15 de março de 2023, no Parque da Cidade de São José dos Campos, testemunhei um fato no mínimo curioso.
No intervalo do ensaio da Orquestra Joseense ouvi um “zum-zum-zum” entre os músicos: uma cobra estava próxima da sala de ensaio da orquestra (na altura eu era a Curadora da OJ). O maestro William Coelho, regente titular da orquestra desde 2022, sem pestanejar foi conferir de perto. E desta vez o solista foi ele.
Com um cabo de uma velha estante quebrada improvisou um “gancho”, e com total desenvoltura capturou a serpente, uma jararaca (Bothrops jararaca),colocando-a em segurança num recipiente improvisado. Todos estávamos surpresos, e aliviados, e voltamos em segurança para o ensaio. O fato causou um frisson, e o que era pouco (ou nada) conhecido veio à tona: o maestro também era biólogo.
Jararaca (Créditos: Reprodução/Herp Trips)
Em 2002 William Coelho foi aprovado na graduação em Biologia na Universidade Federal de Alfenas/MG (Unifal), e lá se especializou em herpetologia, como atestou em entrevista recente à Patricia Mariuzzo (Revista Pesquisa FAPESP/Edição 345, nov 2024):
“No primeiro ano, fui trabalhar como estagiário no serpentário da Unifenas [Universidade Professor Edson Antônio Velano] e depois comecei uma pesquisa de iniciação científica na Unifal sobre os efeitos alelopáticos dos frutos de quatro plantas: o tomate, a berinjela, a lobeira, que tem esse nome porque seu fruto está na dieta do lobo-guará, e o joá-bravo, um tipo de erva daninha nativa da América do Sul.” (Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o texto completo original aqui.
Maestro William Coelho e as serpentes em dois momentos de sua vida (Créditos: Acervo pessoal)
Para a felicidade da cultura, o maestro optou pela música, e desde então vem traçando uma trajetória brilhante, em sólida carreira musical e acadêmica. Doutor e mestre pela USP, publicou dois belos livros: “As raízes e a música da Congada de São Benedito de Cunha”/ Ed. Casa Cultura, 2023, e “Abordagens interpretativas da música sinfônica de Beethoven sob o prisma da música antiga” / Ed. CRV, 2023.
Como regente, ao longo de 5 anos ocupou um dos cargos mais almejados para novos regentes, o de preparador do Coro da Osesp, com o qual se apresentou inúmeras vezes no país, e também no exterior, contagiando plateias com seus gestos precisos, e sua regência plena de plasticidade.
Há pouco mais de 2 meses nosso maestro foi também aprovado para integrar o corpo docente do Departamento de Música da ECA-USP, onde em 2010 havia ingressado como aluno no bacharelado em regência.
Nosso maestro-biólogo, pesquisador, musicólogo e professor é um verdadeiro polímata do século 21.
Sim, polímata. Quem detém conhecimento em várias áreas. E não é mera coincidência… ciência e arte andam juntas há muitos séculos. Na antiguidade clássica, música, poesia, filosofia, astronomia e matemática habitavam a mesma cosmologia.
Naquela cultura, as fronteiras entre as áreas de conhecimentos eram diluídas pelo entendimento de que tudo integrava o macrocosmo (espelhado no microcosmo, o humano) que era compreendido através das proporções entre os números, em equilíbrio (ou desequilíbrio). Esta concepção perdurou por longos séculos, e assim muitos polímatas se dedicavam à música, à composição, e também à botânica, à zoologia, à anatomia, à geologia… enfim, às ciências naturais, como eram alcunhadas.
A natureza e sua exuberância são fontes constantes de inspiração para quem se dedica à música. Uma das publicações mais interessantes e impactantes sobre a riqueza sonora que povoa o mundo natural, bem como o progressivo silêncio de seus sons devido à expansão territorial humana, é o maravilhoso livro “A Grande Orquestra da Natureza”, do músico e biólogo Bernie Krause (Ed. Zahar):
A Grande Orquestra da Natureza (Créditos: Reprodução)
Sons de pássaros também inspiraram obras do compositor e ornitólogo Oliver Messiaen (1908-1992), e também dos nossos Zequinha de Abreu (1880-1935) – quem não conhece o famoso “Tico-tico no Fubá”? – e Antônio Carlos Jobim (1927-1994), um dos maiores defensores da natureza brasileira.
Tom Jobim intitulou três álbuns com nomes que remetem à avifauna brasileira: Matita Perê (LP 1973 / CD 1995), Urubu (LP 1976 / CD 1987) e Passarim (LP 1987 / CD 1987), no qual lançou a canção “Borzeguim”, um manifesto em defesa da mata e dos indígenas. Também compôs a bela canção “Sabiá”, vencedora do III Festival Internacional da Canção em 1968.
Em 1994 foi realizado o último documentário com o grande compositor brasileiro que sugeriu o título ao vídeo: “Visão do Paraíso”. Neste belo e último registro, Tom faz um tributo à uma de suas musas inspiradoras, a Mata Atlântica.
Neste domingo, dia 8 de dezembro, se completam 30 anos da morte do compositor. Em sua homenagem o maestro William Coelho dedicará o último concerto da temporada da Orquestra Joseense de 2024, no qual serão apresentados belíssimos arranjos de canções de Tom Jobim, entre elas: Luiza, Modinha, Wave, Retrato em Branco e Preto, Desafinado, e é claro, Passarim.
Imperdível!
Tem algum assunto que te intriga sobre a música? Mande uma sugestão nos comentários! Até a próxima!
Dicas da Dra.
Concerto da Orquestra Joseense homenageia Tom Jobim
Teatro Municipal de São José dos Campos
14 de dezembro, sábado – 20h
Gratuito
Exposição “O Tom do tempo, da poesia, e da música”, em homenagem aos 30 anos da morte de Tom Jobim
Curadoria: Júlio Ottoboni
Pavilhão Marina Crespi – Parque Vicentina Aranha
Gratuito
Conheça o projeto “Choro Alado” de Raquel Aranha (Diretora Cultural do Centro Ambiental Artístico e Cultural – CAEB) sobre aves que influenciaram vários Choros:
Ouça “Choro Alado”, em arranjos do Regional Aguará de São José dos Campos
* A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.
Raquel Aranha
Pós-doutora em Musicologia (Unesp), Doutora em música (Unicamp), estudou na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando (Madri), bacharel em Violino Barroco (Conservatório Real de Haia/Holanda), especialista em Dança Barroca e bandolinista. Em 2022 fundou o CDM (Centro de Documentação Musical) para a preservação do patrimônio musical de São Joé dos Campos.
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