
A famosa frase “Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude” é dita por Tancredi Falconeri, sobrinho do Príncipe de Salina, no livro O Leopardo (Il Gattopardo), de Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957).
Na época da Unificação da Itália, a ideia era de que para a aristocracia manter posições e privilégios diante das mudanças sociais e políticas, precisava se adaptar e aceitar algumas transformações.
Lampedusa morreu de câncer um ano antes de o livro ser publicado. Ele nunca soube que seria um dos clássicos da literatura (e mais tarde do cinema, quando dirigido por Luchino Visconti, em 1963).
Os clássicos têm a capacidade de transcender o tempo e as gerações. E nada mais atual do que a frase de Tancredi. O leopardo (do título) está presente no brasão da família decadente. O animal é visto como forte e dominante, mas precisa se adaptar para não ser extinto.

Estamos sempre nos atualizando sobre mudanças climáticas, sobre a necessidade de conservação de solo e redução de espaço, etc. O mundo fica cada vez menor.
Semana passada, a amiga Pitiu Bomfin (colunista deste Portal) me encaminhou um artigo da Ars Technica sobre a digitação destrutiva de livros.
Não sei ainda se estou chocada. Parece que ficamos imunes às coisas do mal feitas em nome do bem. Lembrei-me do susto e indignação provocados por Farenheit 451, romance distópico de ficção científica soft, escrito por Ray Bradbury (publicado em 1953).
A história se passa num futuro em que os bombeiros queimam livros, pois a leitura de qualquer material impresso é ilegal e considerada perigosa para a estabilidade social. O título se refere à queima do papel em 451 graus Fahrenheit (232,78 °C – pesquisei no chat).

O artigo da Ars Technica mostra como a empresa de IA Anthropic comprou (em grande escala) livros para serem desencapados e desgrudados da lombada para serem digitalizados. Os volumes são imensos, inimagináveis.
Depois de digitalizados são destruídos. Uma realidade de novas fogueiras?
“O juiz William Alsup qualificou a operação de digitalização destrutiva como uso justo, porque a Anthropic havia adquirido legalmente os livros primeiro, destruído cada cópia impressa após a digitalização e mantido os arquivos digitais internamente, em vez de distribuí-los. O juiz comparou o processo à ‘conservação de espaço’ por meio da conversão de formatos e o considerou transformador.”
Para pensar: o ChatGPT (e outros) precisa ser alimentado por uma rede neural de bilhões de palavras; onde estão essas palavras? Nos livros.
Se os jovens não leem e não aumentam seu vocabulário, os bots saberão ler e ordenar o pensamento? Esses jovens estão se preparando para esse “depois da esquina”?
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Modelos bem treinados saberão construir respostas mais eficazes. Dizia o grande filósofo do futebol Neném Prancha: “treinar é só para craques, eles ficam cada vez mais craques. Se treinar perna de pau, ele vai ser mais perna de pau”.
O bot faria as ligações que fiz para a construção deste texto (Lampedusa + Bradbury + Arstechnica + Neném Prancha + Nelson Rodrigues)?
Será? Devemos nos preocupar? Vamos ter a IA substituindo a cabeça criativa dos que se dedicam? Preciso voltar ao artigo e ler novamente.
Nas palavras de Nelson Rodrigues: “Se os fatos provam o contrário, pior para os fatos…”