Um dos lugares mais interessantes e especiais de Campos do Jordão é o Museu Casa da Xilogravura, um espaço inaugurado em 1987 pelo professor, advogado, jornalista e museólogo Antonio Fernando Costella.

Aqui, temos duas atrações que se complementam: o professor é dono de uma biografia impressionante, marcada principalmente por sua extensa obra literária, veia artística e, certamente, sua obsessão pela xilogravura.
A consequência deste interesse, somado aos anos incansáveis de trabalho, resultou na Casa da Xilogravura, em Campos do Jordão, uma parada obrigatória para todos aqueles que gostam de cultura, comunicação visual, obras de arte, história e áreas correlatas.
Porém, se nenhum dos assuntos acima desperta seus interesses logo de início, com certeza você vai se encantar muito com o acervo, a recepção e a didática que o Museu Casa da Xilogravura reserva ao visitante.
Depois de visitar esta atração em Campos do Jordão, um mundo novo será aberto a você, com obras e histórias que contam como surgiram e evoluíram a comunicação e a arte impressa em madeira talhada.
No Museu Casa da Xilogravura, os visitantes podem ver desde obras que ilustram a literatura de cordel até o trabalho de Lasar Segall, um dos ícones da gravura no Brasil.

Onde fica o Museu Casa da Xilogravura em Campos do Jordão?
O Museu Casa da Xilogravura em Campos do Jordão está em um prédio lindo, levantado em 1928 pelas freiras beneditinas, onde foi o Mosteiro de São João.
No local, também fica a Editora Mantiqueira, cujo lucro é destinado para manter o museu, que tem gastos com funcionários, manutenção, entre outros.
O endereço do museu é Av. Eduardo Moreira da Cruz, 295 – Jardim Jaguaribe, Campos do Jordão – SP, 12460-000.
Funcionamento: não abre terças e quartas, nos outros dias fica disponível das 9h às 12h e das 14h às 17h.
Telefone: (12) 3662-1832
Durante nossa visita para conhecer o museu e fazer a reportagem, foi bem fácil estacionar. Há muitas vagas disponíveis nas ruas próximas à Casa da Xilogravura.
O que é xilogravura?
Se você não sabe nada sobre o assunto, visitar o Museu Casa da Xilogravura é uma excelente oportunidade para aprender.
Aliás, um dos objetivos do museu é justamente atender às pessoas que não sabem o que é xilogravura, embora receba também diversos especialistas da área, como artistas e pesquisadores.
“Montar um museu é como dar uma aula, pois é uma maneira de explicar as coisas para as pessoas. Então, desde que o espaço tinha 3 salas, e não as 30 que possui atualmente, a primeira coisa que o visitante vê é um vídeo explicativo de 3 minutos”, conta o professor Costella, idealizador do museu.

O vídeo de apresentação mostra o que é xilogravura, como se pega a madeira e entalha, como se passa a tinta e como uma obra é impressa.
Além disso, mostra também a diferença entre a xilogravura preto e branco e a colorida e como é feita uma obra com mais matrizes e cores.

Como é a visita na Casa da Xilogravura de Campos do Jordão?
Ao longo da visita, o turista vai encontrar em cada sala um texto que descreve o que o espaço reserva. Vale destacar que as salas são numeradas e a sugestão é seguir a numeração, já que a estrutura do Museu Casa da Xilogravura mantém uma ordem didática.
“A sala 4, por exemplo, vai mostrar como foi a xilogravura para o mundo das gráficas, como os livros eram feitos, principalmente a ilustração de obras em geral, entre elas revistas e jornais. O visitante também vai ver que a xilogravura é a mãe da tipografia”, destaca o professor.
Então, basta seguir a visita e as salas numeradas, prestando sempre atenção nas orientações sobre as obras que estão em cada local, para ter uma visitação mais compreensiva sobre o espaço.
“Temos várias salas sobre gravuras brasileiras. Então, o visitante vai ver os pilares da xilogravura, como Lasar Segall, Oswaldo Goeldi, Lívio Abramo, entre outros”, adianta o professor Costella.

O museu também tem salas reservadas para mostrar outras técnicas de impressão em relevo, como a calcogravura (gravura em metal). A instituição tem, inclusive, uma ilustração em rotogravura do jornal O Estado de São Paulo, de 1932.
“Ali, também está uma pedra litográfica e uma gravura impressa com a mesma pedra, assim como um offset com suas chapas, já que a técnica é ‘filha’ da litografia. Depois temos o silkscreen e a impressão com cilindros rotativos, quando a tinta atravessa a matriz”, explica o professor.
Na Casa da Xilogravura, em Campos do Jordão, as máquinas de escrever, inclusive uma de 1914, também chamam a atenção durante o passeio, pois nos fazem repensar todo o processo de evolução da tecnologia ao longo dos anos.
Uma das salas mais interessantes é a dedicada à literatura de cordel, que usou amplamente a xilogravura para ilustração e, com certeza, ajudou a popularizar a técnica.
Neste ambiente, para que o visitante tenha uma experiência mais imersiva, existe a representação de uma casa nordestina, com redes, objetos usados no dia a dia, itens relacionados aos vaqueiros e à colheita da mandioca, já que tudo isso faz parte da xilogravura nordestina de cordel.

“Essa área é importante para o visitante ver que a xilo popular mostra a vida, pois vem de itens que estão no dia a dia das pessoas”, enfatiza o professor.
A Casa da Xilogravura de Campos do Jordão também tem uma tipografia com mais de 3 mil quilos, feita de chumbo, e salas que explicam essa técnica.
Durante o passeio, você ainda vai passar pela sala que conta a história do museu, como ele nasceu e evoluiu ao longo dos anos.
Seguindo o roteiro da visita, o turista chega a uma sala de artistas internacionais, que reúne obras de vários países, como numa verdadeira volta ao mundo.
Nas visitas agendadas, como as oferecidas aos grupos escolares, também é possível passar pelo ateliê do museu, onde a equipe faz uma impressão, para que os visitantes realmente vejam uma xilogravura em execução, sendo feita com uma matriz e impressão na prensa.
Acervo do Museu Casa da Xilogravura em Campos do Jordão
O acervo da Casa da Xilogravura conta com mais de 1700 autores, que foram selecionados ao longo de 40 anos pelo professor Antonio Fernando Costella.
Por causa do volume, não é possível expor todas as obras ao mesmo tempo. Cerca de 500 obras ficam distribuídas e organizadas no museu para apreciação do público.
“Os principais autores ficam sempre expostos, incluindo os básicos e construtores da história da xilogravura, embora tenhamos os atuais também. Na primeira sala do museu temos autores premiados, que ganharam a Bienal de Melhor Gravura, entre outras homenagens”, diz Costella.
“O nosso museu é associado à Associação Europeia de Museus de Gráfica, que conta com cerca de 80 museus da Europa e alguns de outros países. Fomos convidados a participar porque eles atribuem muita importância ao nosso museu”, revela o professor Costella.
Curiosidades sobre o Museu de Xilogravura em Campos do Jordão
“Também temos coisas curiosas, como um livro de artista que só existem 3 peças no mundo. Um gravador alemão, que conheci em Veneza, organizou essa obra. Ele mandou convites para gravadores do mundo todo para fazer um livro de artista com muitas gravuras de metal ou xilo. Ao todo, foram 303 gravadores. Se eu pudesse manter o livro todo aberto, ele ocuparia um espaço de 66 metros lineares”, conta Antonio Fernando Costella.
Na sala onde está o exemplar, o visitante vai encontrar parte do livro aberta, para ver as gravuras. Ele costuma ser ajustado de tempos em tempos, para exibir uma maior variedade de obras.
Ter uma cópia deste livro é, sem dúvidas, um privilégio da Casa da Xilogravura de Campos do Jordão, pois só existe uma edição da obra em Veneza, na Itália, e outra em um museu de Berlim, na Alemanha.
Além desta preciosidade, o museu também tem outras obras interessantes e cheias de história. “Temos uma gravura feita por mais de 100 artistas, sendo que todos eles trabalharam no mesmo desenho, na mesma base. A gravura é grande, com cerca de 3 metros. Foi um trabalho organizado por uma gravadora que vive em Las Vegas, nos Estados Unidos”.
No local, há também uma obra que foi criada graças à força de um fenômeno da natureza. Houve uma tempestade em Campos do Jordão que derrubou um cedro na área do museu, e essa árvore foi transformada em arte.
“Mandei cerrar e a xilo foi feita em uma das metades do cedro, que tem 3 metros. Na exposição, é possível ver a gravura junto com a matriz. A obra é de Fábio Sapede e George Rembrandt Gütlich, de São José dos Campos”, explica o professor.

A gravura procura mostrar, da esquerda para a direita, a Serra da Mantiqueira, depois o Vale do Paraíba e, por fim, o Litoral Norte do Estado de São Paulo.
Sobre o professor Antonio Fernando Costella
O professor Antonio Fernando Costella tem 35 livros publicados e é formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da Universidade de São Paulo. Além de jornalista, foi professor da Faculdade Cásper Líbero, e nos cursos de Direito e Jornalismo da própria USP.
Como professor, também atuou fora do Brasil, na Escola Superior de Jornalismo do Porto, em Portugal.
Foi durante o tempo em que viveu na Europa que nasceu uma de suas obras mais cativantes e famosas, o livro “Patas na Europa”, onde o seu cão “Chiquinho”, conta uma viagem que realmente fez com seu dono, de Portugal até a Grécia. A obra narra suas peripécias com vultos da História.

Segundo Gisele Melo, Assessora de Comunicação da Casa da Xilogravura em Campos do Jordão, que nos recebeu para uma sessão de fotos e uma explicação sobre o trabalho do museu, Chiquinho foi um cão adotado, que apareceu no bairro.
O cão ficava muito deprimido com a rotina de viagens do professor Antonio Costella, que vivia em São Paulo na época. Ele ficava alegre apenas aos sábados e domingos, quando estava junto do dono, em Campos do Jordão.
Por isso, quando o professor foi convidado para trabalhar em Portugal, o veterinário alertou que seria muito perigoso deixar Chiquinho sem a presença do tutor por mais de 6 meses.
A única saída foi levar Chiquinho para a Europa, onde passeou e fez parte da obra mais conhecida do autor. A história ganhou muita proporção e foi divulgada em diversos programas de TV. Uma das entrevistas mais marcantes foi no “Programa do Jô”, do apresentador Jô Soares.
Atualmente, “Chiquinho” está enterrado nas dependências do museu e existe uma lápide em sua homenagem.

Ainda de acordo com Gisele Melo, o museu será destinado à USP, segundo o testamento do professor Costella.
Porém, há uma cláusula importante neste testamento, que precisa ser respeitada: caso haja qualquer mudança no túmulo do Chiquinho, a “Universidade de São Paulo perde o museu para a Unitau – Universidade de Taubaté”, onde Costella também lecionou.
Como dá para notar, o Museu Casa da Xilogravura de Campos do Jordão é uma atração muito especial. Se você der sorte, pode até conhecer o professor Costella durante a sua visita.
Mas se não tiver tanta sorte assim, não fique chateado. Você ainda pode levar para a casa uma xilogravura do autor. Uma das mais bonitas é a obra em xilo feita em homenagem ao cão Chiquinho. Vale a pena conhecer!
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