
Por décadas, a lógica empresarial ignorou uma variável silenciosa: os limites ecológicos do planeta. Agora, essa conta chegou e está sendo cobrada com juros em forma de secas históricas, enchentes arrasadoras e colapsos sistêmicos.
No epicentro desse novo cenário, um paradoxo se revela: a natureza, por tanto tempo tratada como custo invisível, virou ativo estratégico.
E isso está reescrevendo as regras do jogo corporativo.
O capital natural como motor da economia (e do ESG)
De acordo com o Fórum Econômico Mundial, mais da metade do PIB global US$ 44 trilhões é moderada ou altamente dependente da natureza e de seus serviços ecossistêmicos, como água, clima estável e solo fértil.
No entanto, seguimos degradando esse capital natural a uma taxa sem precedentes: o planeta perdeu cerca de 69% das populações de vertebrados selvagens desde 1970, segundo o relatório Living Planet de 2022, da WWF.
E segundo a ONG Global Footprint Network, que calcula indicadores ecológicos consumidos no planeta com base em dados da York University, atualmente estamos consumindo recursos 1,8 vezes mais rápido do que a Terra pode regenerar ou seja, precisaríamos de 1,8 planetas para sustentar nosso padrão de consumo.
Isso significa que, a partir desse dia, 24 de Julho de 2025, passamos a viver no “cheque” ecológico, consumindo recursos além da capacidade do planeta de se recuperar.
E isso tem a ver com o ESG? Sem dúvida!!
Empresas que dependem de recursos naturais seja na agricultura, mineração, energia, turismo ou indústria tão cada vez mais expostas a riscos financeiros, operacionais e reputacionais ligados à degradação ambiental. E vale lembrar que quando a natureza colapsa, o mercado responde. E negativamente!
Em 2021, a seca no Brasil reduziu drasticamente a geração hidrelétrica, levando à alta do custo da energia e ao acionamento de usinas termelétricas. O prejuízo foi calculado em mais de R$ 15 bilhões só no setor elétrico. Já no agronegócio, o impacto da estiagem e das mudanças no regime de chuvas reduziu a produtividade da safra de milho em 20% no Centro-Oeste.
Nos Estados Unidos, o banco Citigroup publicou um estudo estimando que empresas podem perder até 10% de valor de mercado se não endereçarem riscos relacionados à biodiversidade e aos recursos naturais (fonte: “No Tree, No Bee, No Honey, No Money”, Citigroup Research, 2021).
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A corrida por ativos vivos
Com a escalada desses riscos, o mercado começou a reagir. Em 2021, o Natural Capital Protocol passou a orientar grandes empresas na medição de sua dependência e impacto sobre os ecossistemas.
A iniciativa TNFD, Taskforce on Nature-related Financial Disclosures, lançada em 2020, está desenvolvendo frameworks para que empresas relatem como estão protegendo ou destruindo a natureza que as sustenta.
Alguns países, como a Nova Zelândia, já reconhecem os direitos legais de rios e florestas. E fundos de investimento como o HSBC Natural Capital Fund, de US$ 100 milhões, estão apostando em negócios que regeneram ecossistemas.
No Brasil, o BNDES lançou em 2023 o edital de R$ 1 bilhão para concessões de florestas públicas com foco em preservação e manejo sustentável, um marco para o mercado verde nacional.
ESG: a nova contabilidade da sobrevivência
O desafio agora é mensurar corretamente esses impactos. Iniciativas como o Science Based Targets for Nature (SBTN) estão desenvolvendo métricas claras para ajudar empresas a definir metas baseadas em evidências científicas. E a demanda dos consumidores e investidores por transparência só aumenta.
A consultoria EY revelou em 2023 que 76% dos investidores institucionais globais estão dispostos a desinvestir de empresas com desempenho ESG fraco, especialmente aquelas que ignoram riscos ambientais.
Água, floresta e solo podem também ser planilhas de impacto, não se trata mais de “salvar o planeta” por altruísmo, mas de salvar os negócios da falência ecológica. ESG, quando levado a sério, é uma ferramenta de inteligência estratégica e não um selo de marketing.
Quem ainda vê preservação como custo logo sentirá sede.
E não será de lucro.