O ex-prefeito de São José dos Campos Emanuel Fernandes (hoje sem partido) conseguiu uma proeza na manhã deste sábado (3): reuniu cerca de 60 pessoas para ouvi-lo sobre o Brasil e seus desafios, deixando de lado o que se refere à política miúda, ou à política partidária, valorizando as ações que podem mover e modificar a sociedade, a política que está em todas atitudes cidadãs. “Só eleição não basta”, pontuou Emanuel durante sua palestra. “É preciso construir valores”, completou.

O encontro foi na Praça do Sol, na Vila Adyana. O público foi aparecendo aos poucos, tentando entender a dinâmica, atraído pelo telegráfico convite feito por Emanuel no Facebook e o boca-a-boca entre entusiastas do ex-prefeito, que mantém excelente recall. Alguns conseguiram um lugar nos bancos da praça, a maioria, muito atenta, escutou Emanuel de pé mesmo. O vereador Thomaz Henrique (Novo) se acomodou no chão (viva a juventude!).
Houve quem trouxe sua cadeira de praia. Dividi a beirada do relógio de sol com a vereadora Dulce Rita (PSDB). Para os próximos encontros, a ideia é conseguir um lugar que possa ser mais confortável, segundo o próprio Emanuel. Esse encontro na Praça do Sol foi uma espécie de apresentação. Emanuel pretende esmiuçar cada um dos tópicos nas próximas reuniões.
O ex-prefeito, depois da reclusão que se auto-impôs durante a pandemia, parece estar animado em poder atuar politicamente dessa maneira, levando para mais pessoas suas experiências práticas à frente da Prefeitura (de 1997 a 2004) e disseminando conceitos formulados a partir de muito estudo e leituras.

“Ele é candidato?”, me pergunta uma senhora que, desavisada, fazendo sua caminhada, cruzou a “conferência” informal. Até poderia parecer um pequeno comício. Emanuel, no entanto, já tinha deixado claro que o objetivo era discutir questões que vão além dos mandatos. (O que não impedirá que o homo biologicus de hoje reative mais para frente sua quase inescapável habilidade de homo politicus).
Emanuel usa uma boa imagem para criticar a polarização existente no Brasil, uma sociedade praticamente dividida: “Não adianta nada trocar os ordenhadores, se a vaca é a mesma”. Com isso quer colocar as paixões individuais, de cada cidadão e de cada comunidade na equação, para mudar a vaca. Para ele, assim como não se deve deixar tudo para os políticos resolverem, na educação, não se pode deixar tudo por conta da escola. E assim por diante… A participação das famílias, dos grupos, é fundamental.
A plateia mesma reforçou o apartidarismo anunciado logo no início: estavam ali nessa ágora joseense o deputado estadual Dr. Helton (PSC), o ex-deputado Eduardo Cury (PSDB), o combativo jornalista Luís Paulo Costa, vereadores, lideranças joseenses, ex-secretários de Emanuel, ex-colegas de INPE… E os fãs do ex-prefeito, que o aplaudiram quanto ele falou da necessidade de “acreditar na boa fé”, esse o lado otimista do orador.
Emanuel lembrou com gosto de seu projeto à frente da Prefeitura, que deu fim às pichações na cidade. Um exemplo de que se pode mudar por meio da construção de novos valores, afirmou.
A fala do ex-prefeito foi abafada algumas vezes por aviões (não dá para escapar dessa variável em São José) e outras vezes pelos equipamentos de garis, limpando as ruas como se deve. Ali de onde eu estava, ouvi em tom de brincadeira que essa equipe barulhenta de laranjinhas tinha sido enviada pelo prefeito Anderson Farias (ex-tucano, hoje no PSD do vice-governador Felício Ramuth), que não estava entre os presentes. As palestras podem ter bom-humor.