
Elis Regina faz 80 anos hoje. Mas é um absurdo pensar nela com essa idade. Não porque não merecesse ter vivido mais, mas porque é impossível imaginá-la envelhecendo, acomodada, assistindo a homenagens.
Elis não nunca combinou com a velhice, essa sábia companhia dos longevos. Era feita de urgência. Vivia rápido, cantava como se estivesse sempre prestes a explodir, como se houvesse uma pressa incontrolável dentro dela.
O tempo, que costuma desgastar vozes e apagar memórias, tentou alcançá-la. Falhou. O tempo não soube o que fazer com Elis Regina.
Porque Elis não era apenas uma cantora, era um fenômeno atmosférico. Cada aparição sua era uma tempestade que arrastava tudo.
Quando subia no palco, não havia espaço para mais nada. A banda obedecia, o público parava de respirar, as palavras nas letras das canções, antes tão banais, tornavam-se revelações. Não interpretava músicas.
Possuía-as. Transformava-as. Se uma canção passava por sua garganta, ela nunca mais voltava a ser a mesma. Um compositor podia se orgulhar de ter sua música gravada por ela, mas também sabia que, dali em diante, ela pertenceria a Elis. Seu canto era definitivo.
O Brasil sempre teve grandes cantoras, mas Elis foi outra coisa. Não bastava a técnica impecável, a afinação assustadora, a capacidade de saltar de uma nota para outra com a precisão de um bisturi. O que fazia dela única era a fúria.
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Cantava com o corpo inteiro, com os olhos, com os dentes. Mexia os braços como se regesse um furacão. Tinha o riso solto e um gênio indomável. Foi amada e temida na mesma proporção. E nunca se esforçou para ser diferente.
Elis nasceu em Porto Alegre, em 1945, e desde criança sua voz incomodava. Não porque fosse desagradável — ao contrário, era algo tão impressionante que causava desconfiança. Como uma menina tão pequena podia cantar daquele jeito?
Começou em programas de calouros no rádio, venceu alguns, perdeu outros, mas sempre deixava a plateia atônita. Seu pai, um homem duro, não via muito futuro naquilo, mas sua mãe, dona Ercy, acreditava.
Foi ela quem apostou tudo na menina. Aos 18 anos, Elis já era conhecida no sul. Aos 20, depois de ser levada para São Paulo, tornou-se um furacão nacional.
O Brasil dos anos 60 era uma panela de pressão. A Bossa Nova suavizava as melodias, a Jovem Guarda brincava com o rock, o samba e o baião continuavam firmes, mas havia um novo elemento no ar: a urgência.
O país estava inquieto, político, elétrico. E Elis Regina era exatamente isso. Quando venceu o Festival da Canção com “Arrastão”, em 1965, foi como um trovão.
Estava ali uma cantora que não se contentava em apenas cantar bonito. Ela vivia a música de dentro para fora, devorava-a no palco, engolia-a e devolvia algo novo.
Ninguém cantava como Elis. Ela não acariciava as notas, não respeitava o tempo natural das músicas. Apressava sílabas, atrasava frases, brincava com os compassos. A música era sua refém. E a plateia também.
No palco, parecia maior do que realmente era. Com pouco mais de 1,50m de altura, transformava-se em gigante quando começava a cantar. Tudo nela era intensidade: as mãos, o pescoço, os olhos, o suor que escorria. Era um espetáculo completo.
O problema era fora do palco. Elis não sabia fingir. Sua autenticidade era brutal. No Brasil de então, onde era perigoso dizer certas coisas, ela dizia.
Dizia o que pensava, dizia o que via, dizia o que não devia. Pagou caro por isso. Foi pressionada a cantar o hino da ditadura em um evento oficial e, quando se deu conta da armadilha, chorou de raiva. A imprensa a chamou de comunista, depois de alienada, depois de antipática. Nunca souberam onde encaixá-la. Ela também não ajudava. Tinha o humor instável.
No mesmo dia, era capaz de rasgar elogios a um colega de profissão e, horas depois, brigar com ele nos bastidores. Sabia que era a melhor e não fazia esforço para disfarçar.
Mas não era só a política que a incomodava. O Brasil machista dos anos 70 não sabia lidar com uma mulher como Elis.
Um homem talentoso e genioso era chamado de “gênio”. Uma mulher assim era chamada de “difícil”. Foi julgada por ser mandona, por ser intensa, por exigir o máximo de sua equipe. Era uma líder. E isso incomodava. Mas, mesmo quando tentavam diminuí-la, ninguém podia ignorá-la.
Teve amores intensos e separações ruidosas. Sua relação com Ronaldo Bôscoli foi um terremoto. Era paixão e guerra na mesma medida.
Separaram-se e ela se casou com César Camargo Mariano, com quem viveu uma relação de parceria musical única. Juntos, produziram discos que redefiniram a música brasileira. Mas Elis não sossegava. Não era de paz. Não sabia ser outra coisa além de Elis Regina.
A vida cobrou. Cobrou cedo demais. Aos 36 anos, morreu de maneira estúpida, deixando o Brasil inteiro atônito.
Uma mulher como ela não podia simplesmente desaparecer assim, sem aviso. Mas desapareceu. Deixou três filhos pequenos, uma discografia que ninguém jamais superaria e uma falta que nunca foi preenchida.
Mas o tempo não deu conta dela. Porque Elis não foi apenas uma voz, foi um território. Quem pisa na música brasileira precisa passar por ela.
Não há como escapar. Cantores surgiram depois dela, alguns muito bons, alguns geniais. Mas nenhum teve sua fúria, sua urgência, sua fome. Ninguém jamais cantou como ela. Ninguém jamais cantará.
Elis Regina faria 80 anos hoje. Mas isso não significa nada. Porque Elis nunca será passado. Elis continua. Na potência de sua voz, no impacto de sua interpretação, no silêncio que deixou e que nunca foi preenchido.
O tempo, esse que leva tudo, nunca conseguiu levá-la por completo. O que ela fez ainda está aqui, ecoando, vivo, respirando.
O Brasil já teve muitas cantoras. Mas Elis Regina foi a única tempestade.
Fabrício Correia é escritor, historiador, jornalista e produtor cultural. Apresentou o programa “Canções Essenciais, na Cidade AM 1120. Professor universitário, tem especialização em Musicoterapia e Vibroacústica.
Sobre o autor: Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Poeta, presidiu a Academia Joseense de Letras. Membro da Academia Caçapavense de Letras e da União Brasileira de Escritores.