Estudar música e fazer da arte mais que um hobby, uma profissão. Um sonho que para o violoncelista Mauricio Fietz, nascido e criado no bairro Araretama, em Pindamonhangaba, há 15 anos parecia inalcançável.
Atualmente, com 29 anos, ele comemora o início de uma carreira musical oficialmente profissional com a aprovação na Orquestra Sinfônica do Paraná e também faz parte da filarmônica do concerto mundial à luz de velas Candlelight.
No entanto, foram muitos os percalços para que chegasse até aqui. Aos 13, incentivado por uma amiga da família, Maurício entrou para as aulas de violão do Projeto Guri, que oferece formação musical paras crianças e adolescentes.

Sem pretensão alguma, a caminho da sala de aula, ele escutou pela primeira vez o som de um violoncelo tocando a suíte nº 1 de Bach, compositor alemão. Nesse momento, se apaixonou e mudou de modalidade para aprender a tocar o instrumento que, desde então, nunca mais se viu sem.
Já desenvolvido em seu talento por meio do Projeto Guri, Maurício procurou se aperfeiçoar e fez o teste para estudar na escola de formação técnica de artes Maestro Fêgo Camargo, em Taubaté. Tocando a cantiga popular “Fui no Tororó”, ele conquistou a vaga em primeiro lugar na seleção. Com a entrada na instituição, veio também o voto de confiança da mãe do garoto, que investiu em dar-lhe o primeiro violoncelo.
“Custava R$ 600 e na época isso era muito caro. Em um voto de confiança minha mãe me deu e eu tocava na igreja como forma de pagamento“, contou o músico em entrevista ao portal SP RIO+.
Apadrinhado na música
Na Fêgo Camargo, com um violoncelo para iniciantes, o jovem pupilo tinha aulas com o professor Clodoaldo Leite Júnior e com a professora Yara Bianchi. A essa altura da sinfonia que se tornou a vida do garoto, os mestres já orquestravam seu futuro.
“Ele tinha muita sede por conhecimento, a gente via que ele era apaixonado por violoncelo, mas tinha um instrumento péssimo” , recorda o professor.
A professora Yara também não tinha dúvidas do talento de Maurício, tanto que decidiu investir parte da herança do falecido marido para ajudar na compra de um violoncelo melhor para o garoto, que apesar de tocar na orquestra de Taubaté e ganhar R$ 200 de bolsa-auxílio ao mês, não tinha condições de pagar por um instrumento tão caro.
Ele se desenvolveu bem rápido depois que entendeu a dinâmica que um estudante de música precisa: de muitos sacrifícios nesse mundo que hoje em dia tem tantas distrações”, completa Clodoaldo.
Ao completar os 17 anos, Maurício deu mais um passo impulsionado pela música, indo morar em São Paulo. Fez prova para o Instituto Bacarelli e foi aprovado para fazer parte da Orquestra Jovem Heliópolis. Fundada pelo Instituto Bacarelli, a banda foi a primeira do mundo a surgir em uma favela e desde 1996 apoia jovens e adolescentes na música.

Pela Orquestra, o violoncelista realizou apresentações em programas de televisão da rede Globo, como Esquenta e Caldeirão do Hulk. Além disso, tocou na Sala São Paulo, uma das mais importantes do Brasil.
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Um parênteses
Dia 24 de agosto de 2016 abre-se um parênteses na trajetória de Maurício. O diagnóstico de HIV paralisou o jovem, que mesmo sendo filho de enfermeira e com alta acessibilidade a informações de saúde, temeu a doença e o preconceito que poderia passar.
A angústia o paralisou, de forma que passou um ano sem tocar violoncelo. No entanto, em meio a esse período, canalizou seu potencial artístico nas áreas de pintura e escultura.
“Fiquei meio que no casulo, mas uma coisa que me ajudou muito foi a arte no geral. Comecei a fazer esculturas de argila e a pintar quadros, que era uma forma de colocar pra fora todo aquele meu sentimento de passar por uma doença estigmatizada“, conta.
Viver da música
Após o período sombrio do diagnóstico soropositivo, sustentado por outras artes, Maurício encontrou forças para voltar a tocar violoncelo.
Com os ensinamentos guardados na caixinha musical, ao saber que Orquestra Sinfônica do Paraná estava com processo seletivo aberto, mudou-se para Curitiba e em 2023 apostou na carreira de violoncelista, pela qual até então tocava eventualmente.

“Depositei todas as minhas fichas nessa prova, me dediquei ao máximo e estudei como nunca. Fiz a prova, passei e é uma sensação maravilhosa de alívio. A gente olha pra trás e percebe que tudo que aconteceu na nossa vida foi por um propósito e tinha que acontecer“, diz.
Aprovado para fazer parte da banda, ele comemora e aguarda somente ser chamado para exercer aquilo que considera como sua vida: ser violoncelista.
“Se não fosse pelo Projeto Guri eu não estaria aqui porque vários amigos do bairro, que começaram comigo, viraram aviãozinho de drogas ou coisa pior […] Mas a música me levou a lugares que nunca pensei, senão tivesse entrado na música, eu não estaria aqui hoje“, finaliza.
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