Em meio aos jardins e à arquitetura da Capela do Vicentina Aranha, na região central de São José dos Campos, a história e os olhares do público se cruzam. Mais do que mera decoração, o local é uma fonte de identidade regional, memória e espiritualidade. Diante disso, munícipes de todos os cantos do Vale do Paraíba insistem em se perguntar: qual a história deste lugar?
Para responder a esta pergunta, o Portal SP RIO+ conversou com dois estudiosos sobre a origem da intitulada Capela Sagrado Coração de Jesus. Sua história remonta ao ano de 1935, 11 anos após a inauguração do Sanatório Vicentina Aranha.
Hoje parque, o espaço é gerido e preservado pela AFAC (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura), em parceria com a Prefeitura. Já a cura pastoral da capela é de responsabilidade da Paróquia Sagrada Família, integrante da Diocese de São José dos Campos.

Afetuosamente chamada de “pérola da santidade do Vale do Paraíba” por líderes católicos da região, a capela foi o cenário de orações de 4 candidatos à canonização pelo Vaticano: o Servo de Deus Antoninho da Rocha Marmo; a Venerável Madre Maria Tereza de Jesus Eucarístico; o Venerável Padre Rodolfo Komorek; e o Servo de Deus Dom Gabriel Paulino Bueno Couto.
“Conhecer a Capela Coração de Jesus é conhecer o coração da cidade de São José dos Campos”, destaca Rômulo Paula, secretário da vice-postulação da causa de beatificação e canonização do Venerável Padre Rodolfo Komorek.
Origem da Capela do Vicentina Aranha
Hoje um dos templos católicos mais procurados para casamentos de São José dos Campos, a Capela Sagrado Coração de Jesus não foi a primeira do sanatório, pois já existia um pequeno templo capela que ocupava um dos ambientes do Pavilhão Central. Naquela época, o número de tuberculosos internados no Sanatório Vicentina Aranha estava em seu auge.
Diante deste contexto, a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo designou a construção de uma nova capela com o objetivo de ser utilizada por religiosas e enfermos. A obra foi realizada a partir de donativos exclusivos de Conde de Lara, integrante da mesa administrativa da Santa Casa.
Quando inaugurada a capela, o local ficou sob a jurisdição canônica da Diocese de Taubaté, que também abrangia São José dos Campos, que só ganharia sua própria Diocese em 1981.
O projeto arquitetônico foi desenvolvido pelo Escritório Técnico da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, então dirigido por Olavo Caiuby, com as mesmas técnicas construtivas dos outros prédios do complexo.
Conforme explicou Rômulo Paula durante a entrevista, foram utilizados diversos estilos artísticos na decoração do templo.
“Originalmente, a capela não possui um estilo próprio. Mas é possível encontrar nela características diversas, seja pela influência da congregação religiosa que administrava o Sanatório ou do próprio movimento arquitetônico daquele período”.
Na história da capela, estão assinalados os nomes de ao menos dois sacerdotes muito conhecidos.
Monsenhor Ascânio Brandão foi um deles. O religioso é considerado um dos precursores da imprensa católica no Brasil. Posteriormente, ele esteve presente na fundação da Paróquia de São Dimas, hoje catedral da Diocese de São José dos Campos, na região central da cidade.
Outro religioso responsável pelas primeiras missas da capela foi Padre Rodolfo Komorek, o “Padre Santo”, salesiano de Dom Bosco e missionário no Brasil, que morreu com fama de santidade em São José dos Campos. A sua causa de canonização encontra-se atualmente em estudo no Vaticano.

Arquitetura e estrutura
Construído em estilo eclético, típico de sua época, o local possui referências neoromânicas, neoclássicas e outras. Apesar do tempo, a edificação sofreu poucas alterações. É o que explicou o arquiteto Felipe Ferri, mestre em preservação e restauro de patrimônio histórico, integrante da AFAC.
“As Igrejas Católicas são as que menos sofrem alterações, já que o uso é sempre litúrgico. Então essa igreja está preservada e muito próxima da sua concepção original. Foi feito um pequeno acréscimo de uma varanda acoplada ao corpo original na parte de trás, onde havia a Casa do Capelão. Mas manteve-se o mesmo padrão estético”, explicou o arquiteto.
Segundo o especialista, até mesmo os bancos e portas da capela mantiveram-se os mesmos ao longo dos anos. “A gente diz, com cautela, que quase tudo o que está aqui remonta à fase sanatorial”.

Dentre as pequenas alterações sofridas com o tempo, o arquiteto destacou os vitrais das janelas: dos dez existentes hoje, somente 4 remontam à sua inauguração. Os demais, no entanto, foram acrescidos ainda no período sanatorial.
Além disso, os jardins também passaram por transformações já que em seu início o Sanatório Vicentina Aranha era um grande terreno descampado.
“No passado já existia o jardim, sendo maior do que o de hoje, pois circundava toda a capela e a gruta, integrando estas duas construções. O Sanatório todo era desenhado com jardins. Isso foi se perdendo com o tempo. A vegetação foi se desenvolvendo ao longo dos anos. Então muitas árvores foram plantadas intencionalmente, tanto com função estética, para sombreamento ou para fazer uma barreira contra o vento”, disse Felipe.
Com capacidade para cerca de 150 pessoas e uma área de 470m², a Capela do Vicentina Aranha conta hoje com altares laterais, vitrais e um tradicional piso de ladrilho hidráulico, fabricado artesanalmente à base de cimento e outras matérias-primas. Ele recebe este nome por não passar por processo de queima em sua produção, mas por uma submersão em água.
“A gente tem aqui um exemplar de uma capela do estilo eclético. Mesmo após o Concilio Vaticano II, o altar tradicional não foi alterado, só foi acrescida a mesa do altar à frente, sem desmanchar o original. Nos vitrais, temos obras de arte aqui. É uma riqueza artística, cultural e humana”, enfatizou o arquiteto.

Altares laterais
Dentre os adornos que muito chamam a atenção do público, estão os altares laterais. Eles remetem não somente às devoções populares vividas no período sanatorial de São José dos Campos, mas também ajudam a ilustrar a realidade do então Sanatório Vicentina Aranha. O local recebia enfermos de todos os sexos e idades.

As imagens retratadas nos altares laterais referenciam justamente a acolhida aos jovens. Uma delas é Santa Inês, que era apresentada pelos Salesianos como um modelo de santidade juvenil para as meninas.
Outra imagem que remete à acolhida que era realizada pelo sanatório é a de São Luiz Gonzaga, modelo de santidade juvenil para os meninos. Percebe-se, assim, a influência e forte presença da educação salesiana no local.
Ainda segundo as explicações de Rômulo Paula, a imagem de Nossa Senhora de Lourdes apresentada em um dos vitrais remete à própria origem de sua devoção. Nossa Senhora de Lourdes é padroeira dos doentes. Em seu dia litúrgico, 11 de fevereiro, celebra-se o Dia Mundial dos Enfermos.
Já a imagem de São Tarcísio traz outra referência às crianças. O santo é considerado o padroeiro dos coroinhas.

Outra referência à história da região é a de Santa Teresinha do Menino Jesus, que oficialmente remonta à devoção das congregações que nasceram do Carmelo, uma ordem religiosa católica que surgiu no final do século XI, na região do Monte Carmelo, em Israel.
Embora tenha origem francesa, a santa possui grande devoção no Vale do Paraíba, que recebeu o primeiro santuário em sua homenagem fora da França, em Taubaté.

Remontando à influência da congregação religiosa que administrava o Sanatório, observa-se ainda a presença de um vitral dedicado a Santa Isabel da Hungria, que compõe o escopo de altares laterais.
Além das referências históricas e culturais, os altares laterais ainda contam com imagens importantes da Igreja Católica, como a figura do Bom Pastor, da Sagrada Família e as do próprio Coração de Jesus.


Inauguração do Parque Vicentina Aranha
Mesmo com a transformação do Sanatório Vicentina Aranha em parque, em 2006, a Capela Sagrado Coração de Jesus continuou com as atividades litúrgicas e sacramentais, sendo fechada em alguns períodos apenas para reformas ou pequenos reparos em sua estrutura.
No final de 2021, após a entrega das obras de restauro em sua fachada, a Paróquia Sagrada Família estabeleceu um contrato de parceria e cooperação com a AFAC, em vista da recuperação dos bens materiais e imateriais presentes no complexo Vicentina Aranha, em vista da Causa do Padre Rodolfo Komorek.
A parceria permitiu a reabertura do templo para missas e casamentos, no segundo semestre de 2022.
Origem do nome Sagrado Coração de Jesus
O padroeiro da Capela é o Sagrado Coração de Jesus.
De acordo com Rômulo Paula, a influência francesa e, indiretamente, da devoção popular deixou marcas na edificação do templo, construído em meio a um sanatório para o tratamento de tuberculosos.
“Aqueles que buscam a restauração de sua saúde só poderão encontrá-la de forma integral se buscarem a saúde espiritual. Por isso o Sagrado Coração de Jesus é apresentado como aquele que é, de fato, o restaurador de coração e de vidas e que, assim, influencia na vida pastoral dos fieis”, destacou Rômulo.
Outra hipótese da nomeação é que as religiosas da Congregação das Irmãs de São José de Chambéry, que estiveram à frente da capela do período sanatorial, já possuíam devoção particular ao Sagrado Coração de Jesus.

Relação com a Paróquia Sagrada Família
Conforme Rômulo Paula explicou durante a entrevista ao Portal SP RIO+, dois motivos justificam o vínculo da capela com a Paróquia Sagrada Família.
O primeiro motivo é porque a paróquia é responsável pela animação da causa da canonização do Padre Rodolfo Komorek.
O segundo motivo é que ambos estão em um mesmo território, recebendo fiéis, principalmente, dos bairros da região central.
Como agendar casamentos na Capela do Vicentina Aranha?
A Paróquia Sagrada Família também é responsável pelo agendamento de casamentos na Capela do Vicentina Aranha.
As cerimônias acontecem aos sábados, às 16h30, 18h ou 19h30.
Para agendar, os noivos precisam assinar um termo de compromisso acerca das regras particulares reservadas ao local.
Dentre as regras, estão a não utilização de passarelas de espelho, de fios quentes, de fogos quentes no interior e no exterior etc.
A agenda de casamentos é aberta com 1 ano de antecedência.
Não é possível realizar batizados e outros sacramentos católicos.
Quais outros eventos são realizados?
Além dos casamentos, a Capela do Vicentina Aranha realiza celebrações especiais em comemoração às datas que contam a história do local, do parque e do Padre Rodolfo Komorek.
Dentre as datas, estão as missas solenes em memória à Nossa Senhora de Lourdes, ao Sagrado Coração de Jesus, festa de aniversário da criação da capela e aniversário do parque, além das tradicionais celebrações de Natal, Páscoa e Corpus Christi.
Desde sua reabertura, em 13 de agosto de 2022, na Capela Sagrado Coração de Jesus também são celebradas missas aos domingos, sempre ao meio-dia, horário que remonta às missas do período sanatorial.
Reduto de tradição e história
Como parte da construção da identidade de São José dos Campos, o Parque Vicentina Aranha conta com uma série de paisagens, arquitetura e referências à sua fase sanatorial. Trata-se não somente de uma herança unicamente católica, mas também histórica e cultural. É o que destacou Rômulo Paula.
“Como dizemos, é o coração da cidade no coração de Jesus. Aqueles que desejam buscar e reconhecer a história de São José dos Campos encontram dentro desta capela não só as características arquitetônicas que vão corresponder ao período, mas também um pouco da história daquilo que a cidade viveu”.
Ainda sob um sentimento de carinho à capela, Rômulo enfatizou que tal tradição remete não somente a um cuidado corporal, mas também espiritual.
“Quando as pessoas visitam o Vicentina Aranha é possível encontrar não só esse cuidado pessoal, da sua saúde corporal, mas também o de sua saúde espiritual. Ou seja, na capela do Vicentina Aranha se cuida integralmente da pessoa humana, seja do seu corpo ou de seu espírito, visto o local privilegiado em que se encontra”, ressaltou.
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