
Das muitas perguntas que todo maestro e maestra costumam ouvir, uma das mais frequentes é: “Você só escuta música clássica?” Arrisco responder por meus colegas: Não, nós ouvimos – e gostamos de — muita música popular.
Assim como artistas plásticos renomados apreciam a arte naïf e chefs da chamada alta gastronomia brasileira adoram um bom arroz com feijão, nós regentes gostamos de fruir de música boa, seja ela popular ou de concerto — aquela conhecida como música clássica.
Uma de minhas grandes paixões é cozinhar, especialmente quando o prato pode ser feito do início ao fim em uma única panela. Por isso, adoro fazer — e comer — sopas, cozidos e caldos.
O processo quase alquímico de misturar temperos diferentes, imaginar e prever os sabores no prato final, temperar “a gosto”, criar propostas novas, tudo isso me encanta no ato de cozinhar. E, ainda, poder entregar, no fim de todo o processo, algo que agrade e faça felizes os amigos e familiares, além de poder compartilhar com eles um bom prato regado a boas conversas e risadas, me fascina.
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Vejo em todo esse ritual culinário muita similaridade com a maneira como organizamos nossa escuta musical, ato ao qual dedicamos uma boa parte de nosso tempo de vida (o bem mais valioso que temos) quando decidimos parar para escutar — não apenas ouvir — música. A forma como elencamos, organizamos e misturamos as músicas fala muito sobre nós mesmos, assim como também o que queremos de nós mesmos, de que sabores queremos nos lembrar e novamente com eles nos deleitarmos.
Abrindo agora meu histórico do Spotify, as últimas playlists formam um verdadeiro caldo cheio de sabores diferentes:
- As nove sinfonias de Beethoven e as quatro de Brahms com a Orquestra Revolucionária e Romântica regidas por John Eliot Gardiner;
- O disco Clube da Esquina com Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes; as Paixões segundo Matheus e João de Johann Sebastian Bach com o English Baroque Soloists, The Monteverdi Choir (e, de novo, Gardiner na regência);
- Uma playlist com minhas músicas prediletas do Rock internacional dos anos 70, 80 e 90 (AC/DC, The Beatles, Queen, Red Hot Chili Peppers, Nirvana, Scorpions, R.E.M., Led Zeppelin, Guns N’ Roses, Pink Floyd, Creedence, Kansas, Dire Straits, Deep Purple, The Rolling Stones, Eric Clapton, Aerosmith, Metallica, e até Roy Orbison);
- E, para ficar somente nas últimas playlists ouvidas, uma seleção bem eclética de músicas brasileiras mais “antigas” com compositores e intérpretes como Carmen Miranda, Francisco Alves, Clara Nunes, Cartola, Noel Rosa, Maria Bethânia, Elza Soares, Nelson Gonçalves, Cascatinha e Inhana, Paulinho da Viola, Elis Regina, Tonico e Tinoco, Tom Jobim, Pena Branca e Xavantinho, Gal Costa, Beth Carvalho, Tião Carreiro e Pardinho, Dalva de Oliveira, Dorival Caymmi, Adoniran Barbosa, Aracy de Almeida, Ângela Maria, Mário Reis e por aí vai.
Se, por acaso, você conhecer um maestro ou maestra, desafio você a perguntar sobre suas playlists. Aposto que vai encontrar uma seleção bem diferente da minha, mas certamente tão ou mais eclética. Antes de ser um músico bem treinado e lapidado por muitos anos de música de concerto, um regente é sempre um artista.
E um verdadeiro artista costuma absorver e entender o mundo – não somente pelo ouvido – de uma forma diferente do ordinário. Ele tem interesses múltiplos, seja no campo artístico (como cinema, literatura, pintura, dança, teatro), seja nos domínios do campo musical, escutando diversos estilos, formações instrumentais e vocais, períodos históricos etc. E é desse interesse amplo e multifacetado que, em muitos casos, provêm as melhores ideias interpretativas para o repertório que esse regente está trabalhando no momento.
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Já parou para pensar no quanto a interpretação de uma obra musical, falando agora de um concerto orquestral ou coral, depende das escolhas feitas pelo regente? E também que, se é para o público que os músicos de uma orquestra (incluindo aí o maestro ou maestra) tocam, faz todo sentido que haja uma conexão dialética entre quem toca – ou rege – e quem escuta? Logo, é imprescindível que todo maestro conheça – e, se possível, saiba apreciar – as qualidades das músicas que seu público conhece.
Afinal, apesar de a 9ª Sinfonia de Beethoven ser a mesma há 200 anos, o público não é, pois sua bagagem cultural e interesses são diferentes daqueles das plateias do século 19. Mas isso é assunto para uma próxima conversa…
A ideia dessa coluna é trazer algumas reflexões pessoais a respeito da música popular de maneira isolada ou não da música de concerto, mas se você tem alguma curiosidade a respeito do tema, comente aqui e tentarei misturar tudo nas próximas edições. Quem sabe dá um bom caldo?