
Um bicho estranho, até então sem nome, sem espécie e sem rosto, costumava se pronunciar nas primeiras horas do dia num terreno tombado pela Mata Atlântica. “Começamos a ouvir uma vocalização, sempre pela manhã. Descobrimos que era o sauá, uma espécie de primata endêmica”, conta Liege Santos (51).
Ela é a responsável por transformar uma antiga plantação de orquídeas na zona central de Santo Antônio do Pinhal, na Serra da Mantiqueira, em um local sagrado de preservação: o Espaço Sauá. Atualmente, o governo brasileiro estima que há 10 mil adultos vivos da espécie, boa parte deles encontrados na Mantiqueira. Pequenos demais para serem alvos de caçadores, os sauás são vítimas do desmatamento, das queimadas e da expansão urbana.
Quem é o Sauá?
O sauá, também conhecido por guigó, é um primata de corpo cinza aveludado e cauda vermelho cobre. Seu nome científico, Callicebus nigrifrons, explica sua carcaterística mais chamativa: “belo primata de testa negra”. Ele se se alimenta de frutos, flores, folhas, sementes, insetos e vive em grupos pequenos. “Demos o nome do projeto em homenagem a ele porque é um bioindicador, isso significa que ele está ali porque há água, alimento e amor”, diz Liege.

A empreendedora demorou um ano e meio para limpar a área de 80 mil m² (equivalente a cerca de 10 campos de futebol), mais da metade dela composta pela mata nativa onde vivem os primatas. Vizinha do terreno, ela descobriu que o espaço era o que era por uma casualidade.
“Eu moro na rua ao lado. Era uma área de mata abandonada”, recorda. Certo dia, a queda de uma árvore do matagal danificou um poste perto de sua casa, o que levou Liege a verificar a situação no desconhecido terreno dos vizinhos. Tudo mudou a partir desse momento — “Entrei no espaço e esqueci do poste”, lembra.
Após o episódio, Liege ficou amiga da família proprietária, agricultores de várias gerações, e lhes apresentou uma nova linguagem de cuidado com a terra.
“Eu disse para produzir menos e deixar a mata crescer. Eles toparam.”

Conexão com a natureza, afinal, rende bons frutos
O projeto, financiado com recursos próprios, nasceu em 2017 entendendo quem havia chegado antes de tudo: aves, répteis, anfíbios, plantas. A primeira etapa de “obras” começou somente seis anos depois, retirando concreto, ferro e madeira intrusos naquela mata. Esse trabalho durou até metade do ano passado, quando o Sauá foi parcialmente aberto para atividades acadêmicas com alunos, professores e pesquisadores.
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Em 2025, quando passou a receber todo o público, a Feira da Fartura se tornou o grande acontecimento do Sauá. Todos os sábados, das 9h às 13h, moradores e turistas curiosos podem encontrar, em harmonia com a fauna e flora locais, alimentos orgânicos com preços que cabem no bolso, música clássica, livros e artesanato local.
Parte das verduras, frutas e outros alimentos cultivados lá acabam parando na mesa do Café do Sauá, que funciona aos fins de semana abastecido por uma cozinha afetiva, que respeita o ritmo da natureza e produz uma elogiada torta de maçã.
No futuro, o café deve ser transformado em uma cozinha-escola para resgatar a cultura gastronômica local desde a raiz, ensinando o que os antigos tropeiros comiam em suas expedições e explorando as PANCs (plantas alimentícias não convencionais).

A feira da fartura nasceu das memórias da infância de Liege em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Por alguns meses no ano, ela acampava com a família próximo a uma barragem onde se instalava a Barraca da Fartura. Havia churrasco, bebidas e as pessoas se preenchiam de diferentes formas com aquela comida. “O nome veio disso, de você se sentir pleno, farto”, explica.
A alimentação natural, de qualidade e com amplo acesso é uma das bandeiras inegociáveis do Sauá. “Infelizmente, a comida orgânica ainda é muito gourmetizada, mas a gente quer democratizar”, defende Liege, que levou o espaço a conquistar também uma posição admirável no turismo ecológico e na educação ambiental.
Sentidos aguçados pelo mato
O Sauá possui três grandes estufas, ricas em espécies e vida, uma delas concebida para mobilizar completamente nossos sentidos. Chamada de Jardim Sensorial, essa estufa especial funciona por visitas agendadas e possui diferentes canteiros que estimulam separadamente a visão, tato, olfato e paladar, e todos eles juntos têm a habilidade de reativar ou criar memórias.
No canteiro da visão, há uma variedade de cores, formatos e tamanhos. No do tato, você pode lembrar do seu bichinho de estimação sentindo os pelinhos macios de uma Rabo de Gato ou passando a mão em um Confrei, planta com propriedades medicinais e textura áspera como a língua de um gatinho.
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Na parte dedica ao olfato, vai se perguntar como a erva-baleeira pode ter tanto cheiro de miojo, salgadinho ou caldo Knorr, há muitas interpretações. E no canteiro do paladar, tem a oportunidade de experimentar flores que não acreditaria serem comestíveis. Todo esse combo de experiências é encontrado a 200 metros do centro de Santo Antônio: o Sauá fica localizado na rua Antônio José Ramos, n° 66.
