
Durante décadas, o crescimento econômico foi visto como o principal indicador de sucesso para países e empresas. O Produto Interno Bruto (PIB) tornou-se o termômetro universal para medir o progresso, o desenvolvimento e a prosperidade. No entanto, esse modelo baseado no crescimento contínuo começa a dar sinais claros de esgotamento.
A crise climática, o aumento das desigualdades sociais e o esgotamento dos recursos naturais são evidências de que o crescimento econômico ilimitado, sem levar em conta os impactos sociais e ambientais, é insustentável. Nesse cenário, surge a proposta de um novo modelo econômico, a chamada Economia Donut, desenvolvida por Kate Raworth, que propõe uma alternativa mais equilibrada, sustentável e orientada ao bem-estar humano.
Modelo Donut
O modelo da Economia Donut parte de um questionamento central: o crescimento econômico deve ser o objetivo final de uma sociedade? Raworth argumenta que a busca constante pelo crescimento, medida pelo PIB, ignora fatores essenciais para o desenvolvimento humano e a estabilidade ambiental. O PIB mede a produção de bens e serviços, mas não considera a distribuição de riqueza, a degradação ambiental ou o bem-estar da população. Assim, uma economia pode crescer em termos de PIB, enquanto a qualidade de vida das pessoas e a saúde dos ecossistemas não acompanham o crescimento.
A proposta da Economia Donut é simples, porém revolucionária. Raworth apresenta um modelo visual em forma de donut, composto por dois círculos concêntricos. O círculo interno representa o limite social, o mínimo que uma sociedade precisa para garantir dignidade e bem-estar humano, como acesso à saúde, educação, renda, igualdade e segurança. O círculo externo simboliza os limites planetários, os limites ecológicos que não devem ser ultrapassados para garantir a integridade dos ecossistemas, como emissões de carbono, perda de biodiversidade, poluição e uso excessivo de recursos naturais. O espaço entre esses dois círculos, o “espaço seguro e justo”, é onde a humanidade pode prosperar de forma sustentável.
Contrastes
Esse modelo contrasta diretamente com a lógica do PIB, que foca apenas na maximização da produção e do consumo sem considerar os efeitos colaterais desse crescimento. Países e empresas são pressionados a aumentar constantemente sua produção, mesmo que isso signifique aumentar desigualdades e danificar o meio ambiente. O modelo do PIB também não diferencia crescimento saudável de crescimento destrutivo, o desmatamento e o aumento de vendas de remédios para tratar doenças causadas por poluição, por exemplo, podem fazer o PIB crescer, mas refletem impactos negativos para a sociedade.
A proposta de Raworth está alinhada com o movimento ESG (Meio Ambiente, Social e Governança), que veio de uma crescente no mundo corporativo e no mercado financeiro, mas que atualmente sofre ataques, principalmente do governo atual do EUA.
Ao integrar os princípios do ESG à lógica da Economia Donut, cria-se uma abordagem que busca um equilíbrio real entre desenvolvimento econômico, justiça social e preservação ambiental. Uma empresa, por exemplo, pode não apresentar um crescimento expressivo em termos de faturamento (medido pelo PIB), mas pode ser mais resiliente e sustentável ao investir em energia limpa, reduzir sua pegada de carbono e garantir condições de trabalho dignas para seus funcionários e a médio-longo prazos possuir uma sustentabilidade empresarial perene.
Desafios
O desafio é que o sistema atual ainda está muito enraizado na lógica do crescimento e do PIB. Políticas públicas, decisões de investimento e estratégias empresariais ainda são majoritariamente guiadas por indicadores financeiros de curto prazo. Essa mentalidade impede que soluções de longo prazo, mais sustentáveis e socialmente justas, sejam plenamente adotadas. Além disso, há uma resistência política e econômica para mudar esse paradigma, já que muitos setores lucram com a exploração de recursos naturais e com modelos produtivos baseados em mão de obra barata e desregulação ambiental.
A Economia Donut e o ESG apontam para um futuro em que o sucesso não será mais medido apenas por números de crescimento econômico, mas pela capacidade de garantir um equilíbrio entre prosperidade econômica, justiça social e preservação ambiental. O mundo precisa urgentemente de uma abordagem mais holística, onde o bem-estar humano e a saúde do planeta estejam no centro das decisões econômicas.
Crescimento por si só não é progresso. O verdadeiro progresso será alcançado quando o crescimento respeitar os limites ecológicos e sociais, garantindo que todos tenham acesso a uma vida digna, sem comprometer os recursos para as futuras gerações.