Alberto Queiroz se aposentou, depois de 28 anos na Prefeitura de São José dos Campos. Antes trabalhara na Engesa e no jornal Valeparaibano. Ingressou no serviço público em 1994, como psicólogo social, ocupando posteriormente vários cargos e posições em nove diferentes secretarias e duas autarquias. Acompanhou, portanto, a gestão de vários prefeitos de São José dos Campos, seus planos, posturas e idiossincrasias.
Agora, ao se aposentar, antes de partir com a mulher para uma nova fase de vida na Europa, Queiroz não ganhou relógio de platina. Ao contrário, ele é quem presenteou o serviço público com o livro: “A barba não faz o filósofo”, no qual faz reflexões sobre a arte de governar, a partir do que viu e ouviu nesses anos todos de Prefeitura.
A originalidade da obra está justamente no uso de provérbios e ditados para tratar tanto dos “enguiços” quanto dos movimentos acelerados da máquina pública, suas urgências, seu necessário planejamento, a performance de seus atores. Justifica o uso dos ditados: a vida pública como reflexo da vida em geral, bem sintetizada pela cultura popular. Alguns ditados são bem conhecidos; outros, nem tanto, frutos da grande erudição de um poliglota que filosofa também em alemão. Daí porque temos alguns ditados convenientemente listados, comparados e traduzidos.
“A barba não faz o filósofo”, de extração latina (Barba non facit philosophum), é usado por Queiroz no título do livro e também no verbete que analisa práticas discriminatórias, de julgamento, no ambiente de trabalho. “É preciso ir além das aparências”, escreve Queiroz. “A experiência ensina que é muito comum cometer esse erro”. A lição: cada pessoa, cada funcionário, tem seu próprio tempo para revelar seu profissionalismo e sua real personalidade.

“Jacaré que fica parado vira bolsa” serve de inspiração bem-humorada para tratar do funcionário público efetivo, algumas vezes desmotivado, considerando um cenário “injusto” diante de mudanças de gestão. Conhece alguém encostado?
“A colher é que sabe a quentura da panela”. “Só quem ocupa uma posição de destaque sabe tudo o que ela exige e todos os sacrifícios que impõem”, escreve Queiroz. “É fácil olhar de fora e dizer que, em tal ou qual situação, a pessoa deveria ter agido de outra forma”. E complementa: “No caso de políticos ou gestores colocados nessas posições mais altas, há todo um jogo político, um jogo de interesses que eles têm de levar em conta sem poder explicitá-lo”; quem vê de fora não entende o que está ocorrendo. “Às vezes o gestor tem de ceder numa coisa menos importante, deixando muitos surpresos, para poder vencer em outra coisa, mais importante.” Realmente eleitores ficam com a pulga atrás da orelha diante de decisões de seus eleitos.
“Se o prior joga cartas, que farão os frades?”. O ditado inspira a discussão sobre os exemplos. Queiroz defende: “Quem está em posição de comando deve sempre primar pelo exemplo, mesmo em sua vida pessoal. A função pública de comando não é propriedade de quem a ocupa.”
Para reforçar a ideia de que ocupar uma função pública implica sempre deveres, o autor vai buscar o elegante Noblesse oblige, de origem francesa (A nobreza obriga).
Na mesma linha, o dito romano: “Não basta ser honesto, é preciso parecer”. O imperador Júlio César divorciou-se de sua esposa Pompeia Sula, acusada de adultério. Pompeia se defendera das acusações e ele teria respondido: “à mulher de César não basta ser honesta, é preciso parecer honesta”.
Com “Águias não caçam moscas”, o autor tratou de revelar o mau gestor, aquele de alto nível, que não consegue deixar para os técnicos os assuntos técnicos.
Queiroz faz questão de dizer que a citação de ditados é assistemática e talvez aí esteja a graça da coleção. Polêmico é aquele que diz sobre importância da liderança: “Um exército de carneiros liderados por um leão derrotaria um exército de leões liderado por um carneiro”.
Outro ditado fala dos planos de longo prazo de um gestor; “Nem sempre se comem os frutos da árvore que se plantou”. Afinal, uma grande obra pode começar em uma gestão e acabar em outra. O gestor precisa ser generoso e aceitar esse calendário.
Em alguns momentos Queiroz chega a emular Maquiavel: “O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”. Confiar desconfiando é apenas um alerta.
Essa obra, em edição de autor, mereceria a atenção de uma grande editora, pois o tema tem um apelo universal, ou melhor, não paroquial. Queirooz mesmo informa que nem todos os ditados conhecidos puderam ser explorados, mas a seleção é muito inteligente, com notas de rodapé informativas de grande erudição.
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Com a Palavra, os prefeitos
Um dos trabalhos de Alberto Queiroz de maior visibilidade na cidade (sim, ele é discretíssimo; diverte-se com tertúlias de xadrez e estudo de línguas) foi a coordenação da edição de um livro sobre prefeitos de São José dos Campos, os que atuaram no período de 1950 a 2000, obra idealizada na gestão do prefeito Eduardo Cury. Treze jornalistas locais traçaram os perfis de cada um desses prefeitos e garantiram o registro de informações indispensáveis para a reconstituição da história política da cidade.
Nos últimos tempos, outro tema de dedicação quase integral era o meio ambiente (eu escreveria uma obsessão, mas ele torceria o nariz). Observava tão bem a políticas públicas, muitas vezes na primeira fila de reuniões e debates, quanto os pássaros de São Francisco Xavier, que insistem em dar vida ao nosso trecho da Mantiqueira.
Para se ter uma ideia, virou amigo da pesquisadora Karen Strier, a maior especialista em muriquis do planeta, esses macacos que, em listas de extinção, ainda sobrevivem em território joseeense.
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