
Na ponta dos pés e com a leveza de um colibri, os 24 bailarinos europeus do The Moscow Ballet, que apresentaram o clássico balé de Tchaikovsky, o Quebra-Nozes de Natal, terminaram a noite do mesmo jeito que começaram: voando.
Os artistas que se apresentaram no Teatro Municipal Ariano Suassuna na chuvosa noite desta terça-feira (9), em Jacareí, se portaram com calma e leveza, sem esboçar a ideia cansativa que iriam pegar um voo para a Europa em algumas horas.
Era seu último show no Brasil. Por aqui, começaram no Rio de Janeiro (RJ), depois São Paulo (SP), Florianópolis (SC), Porto Alegre, Pelotas, Uberlândia, Sorocaba, Ribeirão Preto e por fim Jacareí, a última premiada a recebê-los.
A cidade de pouco mais de 240 mil habitantes foi escolhida para que a produção estudasse a região para esse tipo de evento. O tempo apertado da viagem não permitiu entrevistas nem a famosa pergunta sobre “impressões da cidade”, se é que tiveram tempo e cabeça para vê-la. Logo após o espetáculo, os artistas já se preparavam para embarcar rumo à Europa. Sem fotos, sem autógrafos, apenas memórias.
Pas de Deux (não é a “paz de Deus”)

Assistir ao Quebra-Nozes é encontrar-se com uma peça que atravessou mais de um século sem perder o impacto. Tchaikovski conseguiu transformar um conto fantástico de E.T.A. Hoffmann em algo maior que a própria história: um ritual de fim de ano, uma magia de Natal que reaparece a cada dezembro como se fosse sempre a primeira vez.
Talvez seja por isso que, mesmo conhecendo a trama, ou nem se importando para ela, o público ainda se surpreende, não só com a técnica, mas com a capacidade que a música tem de criar atmosferas que mudam o ar da sala, de ver o que o corpo humano é capaz de fazer em nome da arte.
Entre todas as cenas, há uma que sempre se destaca para mim: o Pas de Deux. (do francês, “passo de dois”) É o momento em que a obra abandona a rapidez, os saltos e giros e se concentra em dois corpos, conduzidos pela melodia mais madura de Tchaikovski.
Ele surge depois do deslumbramento do Reino dos Doces, quase como um lembrete de que, por trás do espetáculo colorido e dos personagens fantásticos, existe uma profundidade que Tchaikovski colocava apenas onde realmente importava.
A música cresce devagar, com cordas que parecem medir cada segundo, criando uma espécie de suspensão do tempo. E é justamente nesse intervalo suspenso que o balé revela seu sentido mais íntimo: parceria, confiança, entrega do corpo ao parceiro.
É a demonstração mais clara de que nenhum bailarino, por mais talentoso que seja, alcança a grandeza sozinho. Ali, duas pessoas se tornam uma só estrutura, movida pela mesma intenção. Não há espaço para erro nem para vaidade, um bailarino depende do outro.
Aplausos e uma noite inesquecível


Durante a chegada ao teatro, o motorista do carro em que eu estava parou em frente ao que parecia ser o camarim, onde diversas bailarinas fantasiadas corriam de um lado para o outro. Por alguns segundos, os artistas estavam tão comprometidos que parecia que treinavam até mesmo nas suas apressadas corridas.
Durante a pausa do primeiro ato, uma cena que também chamou atenção foram algumas crianças tentando imitar os movimentos de Oksana Bondareva, bailarina ucraniana recém-premiada no Capri Danza International 2025, que interpretava a protagonista, Clara. As crianças riam e gargalhavam ao tentar imitar a dança, e com certeza, os movimentos sutis marcaram uma noite inesquecível em suas vidas.
Após o ato final, o público se ergueu de suas cadeiras e aplaudiu, não por alguns segundos, mas por cerca de três minutos, tempo em que os bailarinos esboçavam genuína alegria pelo reconhecimento que recebiam do público.
A narrativa do Quebra-Nozes

Estreado em 1892, em São Petersburgo, O Quebra-Nozes acabou se tornando um dos grandes símbolos do Natal ao redor do mundo. Baseado no conto de E.T.A. Hoffmann, o balé conta a história de Clara, uma menina que ganha um quebra-nozes mágico e, na noite de Natal, vê o brinquedo ganhar vida.
A partir daí, ela acompanha o Príncipe em uma aventura que começa na batalha contra o Rei dos Ratos e termina no encantado Reino dos Doces, onde tudo gira perfeitamente em torno da composição de Tchaikovski.
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