Saindo do costume, o maior barulho que se ouvia no estádio Martins Pereira no dia 13 de dezembro de 2020 vinha de quem estava no gramado.
Do apito do juiz. Do treinador Ricardo Costa gritando com o time tentando consertar uma recomposição errada. Dos jogadores do São José correndo de um lado para o outro pedindo um passe ou alertando para a marcação.
A arquibancada era apenas eco, já que os torcedores da Águia do Vale estavam, em grande maioria, acompanhando de casa a partida que poderia dar o acesso à terceira divisão do Campeonato Paulista.
Naquela época, as medidas de contenção ao coronavírus limitavam a circulação das pessoas na rua e deixaram os estádios sem público durante as partidas, mas para um grupo de cerca de 30 torcedores da TUSJ (Torcida Uniformizada do São José), isso era mero detalhe.
Ainda que não pudessem ver os jogos do time do coração na “Bezinha” – a quarta e última divisão do Paulistão -, acompanhavam dos portões do Martins Pereira a barulheira que ditava o que acontecia em campo. Naquele decisivo São José x Manthiqueira, claro que estavam por lá.
Jeferson Macedo, ou só Macedo, era um deles. Um dos fundadores e atual presidente da organizada, ele carregava naquela decisão um frio na barriga com o mesmo peso que um zagueiro carrega ao ter que cobrar o pênalti decisivo em final de campeonato.
Tudo o que estava em jogo
Alguns meses antes, ele havia conhecido Maria Luiza, a Malu. Os dois eram integrantes do mesmo partido político e tiveram os primeiros contatos em reuniões remotas do coletivo, uma das marcas registradas do convívio social no período pandêmico.
O tempo de interação nas ligações fez surgir um interesse mútuo que os levou a considerarem um encontro além da militância política.
Malu, que é tatuadora e mora em Pindamonhangaba, convidou Macedo para fazer uma tattoo. Saindo de Caçapava, ele viajou cerca de 35 km pensando no novo desenho que marcaria na pele, mas também com o coração acalorado por vê-la pela primeira vez.
“Já existia uma intenção de ambas as partes (risos) implícita, porque nenhum havia dito nada até então. A tatuagem era uma bandeira do Brasil com ‘Poder Popular’ [escrito] no lugar de ‘Ordem e Progresso’, contou.
A tatuagem não aconteceu, mas tudo foi muito melhor. Tomaram café e no mesmo dia Malu já apresentou Macedo aos pais. Ele, apaixonado mais pelo São José do que pelo próprio futebol, fez questão de apresenta-la para a Águia do Vale.
Os encontros seguintes se misturavam entre os dates tradicionais e os bem particulares dessa história, junto da TUSJ ou nos jogos do São José. Não importava qual a discussão da torcida ou o adversário em campo, Malu era presença confirmada com Macedo. Em pouco tempo virou aspirante à torcedora raiz.
Nesse vai e vem dos dois entre Pinda e São José e o Paulistão rolando, voltamos ao início da matéria. Chega a partida mais importante da temporada – e considerada uma das cruciais no passado recente do clube.
Era o jogo de volta da semifinal da Bezinha, São José x Manthiqueira. Os dois times brigavam pelo acesso. Quem vencesse avançava para a final do torneio e automaticamente já tinha a presença garantida na Série A3 de 2021.
Na ida, vitória da Águia de virada por 2 a 1. Para a decisão, no Martins Pereira, Macedo convidou Malu.
Diante dos portões fechados do estádio e acompanhados pela família da torcida organizada, eles já sentiam para o que caminhavam. Durante os 90 minutos puderam ouvir quatro vezes as redes balançando e os gritos de gol. Só podiam ser da Águia.
Para a felicidade dos dois, foi acesso com gostinho de chocolate. Os abraços, numa época em que deveriam ser evitados, foram inevitáveis. O calor da emoção fez sair do peito um sentimento guardado que já se anunciava bem antes do apito final.
“Se o São José subir hoje, quer namorar comigo?”, perguntou Macedo, eufórico, para Malu.
Neste 12 de junho de 2023, o casal completa seu terceiro dia dos namorados junto.

Macedo, Malu e Tião
Apesar de não ter feito a tatuagem que pensava no dia que conheceu Malu, uma das tattoos de Macedo foi feita por total influência da amada.
Os dois haviam combinado de passar um feriado na casa da avó de Malu, que mora em Araraquara, no interior de São Paulo.
No mesmo final de semana, o São José enfrentaria o Comercial fora de casa, em Ribeirão Preto, a cerca de 1h de onde estariam.
Chegaram em Araraquara na sexta e logo combinaram de encontrar um amigo de Macedo que mora na cidade. A ideia era ir até Ribeirão assistir a Águia do Vale no sábado cedinho. Uniram o útil ao agradável.
O jogo em si não foi nada demais, porém o dia foi mais especial do que esperavam – mais uma vez. No meio da torcida do São José no estádio Palma de Travassos encontraram simplesmente o maior ídolo da história do clube, Tião Marino.
A emoção foi tanta que pouco tempos depois, pensando no momento, Malu sugeriu para o namorado registrar o craque na pele. Coisa fácil para quem namora uma tatuadora.
Unindo suas paixões, Macedo aproveitou a oportunidade para eternizar o traço de Malu e Tião, que de ídolo, ficou próximo.
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