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    ESG na Prática

    Você ainda vai sentir sede. E não vai ser de lucro!

    27 de julho de 2025Nenhum comentário4 Minutos de Leitura
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    Você ainda vai sentir sede. E não vai ser de lucro!
    (Créditos: Andrea Piacquadio/Pexels)

    Por décadas, a lógica empresarial ignorou uma variável silenciosa: os limites ecológicos do planeta. Agora, essa conta chegou e está sendo cobrada com juros em forma de secas históricas, enchentes arrasadoras e colapsos sistêmicos.

    No epicentro desse novo cenário, um paradoxo se revela: a natureza, por tanto tempo tratada como custo invisível, virou ativo estratégico.

    E isso está reescrevendo as regras do jogo corporativo.

    O capital natural como motor da economia (e do ESG)

    De acordo com o Fórum Econômico Mundial, mais da metade do PIB global US$ 44 trilhões é moderada ou altamente dependente da natureza e de seus serviços ecossistêmicos, como água, clima estável e solo fértil.

    No entanto, seguimos degradando esse capital natural a uma taxa sem precedentes: o planeta perdeu cerca de 69% das populações de vertebrados selvagens desde 1970, segundo o relatório Living Planet de 2022, da WWF.

    E segundo a ONG Global Footprint Network, que calcula indicadores ecológicos consumidos no planeta com base em dados da York University, atualmente estamos consumindo recursos 1,8 vezes mais rápido do que a Terra pode regenerar ou seja, precisaríamos de 1,8 planetas para sustentar nosso padrão de consumo.

    Isso significa que, a partir desse dia, 24 de Julho de 2025, passamos a viver no “cheque” ecológico, consumindo recursos além da capacidade do planeta de se recuperar.

    E isso tem a ver com o ESG? Sem dúvida!!

    Empresas que dependem de recursos naturais seja na agricultura, mineração, energia, turismo ou indústria tão cada vez mais expostas a riscos financeiros, operacionais e reputacionais ligados à degradação ambiental. E vale lembrar que quando a natureza colapsa, o mercado responde. E negativamente!

    Em 2021, a seca no Brasil reduziu drasticamente a geração hidrelétrica, levando à alta do custo da energia e ao acionamento de usinas termelétricas. O prejuízo foi calculado em mais de R$ 15 bilhões só no setor elétrico. Já no agronegócio, o impacto da estiagem e das mudanças no regime de chuvas reduziu a produtividade da safra de milho em 20% no Centro-Oeste.

    Nos Estados Unidos, o banco Citigroup publicou um estudo estimando que empresas podem perder até 10% de valor de mercado se não endereçarem riscos relacionados à biodiversidade e aos recursos naturais (fonte: “No Tree, No Bee, No Honey, No Money”, Citigroup Research, 2021).

    Leia mais: Entre a caneta e a coerência: qual Lula assina o ‘PL da Devastação’?

    A corrida por ativos vivos

    Com a escalada desses riscos, o mercado começou a reagir. Em 2021, o Natural Capital Protocol passou a orientar grandes empresas na medição de sua dependência e impacto sobre os ecossistemas.

    A iniciativa TNFD, Taskforce on Nature-related Financial Disclosures, lançada em 2020, está desenvolvendo frameworks para que empresas relatem como estão protegendo ou destruindo a natureza que as sustenta.

    Alguns países, como a Nova Zelândia, já reconhecem os direitos legais de rios e florestas. E fundos de investimento como o HSBC Natural Capital Fund, de US$ 100 milhões, estão apostando em negócios que regeneram ecossistemas.

    No Brasil, o BNDES lançou em 2023 o edital de R$ 1 bilhão para concessões de florestas públicas com foco em preservação e manejo sustentável, um marco para o mercado verde nacional.

    ESG: a nova contabilidade da sobrevivência

    O desafio agora é mensurar corretamente esses impactos. Iniciativas como o Science Based Targets for Nature (SBTN) estão desenvolvendo métricas claras para ajudar empresas a definir metas baseadas em evidências científicas. E a demanda dos consumidores e investidores por transparência só aumenta.

    A consultoria EY revelou em 2023 que 76% dos investidores institucionais globais estão dispostos a desinvestir de empresas com desempenho ESG fraco, especialmente aquelas que ignoram riscos ambientais.

    Água, floresta e solo podem também ser planilhas de impacto, não se trata mais de “salvar o planeta” por altruísmo, mas de salvar os negócios da falência ecológica. ESG, quando levado a sério, é uma ferramenta de inteligência estratégica e não um selo de marketing.

    Quem ainda vê preservação como custo logo sentirá sede.

    E não será de lucro.

    agua esg meio ambiente recursos naturais

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Luís Magalhães

    Luís Magalhães

    Luís Fernando Carneiro Magalhães é co-fundador e sócio-diretor da srtatup joseense O2eco Tecnologia Ambiental, cujo objetivo é deixar um impacto positivo no meio ambiente. Estudou Agronomia na UFFRJ e Business & Marketing na Universidade Católica da Austrália e na Universidade de Canberra.
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