
Enquanto Paris fervia na Belle Époque*, Claude Debussy compôs um refúgio para o século que nascia e nos ensinou a escutar o silêncio.
No período em que a população parisiense evoluia das carruagens até os carros motorizados, em 1890, aos 33 anos, Claude Debussy começou a esboçar o que seria a Suite Bergamasque, uma coleção de peças para piano onde nasceria, 15 anos depois, a versão definitiva de Clair de Lune.
O que surgiu como um exercício de juventude, amadureceu com o século: em 1905, já transformado pela revolução impressionista* musical, Debussy reescreveu a obra inteira.
Inspirada no poema de mesmo nome do poeta francês, Paul Verlaine, Clair de Lune, em sua versão escrita, descreve a alma como uma paisagem iluminada pela lua, um luar melancólico, doce e solitário.
Já a composição musical de Debussy traz a exata sensação do poema, porém sem palavras, e mesmo para aqueles que nunca leram o poema, conseguem sentir algo, um misto de melancolia, solidão, saudades e paixão.
Clair de Lune consegue não ser apenas uma música. Em um período onde o mundo ficava cada vez mais rápido, tecnologias assustadoramente novas surgiam, e o mundo se encaminhava cada vez mais até uma grande guerra, a “luz da lua” trazia um tom de calmaria e esperança.
Talvez, o mundo de hoje não seja tão diferente do mundo onde Debussy foi feito para estrelar. Clair de Lune não é só música. É um antídoto contra a pressa.
As pausas da composição não são apenas estéticas, são respirações de um ser humano lutando contra um mundo de drásticas mudanças e tentando manter um pouco de si em um mundo quase alienígena, alienígena de mudanças rápidas e preocupantes.
Em um atual mundo cheio de doomscrolling*, vídeos curtos, entretenimento rápido e dopamina self-service, Clair de Lune traz contemplação, calmaria, e um pedaço de um mundo que talvez jamais tenhamos novamente, um mundo menos agitado.
Talvez Debussy soubesse que o século que viria trazer guerras, sirenes, veículos velozes e um mundo barulhento por si só.
Clair de Lune é um lembrete de que a lua nunca se apaga, a mesma lua admirada pelos Neandertais, pelos nossos antepassados Homo sapiens, por grandes líderes como Gengis Khan, Marco Aurélio, ou Napoleão. Para todos eles, a lua sempre foi um tom de esperança, um ponto brilhante no céu que iluminava noites escuras e perigosas.
A luz da lua não é de Debussy ou Verlaine, e sim de todos que já passaram por esse planeta. E esse brilho jamais será roubado.
Confira a música:
Onde a luz da lua me atingiu
Aos meus 22 anos, mesmo apreciando música clássica e tendo um gosto relativamente eclético, tinha de certa forma esquecido Clair de Lune, mas um encontro inesperado reacendeu o significado daquela luz lunar de forma ainda mais profunda: meu mergulho em “moon: Remix RPG Adventure” (1997), um jogo cult de PlayStation 1, ainda inacabado em minha jornada, mas já eterno em seu impacto.
“moon”, assim mesmo, em letras minúsculas, não é um RPG comum. Nele, você não é o herói que brande a espada, mas a criança sugada para dentro do jogo, obrigada a testemunhar as consequências das ações de um cavaleiro medieval.
Ele percorre “Love-de-Gard” prometendo salvar o mundo de um dragão maligno, mas sua jornada é marcada por violência indiscriminada. Criaturas diferentes, talvez feias ou assustadoras, mas não necessariamente más, são ceifadas em nome de uma suposta glória.
Eis onde o jogo se revela uma obra revolucionária, e onde Clair de Lune ecoa de forma deslumbrante. Em “moon”, seu objetivo não é matar, mas amar. Você resgata as “almas” das criaturas injustamente assassinadas pelo cavaleiro. É um antídoto lúdico contra a violência simplista, um exercício de empatia.
E qual é a trilha sonora que envolve essa jornada única de resgate e amor? A própria Clair de Lune de Debussy.
Não é uma escolha só por ser uma música bonita, mas por transcender palavras para evocar a melancolia, a solidão e a beleza no ato de amar. De transmitir a serenidade de um momento melancólico, doce e solitário, como descrito por Verlaine.
Ela envolve o jogador na atmosfera contemplativa necessária para sua proposta: desacelerar, observar, sentir compaixão, amar o diferente. É de certa forma o mesmo refúgio contra a pressa e a brutalidade que Debussy ofereceu a um mundo à beira da guerra, agora transportado para um universo digital onde o “herói” tradicional é desconstruído.
Descobrir que esta obra-prima obscura, reconhecida como inspiração direta para o aclamado Undertale (2015) escolheu Clair de Lune como seu tema central, foi como redescobrir a música.
Ela deixou de ser apenas uma composição impressionista para ser um sentimento, um lembrete, dentro de um jogo, de que a verdadeira coragem pode estar no acolhimento, não no ataque; na escuta do silêncio interior e no resgate da luz alheia, não no ruído da destruição.
Mas infelizmente, mesmo “moon” sendo o que foi para mim, é aquele tipo de coisa que sempre tenho que explicar o que é, por quase ninguém conhecê-lo, talvez isso levante um questionamento. O amor vende?
Confira o poema “Clair de Lune”, de Paul Verlaine, escrito em 1869:
Sua alma é como uma bela paisagem iluminada pela lua,
Povoada de mascarados delicados e sombrios,
Que tocam alaúdes e dançam e têm um ar
De estarem tristes em seu fantástico corte.
Enquanto celebram em tom menor
Amor triunfante, empreendimento eficaz,
Eles têm um ar de saber que tudo é vão, —
E através do luar tranquilo suas canções se elevam,
O luar melancólico, doce e solitário,
Que faz sonhar os pássaros nas árvores,
E em suas bacias polidas de pedra branca
As fontes altas soluçam em êxtase.
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