A decisão da justiça brasileira de absolver as mineradoras, seus diretores e técnicos pelo rompimento da barragem de Mariana é um golpe profundo para quem ainda acredita em justiça neste país. Esse desastre, ocorrido em 2015, não foi apenas um caso isolado de negligência ambiental; foi uma tragédia humana de proporções colossais. Milhões de metros cúbicos de rejeitos foram despejados no Rio Doce, arrasando ecossistemas inteiros, destruindo comunidades e deixando milhares sem acesso à água potável.
Os números são chocantes: 39,2 milhões de metros cúbicos de lama tóxica atingiram 39 cidades, comprometendo 663 km de rios e impactando diretamente mais de 500 mil pessoas. Mas números não conseguem traduzir a dor das famílias que perderam suas casas, sua dignidade e, em 19 casos, suas vidas. Estive lá, em Paracatu de Baixo e Gesteira, representando minha empresa em um trabalho de regeneração de um afluente do Rio Doce. O cenário era desolador. Casas soterradas, vidas despedaçadas, uma população em choque diante de um futuro incerto.
O que dói mais, no entanto, é perceber que, no Brasil, a injustiça consegue ser ainda maior do que o desastre. Após quase uma década, os responsáveis foram absolvidos. Para piorar, a tramitação lenta da ação penal permitiu que alguns dos crimes ambientais prescrevessem, deixando um sentimento de impunidade ainda mais evidente. O sistema legal que deveria ser um pilar de proteção para as vítimas mostrou-se mais inclinado a proteger os interesses das corporações. A mensagem é clara: vidas podem ser negociadas, ecossistemas destruídos, desde que os responsáveis tenham recursos para navegar pelo sistema judicial.
E essa não foi a única tragédia. Apenas quatro anos depois, Brumadinho reafirmou a nossa incapacidade de aprender com os erros. Lá, mais 270 vidas foram perdidas em outro rompimento de barragem. A sensação de impunidade não é apenas corrosiva, mas um convite para que desastres continuem a acontecer.
A decisão de absolver as mineradoras é emblemática em um país onde o lucro frequentemente vale mais que a vida. E agora, o governo acena com a exploração de petróleo na Amazônia. Como confiar em promessas de segurança, quando nosso histórico mostra que acidentes no Brasil não são exceção, mas uma regra? A tragédia de Mariana e outros desastres ambientais deveriam ter servido como um alerta, mas a resposta tem sido a repetição de erros.
A Amazônia, com sua biodiversidade única e importância global no equilíbrio climático, não deveria sequer estar no debate como uma nova fronteira de exploração petrolífera. O bioma é responsável por capturar cerca de 2 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, além de sustentar povos originários e ribeirinhas que dependem da floresta para viver. Qual o custo de comprometer esse patrimônio para extrair petróleo em um modelo de desenvolvimento ultrapassado?

O argumento econômico do governo, que promete bilhões em royalties e desenvolvimento para regiões isoladas, ignora os riscos ambientais, sociais e até econômicos de longo prazo. Já vimos isso antes. O desastre da Deepwater Horizon, em 2010, no Golfo do México, derramou 4,9 milhões de barris de petróleo, causando impactos devastadores e custos inestimáveis. Na Amazônia, com sua infraestrutura precária e dificuldades logísticas, as consequências de um acidente poderiam ser ainda mais graves.
Há alternativas. O Brasil tem um potencial enorme na bioeconomia, na exploração sustentável dos recursos naturais e no mercado de créditos de carbono. Investir na Amazônia como uma solução para o futuro não significa destruí-la, mas preservá-la e usá-la de forma inteligente. Um estudo recente mostra que apenas 0,5% das espécies da floresta foram estudadas para fins comerciais. Imagine o que podemos descobrir e desenvolver sem precisar derrubar uma única árvore.
Talvez o leitor se pergunte: “Mas o que isso tem a ver com uma coluna sobre ESG?” Eu respondo: tudo!
A falta de cuidado com o meio ambiente, a desvalorização das vidas perdidas ou despedaçadas por um desastre dessa magnitude, e a ausência de uma governança transparente e responsável evidenciam a essência do que o ESG representa – e porque ele é tão necessário. Se práticas sólidas de ESG tivessem sido aplicadas, é provável que esse desastre pudesse ter sido evitado.
O caso de Mariana não é apenas sobre negligência; é um reflexo de como tratamos nossas pessoas e nosso meio ambiente. A justiça brasileira precisa parar de priorizar interesses corporativos em detrimento da vida e do futuro. Mariana não pode ser esquecida. Não pode ser um precedente. A sociedade precisa reagir, exigir um sistema mais justo e um modelo de desenvolvimento que respeite tanto o ser humano quanto o meio ambiente.
Até quando continuaremos aceitando o inaceitável?



