americano dos Estados Unidos, a National Football League (NFL).
A ascensão de Bad Bunny no cenário artístico global, já iniciada antes do show, não representa apenas um fenômeno de popularidade, mas um deslocamento estrutural no eixo da indústria do pop. No último fim de semana, ele esteve pela primeira vez no Brasil para dois shows em São Paulo.
Ao manter as letras de suas músicas em espanhol e projetar Porto Rico no centro do debate internacional, hoje amplificado pelas redes sociais e pelas plataformas digitais, o artista traz a esperança de que atender às demandas do mercado anglófono já não seja uma condição obrigatória de sucesso comercial.
Suas músicas consolidam o reggaeton como centro, e não mais periferia, da cultura pop, legitimando sonoridades historicamente marginalizadas pelo mercado cultural hegemônico. Essa relevância, que não pode ser genuinamente analisada apenas em termos estéticos, está intrinsecamente ligada à mutação estrutural da indústria da música no contexto do streaming.



Do centro anglófono às lógicas do mercado digital
Durante o século 20, a lógica industrial da música popular era verticalizada e anglocêntrica, tendo o inglês como língua franca do capital simbólico global. A atual expansão das plataformas de streaming altera esse cenário ao recentralizar os mecanismos de distribuição tradicional antes exercido pelas rádios, por canais de televisão como a MTV e, sobretudo, pelas grandes gravadoras.
Nesse ambiente, o conceito de retenção torna-se central. Retenção é o potencial que uma determinada faixa musical tem de manter o ouvinte até o final. Ela é mensurada por parâmetros como tempo médio de escuta, taxa de abandono, quantidade de replays e inclusão em playlists.
E alguns elementos musicais estão associados à alta retenção: ausência de longas introduções, entrada vocal-textual imediata, duração total curta, variações tímbricas estrategicamente posicionadas etc.
As músicas de Bad Bunny, apesar de desafiarem os paradigmas do pop internacional, possuem todos esses elementos de retenção diretamente ligados ao sucesso em plataformas digitais como o Spotify e o iTunes.
À luz do pensamento crítico sobre a indústria cultural realizado por Theodor Adorno, Walter Benjamin e Max Horkheimer, poderíamos inferir que, entre outros parâmetros, a padronização formal, a concisão estrutural, a circulação massiva e a repetição — agora mediadas por algoritmos — explicariam o sucesso do artista.
Mas associando esses elementos ao deslocamento efetivo das hegemonias linguísticas, às tensões de gênero e masculinidade e às fricções culturais que sua música introduz, vemos que, apesar de operar dentro do sistema, Bad Bunny também tensiona suas premissas, interferindo no gosto e nas expectativas de um público que consome suas músicas para muito além das fronteiras da América Latina.
Mesmo se adaptando à lógica dos algoritmos e dos novos mecanismos comerciais da indústria atual, Bad Bunny talvez não esteja propondo uma estética musical e comercial inédita, mas o que é paradigmático e inconteste é que suas músicas propõem uma insubordinação às hegemonias culturais impostas por tantos anos pelo mercado fonográfico.
Os anos 90 e a exotização da cultura latina
Nos anos 1990, artistas como Shakira (Colômbia) e Ricky Martin (Porto Rico), para citar apenas duas celebridades do pop internacional, alcançaram projeção global. Todavia, tal sucesso estava sujeito à adaptação do repertório ao idioma hegemonicamente anglófono – mesmo que ambos tenham gravado muitas músicas em espanhol. O mercado fonográfico daquela década ainda exigia assimilação ao padrão dominante.
Até então, a música latino-americana era consumida, muito frequentemente, sob uma aura de exotismo — caso da salsa e até mesmo do samba em diversos cenários. Ritmos com raízes afro-diaspóricas eram percebidos como coloridos, festivos, quentes e sensuais, mas raramente ultrapassavam o enquadramento de entretenimento leve. E, quando incorporados à música pop global, apresentavam-se apenas parcialmente latinos: explorava-se a diversidade rítmica, mas a harmonia e forma, por exemplo, mantinham uma estrutura pop tipicamente norte-americana.
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Bad Bunny desafia e subverte o status quo quando realiza um espetáculo integralmente em espanhol, quando não “suaviza” ou “neutraliza” seu sotaque caribenho e sua dicção em favor de uma fonética mais adaptada ao mercado anglófono (e ao público americano presente no espetáculo) e quando traz ao palco não apenas a música do Caribe, mas culturas, quadros sociais — e corpos — latinos representados por trabalhadores rurais (“boias-frias”), vendedores ambulantes, manicures, aposentados em jogos de mesa, famílias típicas de bairros periféricos, instrumentos musicais como o cuatro porto-riquenho (semelhante à nossa viola caipira), danças e gestos cotidianos tipicamente latinos. O show está disponível no canal da NFL no YouTube e vale a pena conferir — são apenas 13 minutos.
O espetáculo também incluiu uma orquestra de cordas com mais de vinte violinistas, regidos pelo maestro nicaraguense Giancarlo Guerrero (convidado frequente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp – e com quem já tive o privilégio de trabalhar em inúmeros concertos). A presença orquestral não funcionou como simples adereço legitimador externo de uma elite cultural, mas como uma escolha estética do próprio cantor.
Assim como muitos de nós, latinos, Bad Bunny tem interesse em gêneros musicais que extrapolam sua área de atuação, uma delas a música de concerto, como contou em entrevista o maestro Guerrero. Esse gesto amplia o espectro cultural atribuído ao artista latino contemporâneo que mostrava não se limitar à identidade rítmica esperada pelo mercado, mas reivindicava pluralidade estética.
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Infiltração e subversão
Paradoxalmente, todo efeito e repercussão produzidos a partir de seu show emergem no cenário de um dos símbolos centrais da cultura dos Estados Unidos: o Super Bowl.
Utilizar esse palco para afirmar língua, sotaque, corpos e práticas culturais caribenhas não elimina a hegemonia estrutural do pop internacional, já que se utiliza do próprio sistema que o sustenta, mas tensiona seus limites de forma infiltrada e subversiva, à maneira do cavalo de Troia.
E, deste show, podemos ainda formular outro ponto estratégico e essencial desse complexo mercado: em que contextos da própria América Latina poderíamos produzir debates semelhantes com alcance massivo semelhante? Se a desconstrução de hegemonias ainda depende dos palcos que as sustentam, quando nossos próprios espaços de circulação alcançarão distribuição equivalente?
Bad Bunny, apesar de não dissolver as assimetrias do mercado globalizado da música, desloca a centralidade linguística e estética do pop internacional, acabando por alterar o horizonte de possibilidades para — e sobre — artistas latino-americanos. A transformação talvez não seja estruturalmente completa, mas já não é meramente exótica e ornamental.
E já que falamos em pluralidade e diversidade estética, se você ainda não leu a primeira matéria dessa coluna, sugiro que dê uma espiada:
Depois de publicada, confesso que fiquei com uma certa sensação de dívida para com os leitores, pois havia mencionado que maestros costumam se interessar por estilos que vão muito além da música de concerto (da mesma forma como Bad Bunny se interessa por ela) e cheguei a apresentar uma lista com artistas que costumo ouvir no streaming, mas não cheguei a listar as músicas.
Resolvi, então, montar uma playlist com músicas que costumo ouvir (já adianto que é bem eclética). São artistas que ouço desde menino e outros que descobri mais tarde no rádio ou por sugestão de amigos músicos. É só seguir meu perfil no Spotify, coelhowilliam, e clicar em Playlist de Maestro: são centenas de faixas e mais de 33 horas de música! Divirta-se.