Estudante sem grana em Curitiba, eu latia no quintal para economizar cachorro, vendia o almoço para comprar a janta. Era uma dureza de dar dó.
Morava no porão de uma pensão na rua Paula Gomes, no Centro, dividindo espaço com mais três amigos, alguns gatos da casa e muito mofo. Fazia um frio danado.
Meu dinheiro dava para pagar quarto e café da manhã. Almoço, só no “bandejão” da Universidade Federal do Paraná. Não pagava. Trabalhava na cozinha da UFPR para comer na “faixa”. Jantar? Jantar era um luxo nem sempre possível.
Dava sorte quando estava na pensão no final da tarde: a “faz-tudo” de lá, Dona Maria, chamada de “Polaca”, passava pela janela do porão um prato de arroz, feijão preto e ovo estalado, acompanhado sempre de uma fatia de pão. Era o que salvava a noite.
Jantava por caridade, pelo dó que a “Polaca” tinha do estudante magrelo, sem dinheiro até para ir na esquina. Talvez venha daí a minha predileção pelo feijão preto, pelo gosto que tenho, até hoje, de comer pão com ovo. Coisas da memória.
O dinheiro era contado. E, quando sobrava, ia para a “vaquinha” de domingo, quando nós, habitantes do porão, uma vez por mês, “rachávamos” uma lasanha em quatro em algum restaurante popular do Calçadão da Rua 15. Lasanha com Coca-Cola. Era o máximo.
Quando consegui emprego, a vida melhorou. Ganhava pouco, mas dava para, dia sim, dia não, jantar, a 100 metros da pensão, no restaurante da Casa do Estudante Luterano Universitário, a CELU.
Não tinha “bandejão”, a comida era melhor e servida na mesa, com prato e copo de vidro. Depois, mudei de emprego e a vida melhorou mais um pouco. Fiz um “pé de meia”, sai da pensão e fui morar em uma “república” na rua Benjamin Constant, também no Centro.
Era um amontado de gente, seis moradores fixos, mais os agregados, que não “furavam” um dia. Não tinha mais o arroz, feijão preto, ovo frito e pão da “Polaca”. E ninguém sabia cozinhar. Mas sobrava liberdade. E dinheiro para ir na “sessão maldita” do Roxy, na sexta-feira à meia-noite.
Essa é a Curitiba que me vem à mente com a notícia da morte do escritor Dalton Trevisan, com quem estive, rapidamente, em um café a poucos metros da “república”, na rua Tibagi. Uma cidade escondida pela neblina que torna a memória mais e mais imprecisa, mas, curioso, ao mesmo tempo, cheia de sensações, gostos e sutilezas.
Uma cidade 47, 48 anos atrás. Morei lá por mais algum tempo. Agora, vou de quando em quando, apenas para visitar minha filha, que, como a vida é engraçada, escolheu Curitiba para morar.

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Nunca mais voltei ao café da Tibagi, à “república” da esquina da Benjamin Constant e nem à pensão da rua Paula Gomes. Da “Polaca”, que, por vezes, matou a minha fome, com um prato de arroz e feijão, não sei dizer mais nada.
Nem dela, nem da dona pensão, uma mulher magricela, de voz aguda e pouca conversa. Mas, veja como a vida é curiosa, o casarão onde funcionava a pensão foi “tombado” pelo Estado, restaurado e hoje é um anexo elegante do edifício-sede da Procuradoria-Geral do Estado, onde minha filha trabalha.
Descobrimos isso por acaso. Ela até fez fotos. Um dia, quem sabe, vou lá revisitar o lugar. O que existe hoje no porão? A gente vive muitas vidas em uma vida só. Importante é ser feliz e procurar aprender, pelo menos um pouco, com cada uma delas.

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