
Tudo começou com uma conversa atravessada por fusos horários, cafés e áudios de WhatsApp com Francine Tavares, especialista em ESG radicada na Austrália. Entre um insight e outro, voltamos a um tema que poucos querem encarar, mas que pode decidir o futuro econômico e ambiental de um país: a formalização do crédito hídrico.
Governos e empresas ainda tratam o assunto como detalhe. Mas água não é só “E” de ESG. É moeda de valor, risco financeiro, vantagem competitiva e, acima de tudo, garantia de segurança e saúde hídrica — ou seja, são o “S” e o “G” em toda a cadeia hídrica.
Ignorar isso custa caro: paralisações, multas, CAPEX imprevisto, reputação abalada e gastos públicos crescentes com saúde. Quando a fatura chega, não é simbólica: é potencialmente devastadora.
O cenário global não é confortável. Estudos recentes indicam que cerca de 31% do PIB mundial poderá operar em áreas de alto estresse hídrico até 2050. Em paralelo, uma parcela relevante do esgoto doméstico ainda não é tratada com segurança no mundo, voltando aos rios e encarecendo a captação.
A tradução prática disso é simples: custo mais volátil, maior risco de paradas operacionais por qualidade hídrica fora de especificação e pressão de investidores por planos claros de resiliência hídrica.
Nas cadeias de suprimento, o tema já virou linha no DRE. Levantamentos do CDP (Carbon Disclosure Project) — organização global que coleta e divulga dados ambientais de empresas e governos, incluindo riscos hídricos — estimam dezenas de bilhões de dólares ameaçados por problemas relacionados à água.
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Metade dos grandes compradores globais já exige que seus fornecedores estabeleçam metas e reportem, de forma transparente, o uso e a gestão da água. Quem não mede vira gargalo e, cedo ou tarde, será substituído por quem mede e entrega.
No Brasil, temos o nosso grande “buraco no balde”: perdemos perto de 40% da água tratada entre a captação e a torneira. É como fabricar 10 produtos e jogar quase 4 no lixo. E pior: essa água já foi captada, bombeada, tratada e paga.
A boa notícia é que existe tecnologia brasileira atacando a raiz do problema. A Stattus4 — liderada pelos cofundadores Marília Lara (CEO) e Antonio Oliveira (CTO) — “ouve” a rede de distribuição com acústica e inteligência artificial para detectar vazamentos invisíveis e priorizar reparos onde a perda é maior.
Não é P&D de laboratório; é operação real com concessionárias como Sanepar, Sabesp, Copasa e Águas do Brasil. O resultado é direto: menos água perdida, menos OPEX e mais segurança hídrica para cidades e indústria. Cada vazamento antecipado significa energia poupada, pressão estabilizada na rede e um pouco mais de previsibilidade para quem depende de água de qualidade estável no processo produtivo.
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Agora, a parte “quase polêmica” — e minha opinião: PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) é necessário, mas insuficiente. Pagar por floresta em pé, recarga de aquíferos e serviços ecossistêmicos é correto, porém não coloca a água no centro da conversa econômica se ficar restrito a projetos pontuais.
Precisamos operacionalizar um “crédito hídrico”: um instrumento de mercado que remunere, de alguma forma, métricas que efetivamente preservem e regenerem nossos recursos hídricos, reaproveitados ou devolvidos com qualidade.
Portanto, é atrelar valor a três frentes:
- Redução comprovada de perdas na distribuição;
- Reuso e circularidade na indústria;
- Regeneração de mananciais com métricas auditáveis.
Esse crédito deve vir acompanhado de PPPs orientadas a desempenho. Se o Marco do Saneamento já atraiu capital, falta direcionar parte desses investimentos para ganhos mensuráveis de disponibilidade hídrica.
Em termos práticos: concessionárias e parceiros privados que comprovarem redução de perdas e aumento de oferta deveriam capturar benefícios financeiros ou fiscais, como metas de eficiência convertidas em créditos negociáveis.
Assim como o crédito de carbono organizou um esforço difuso, o crédito hídrico pode organizar o que é ainda mais tangível para o Brasil: água disponível hoje para manter cidades e fábricas de pé.
No podcast com a Francine, vamos aprofundar a comparação Austrália x Brasil e discutir modelos para tirar o crédito hídrico do papel. Até lá, a pergunta que vale ouro (e água) é: quanto custa, na sua operação, 1 hora sem água confiável? Se a resposta não vier de cabeça, seu ESG continua financiando um risco silencioso. Hora de colocar a água no centro da estratégia.