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    Toda nudez será castigada

    O cancelamento como punição ao diálogo: Hélcio Costa reflete sobre os recentes casos de censura em eventos culturais — da Bienal de São Paulo à FLIM
    11 de novembro de 2025Nenhum comentário3 Minutos de Leitura
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    Marie-Esmeralda, princesa da Bélgica, teve a participação cancelada na Bienal de SP; organização alegou que havia conflito entre “o trágico passado colonial belga e os temas abordados pela exposição” (Créditos: Reprodução/Internet)

    Ao optarmos pela censura ao debate de ideias, estamos nos condenando a sermos medíocres como pessoas e como sociedade.

    A Bienal de São Paulo cancelou, na última semana, um debate previsto com a princesa Marie-Esmeralda, da Bélgica. Motivo: as atrocidades cometidas no Congo no final do século 19 pelo rei Leopoldo 2°, responsável por mais de 10 milhões de mortes na África.

    Marie-Esmeralda sempre se colocou contra o passado brutal da família, chegando a pedir a retirada de estátuas de Leopoldo 2° de praças, ruas e outros lugares públicos da Bélgica. Além disso, ela é reconhecida como ativista ambiental, feminista e ardente defensora dos povos originários. Mas nada disso importou…

    Alegando questões de segurança, a Bienal de São Paulo preferiu cancelar Maria-Esmeralda a debater, em público, o poder da arte na transformação do mundo e, quem sabe, as ações criminosas e ultrajantes que diversos países cometeram — e ainda cometem — ao longo de sua história.

    O episódio me lembra, em escala maior, o que ocorreu este ano com a FLIM, a Festa Literomusical de São José dos Campos, envolvendo o cancelamento da participação da jornalista Milly Lacombe no evento na esteira de críticas em nome de valores da família.

    O que houve é público: o veto a Milly implodiu a FLIM, com o abandono coletivo de escritores e convidados. Um papelão…

    Relembre: FLIM é adiada em São José após veto do prefeito a Milly Lacombe e onda de cancelamentos

    Vivemos tempos estranhos…

    Nesse tempo obtuso, instituições que deveriam defender a liberdade de opinião optam, pura e simplesmente, pelo cancelamento e pela censura ao invés de estimularem o debate, a troca de ideias, a oxigenação dos temas que, muitas vezes, nos dividem.

    Qualquer violência contra o ser humano me revolta, mas nem por isso credito a Marie-Esmeralda os crimes abomináveis cometidos por seu bisavô. A meu ver, o pensamento de Milly Lacombe é por demais simplista, quase tatibitate, mas nem por isso o considero uma ameaça a valor moral algum. A verdade é que toda censura é burra…

    É triste. Episódios desse tipo, que não são isolados, nos apequenam, reduzem nossos horizontes, desnudam nossos limites.

    Para esse tipo de nudez, na qual não conseguimos conviver com opostos e consideramos uma ameaça todo aquilo que não é espelho, o castigo é inevitável: estamos nos autocondenando, todos nós, a sermos medíocres como pessoas e como sociedade. É isso que queremos?


    PS: citei a “FLIM 1” acima e me sinto na obrigação de falar da “FLIM 2”, marcada para o final deste mês de novembro. Desejo boa sorte a todos os autores, artistas e convidados que vão encarar o desafio de estar presentes nessa nova versão da festa.

    A FLIM ficou menor, mais tímida, menos abrangente? Bem, a responsabilidade não é de vocês. Mas a chance, sim. Aproveitem, mostrem seu trabalho, sejam a voz da cultura e brilhem. Brilhem…

    Confira: Lula pede fim das guerras e ‘nova derrota aos negacionistas’ na abertura da COP30 em Belém

    africa belgica colonia colonização flim sao jose dos campos toda nudez será castigada

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Hélcio Costa

    Hélcio Costa

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