
O anúncio feito pelo príncipe William nesta sexta-feira, 4 de abril, de que o Earthshot Prize – uma das premiações ambientais mais prestigiadas e multimilionárias do mundo, será realizada no Brasil em novembro de 2025, deveria ecoar como um chamado coletivo ao país: não podemos mais adiar o protagonismo ambiental que o mundo já espera de nós. Criado em 2020 com o objetivo de fomentar soluções para os principais desafios ambientais da década, o Earthshot chega ao Brasil em um momento emblemático: somos, hoje, um verdadeiro “hotspot” global de oportunidades ligadas à natureza. E isso não é retórica.
Somos o país com a maior biodiversidade do planeta, cerca de 20% das espécies conhecidas vivem aqui, segundo o IBGE. Detemos 12% da água doce superficial do mundo e mais de 60% da Floresta Amazônica, além de outros biomas igualmente estratégicos, como o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pantanal, todos sob crescente pressão. Mas o protagonismo ambiental não vem apenas da natureza que nos cerca, ele também está na capacidade de inovação que emerge dos nossos territórios.
De startups com soluções baseadas na natureza a projetos de regeneração florestal e saneamento com baixa emissão de carbono, o Brasil está gerando respostas concretas aos desafios do século XXI. Tecnologias como o reuso inteligente de água, compostagem de resíduos urbanos, sistemas agroflorestais e o avanço de ‘nature-based solutions” não são mais exceção, mas uma tendência crescente. O país ocupa hoje a segunda posição no ranking global de emissão de Green Bonds em mercados emergentes, com mais de US$ 10 bilhões emitidos apenas em 2023, segundo relatório da Climate Bonds Initiative. Isso revela um ecossistema de negócios verdes pulsante, apesar da falta de uma política nacional robusta e articulada para acelerar esse movimento.
E aqui está a encruzilhada: o setor privado e a sociedade civil têm feito sua parte, seja com iniciativas de impacto, seja pressionando por boas práticas ESG (ambientais, sociais e de governança). Mas o poder público ainda patina quando se trata de assumir o papel de catalisador estratégico. Em vez de liderar a transição ecológica com ousadia, muitas vezes o governo federal e estados se limitam a agendas tímidas, desarticuladas ou, pior, atrasadas.
A realização do Earthshot Prize em território brasileiro é, portanto, muito mais do que um evento internacional: é uma chance histórica de mostrar ao mundo que o Brasil não é apenas o palco das soluções, nós somos as soluções. E isso requer posicionamento, coordenação, investimento em ciência, em educação ambiental, em tecnologias verdes, em projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Não se trata de vaidade ou de buscar selos internacionais, mas de compreender que o futuro das economias globais será cada vez mais verde, circular e regenerativo. Quem liderar esse movimento terá acesso a investimentos, empregos e credibilidade internacional. Quem ficar para trás, será apenas fornecedor de commodities de baixo valor agregado.
O Prêmio Earthshot, que destina anualmente cinco prêmios de 1 milhão de libras a iniciativas inovadoras, vem nos lembrar que o tempo de discursos já passou. É hora de “walk the talk”. O Brasil, com sua riqueza natural, cultural e humana, tem tudo para ser protagonista da nova economia verde. Mas é preciso querer. E fazer.
Se não aproveitarmos mais essa janela que se abre com o Earthshot, ela pode se fechar diante de nossos olhos, e ser aberta por outros países mais preparados, mesmo com menos biodiversidade. O planeta já entendeu que o Brasil é central para a solução da crise climática. Falta o Brasil entender isso também.
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