
Não foi uma, nem duas, mas umas 6 árvores cortadas em apenas um fim de semana na Avenida Cidade Jardim, zona sul de São José dos Campos. O som alto da serradeira… o tombo de mais uma vida. E com ela se vão aves, insetos, e tantos outros “micro seres”.
Desta mesma trilha sonora faz parte o “fumacê” que levou ao silêncio centenas de abelhas. Vi tudo isso de perto. No meu quintal.
Neste momento ainda outros ruídos me assombram. Estamos à beira do início de uma Copa, e quando os fogos começarem a pipocar, tantos animais passarão pelo sofrimento cruel de se verem desorientados, machucados, ou mortos pelos ruídos desnecessários produzidos pela estupidez humana. Aves, cães, gatos… perdidos, atropelados.
Não é possível que insistamos na mesma tecla… esse “tombeau” eterno.
Deixo meu apelo aos que atuam na câmara da cidade, na casa do povo, para que voltem seus esforços em prol de um bem comum: preservar a qualidade de vida, de humanos, envolve necessariamente todas as formas de vida que ainda nos cercam.
Quando uma vida se vai, outras tantas morrem junto. As árvores serão replantadas? Quando? O fumacê é realmente a melhor solução? Os fogos com ruídos já não deveriam ter sido proibidos? Falta educação ambiental? Educação para a empatia? Onde estamos falhando? E por que? E até quando?
Sons da vida
Os sons da natureza em sua plena diversidade já inspiraram obras primas em diferentes épocas e culturas, como a “Primavera” de Antonio Vivaldi (1678-1741) e o “Le Rappel des oiseaux” (“O chamado dos pássaros”) de Jean-Philippe Rameau (1683-1764):
[Link para áudio de Le Rappel des oiseaux]
Já num universo mais contemporâneo podemos ouvir o “Catalogue d’Oiseaux”, de Olivier Messiaen (1908-1992), e a belíssima obra “Passarim”, de Tom Jobim (1927-1994):
Atento às belezas e às perdas pelas transformações da paisagem, Tom Jobim mesclava manifesto, poesia e música. O compositor trazia em seu discurso sonoro o que o magnífico Stefano Mancuso – biólogo, filósofo e neurocientista italiano – vem defendendo em suas obras: é preciso compreender a natureza como um esforço coletivo de sobrevivência. Agir com e por todos.
Quem esteve ontem na palestra magistral do biólogo no “Festival Florestar” (Sesc SJC), ouviu as sábias palavras: é preciso “voltar pra casa”, entender a casa, cuidar coletivamente dela.
Quando ações humanas só atendem interesses humanos, toda a “casa” colapsa, andar por andar. É uma questão de tempo. Quando continuamos a ceifar a pouca vida natural que resta nas urbes, avançamos em passos largos para a ausência de propósito vital, coletivo.
Neste “mês do Meio Ambiente”, penso em música, em cultura e em ação coletiva. Vamos em frente, em rede, como os fungos ensinam.
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Raquel Aranha
Bióloga, Pós doutorado em Musicologia (Unesp), Doutora e Mestre em música (Unicamp), estudou na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando (Madri), Bacharel em Violino Barroco (Conservatório Real de Haia/Holanda), especialista em Dança Barroca e Bandolinista. Também é bióloga, (Unicamp), e se dedicou à ornitologia. Desde 2020 preside a SOCEM (Sociedade de Cultura e Educação Musical de São José dos Campos), e em 2022 fundou o CDM SJC (Centro de Documentação Musical / SJC) no Parque Vicentina Aranha, para a preservação de Patrimônio Musical Brasileiro.