
Ao optarmos pela censura ao debate de ideias, estamos nos condenando a sermos medíocres como pessoas e como sociedade.
A Bienal de São Paulo cancelou, na última semana, um debate previsto com a princesa Marie-Esmeralda, da Bélgica. Motivo: as atrocidades cometidas no Congo no final do século 19 pelo rei Leopoldo 2°, responsável por mais de 10 milhões de mortes na África.
Marie-Esmeralda sempre se colocou contra o passado brutal da família, chegando a pedir a retirada de estátuas de Leopoldo 2° de praças, ruas e outros lugares públicos da Bélgica. Além disso, ela é reconhecida como ativista ambiental, feminista e ardente defensora dos povos originários. Mas nada disso importou…
Alegando questões de segurança, a Bienal de São Paulo preferiu cancelar Maria-Esmeralda a debater, em público, o poder da arte na transformação do mundo e, quem sabe, as ações criminosas e ultrajantes que diversos países cometeram — e ainda cometem — ao longo de sua história.
O episódio me lembra, em escala maior, o que ocorreu este ano com a FLIM, a Festa Literomusical de São José dos Campos, envolvendo o cancelamento da participação da jornalista Milly Lacombe no evento na esteira de críticas em nome de valores da família.
O que houve é público: o veto a Milly implodiu a FLIM, com o abandono coletivo de escritores e convidados. Um papelão…
Relembre: FLIM é adiada em São José após veto do prefeito a Milly Lacombe e onda de cancelamentos
Vivemos tempos estranhos…
Nesse tempo obtuso, instituições que deveriam defender a liberdade de opinião optam, pura e simplesmente, pelo cancelamento e pela censura ao invés de estimularem o debate, a troca de ideias, a oxigenação dos temas que, muitas vezes, nos dividem.
Qualquer violência contra o ser humano me revolta, mas nem por isso credito a Marie-Esmeralda os crimes abomináveis cometidos por seu bisavô. A meu ver, o pensamento de Milly Lacombe é por demais simplista, quase tatibitate, mas nem por isso o considero uma ameaça a valor moral algum. A verdade é que toda censura é burra…
É triste. Episódios desse tipo, que não são isolados, nos apequenam, reduzem nossos horizontes, desnudam nossos limites.
Para esse tipo de nudez, na qual não conseguimos conviver com opostos e consideramos uma ameaça todo aquilo que não é espelho, o castigo é inevitável: estamos nos autocondenando, todos nós, a sermos medíocres como pessoas e como sociedade. É isso que queremos?
PS: citei a “FLIM 1” acima e me sinto na obrigação de falar da “FLIM 2”, marcada para o final deste mês de novembro. Desejo boa sorte a todos os autores, artistas e convidados que vão encarar o desafio de estar presentes nessa nova versão da festa.
A FLIM ficou menor, mais tímida, menos abrangente? Bem, a responsabilidade não é de vocês. Mas a chance, sim. Aproveitem, mostrem seu trabalho, sejam a voz da cultura e brilhem. Brilhem…
Confira: Lula pede fim das guerras e ‘nova derrota aos negacionistas’ na abertura da COP30 em Belém