Desculpe, mas hoje não vou falar de política: crônica do Zé Guilherme sobre sagu abriu uma janela cheia de memórias, sons e sabores em minha mente.
Minha avó teve oito filhos e um punhado de netos.
Na minha memória, a casa dela, em Piraju, onde nasci, era um mar de crianças, de todos os tamanhos e feições. Tinham os filhos do meu tio Licínio, com nomes quase todos alemães e quase todos loiros, herança direta de minha tia, Matilde. A lista era enorme, todos com nomes começados pela letra “H”: Hans, Hugo, Hermes, Hervin, Hains Peter, Helga Margareth, Hildegard Bertha, Helen.
Será que esqueci de algum? Tínhamos eu e meu primo Luciano, ambos morenos, cor de jambo. Uns mais falantes, como Cristiana e Flávia, minhas primas. Outros mais calados, como Antonio Luiz e Antonio Lúcio. Uns intelectuais, como Jorge, que jogava xadrez e comentava sobre notícias de jornal e livros com os adultos. Outros, engraçados como Zezé, que imitava John Travolta e com quem dividia minha paixão pelo futebol.
Pela casa da minha avô, Durcê, a cada dia, gravitavam de 10 a 12 netos durante as férias, todos correndo, brincando, subindo nas árvores, jogando bola, disputado as frutas do quintal, provocando uns aos outros e, claro, brigando por um lugar à mesa na hora do almoço ou no café da tarde. Era um mar de crianças com fome, ávido pelo arroz com feijão da minha avó, batata frita, pastel de vento, pastel de chuva e tudo que o mais tivesse.
Esse universo, tão barulhento e agitado, tanto tempo distante, veio à minha mente ao ler a crônica do José Guilherme Ferreira sobre sagu.
Sim, naquele mar de bocas, os doces exerciam, claro, uma atração extra: manjar branco, mamão espelhinho, figo em calda, goiabada, rabanada, doce e pudim de leite eram disputados até raspar o prato. Meu preferido era (e ainda é) doce de abóbora, qualquer, qualquer versão dele.
Mas, admito, o sagu, com sua consistência cremosa, o gostinho de vinho, era um mundo à parte. Ainda na panela, a calda à base de vinho tinto rescendia em cada cômodo da casa, chegava ao porão, invadia o quintal, anunciava que, logo mais, a iguaria seria servida.

Primeiro para os adultos, depois para a “tropa” de netos. Para nós, era um mistério como aquelas “bolinhas” de fécula de mandioca podiam ter um gosto tão especial. Para mim, nenhum sagu, por melhor que fosse, era mais gostoso que o sagu feito pela minha avó.
Dona Durcê morreu há tempos, assim como morreram cinco de seus oito filhos, entre eles minha mãe, Maria Nívia, a mais velha de todos. A casa de esquina existe, mas, o quintal foi ocupado por outras casas e não abriga mais pés de figo, laranja, limão e cana, mangueiras e goiabeiras, sempre cheias de frutos.
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Minha avó teve oito filhos e um punhado de netos.
Sua casa rescendia a pão, comida boa e doce, muitos doces. Manjar branco, mamão espelhinho, figo em calda, goiabada, rabanada, doce de leite, pudim de leite, doce de abóbora, sagu, doce de antigamente resgatado em minha memória pela crônica do Zé Guilherme.
E, para mim, nenhum sagu, por melhor que seja, servido no melhor restaurante, feito pelo “chef” mais refinado, com o vinho mais saboroso, consegue ser tão gostoso como o sagu feito pela minha avó, comido na mesa da cozinha, ao lado fogão de lenha, em meio a um mar de crianças, de todos os tamanhos e feições.
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