
Duas missões foram confiadas ao vice-governador do Estado, Felício Ramuth (PSD) nesses primeiros dias de mandato: encontrar soluções para dar fim ao dramático estado da Cracolândia e dos moradores de rua da cidade de São Paulo e coordenar o Conselho Estadual de Desestatização.
O plano para a Cracolândia, tratada oficialmente como “Cena Aberta de Uso” (termo emprestado da nomenclatura norte-americana) será apresentado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no dia 23 de janeiro e é um ponto de honra para a nova administração, depois de décadas de fracassos do poder público no combate ao consumo do crack.
Privatização da Sabesp
Numa outra frente, igualmente importante para o governo, estão as privatizações. Ou, usando a terminologia que o governo prefere, desestatizações. Felício conta que o governo já encomendou estudos para a privatização da gigantesca e tentacular Sabesp e se movimenta em Brasília para convencer a administração federal, encabeçada pelo PT, a passar o porto de Santos para a iniciativa privada, deixando-o livre das amarras estatais e, principalmente, dos esquemas nada republicanos escondidos por trás dos guindastes do principal terminal marítimo do país.

“Batatas quentes”
“São duas batatas quentes”, como bem pontuou o jornalista Hélcio Costa, durante a primeira entrevista com imagens feitas no gabinete de Felício no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, na última sexta-feira.
Detalhes do gabinete estão descritos no texto “Uma sala, muitos signos”, de Hélcio Costa.
Felício parece convencido de que, até agora, faltou rumo, faltaram metas para um plano que enfrentasse o problema não só do consumo do crack, mas de todas as questões sociais a ele relacionado. O vice-governador fala insistentemente em “união de forças”, mais integração município-Estado-entidades, mas não acredita em consenso: “se você questionar três pessoas vai receber cinco propostas diferentes de como tratar desse problema.”
Felício aposta, entretanto, no diálogo.
Esta entrevista foi cronometrada pela assessora de imprensa de Felício (ao som do carrilhão do relógio centenário que existe no gabinete) para que o vice-governador não perdesse o encontro com o deputado tucano Edson Aparecido, seu interlocutor na Prefeitura de São Paulo quando o tema é a Cracolândia.
Médicos e outros profissionais da saúde, pesquisadores, políticos, religiosos já foram ouvidos também para dar suas sugestões. O arco de ideias tem se aberto também para adversários políticos como o vereador Eduardo Suplicy (PT) e Soninha Francine, secretária municipal de Direitos Humanos da cidade de São Paulo. Atrás de boas ideias e de diálogo amplo, Felício já conversou também com Frei Hans Stapel, idealizador do projeto Fazenda Esperança, nascido em Guaratinguetá, fez visita ao Ministério Público e viajou para ver de perto um projeto de combate às drogas em Santa Rita do Passa Quatro.
E, se o plano da Cracolândia der certo, explica o vice-governador, vai servir de modelo também para o combate às drogas em outras cidades do Estado.
Felício reclama, com certa razão, da falta de um cadastramento das pessoas em situação de rua. O Estado quer saber com mais precisão quem são essas pessoas, essas famílias, por que estão ali nas “cenas abertas de uso”. Os comerciantes da região da Cracolândia entram na equação para readequar a vida de seus estabelecimentos. Ele também defendeu a relação republicana entre os poderes e o diálogo em todas as situações.
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Porto de Santos
Já a “batata-quente” chamada Porto de Santos já foi tema de conversa em Brasília entre Tarcísio e o presidente Lula na última semana. Há forte resistência do ministro Márcio França, titular da Pasta de Portos e Aeroporto, à privatização do terminal. Mas também há gente no governo aberta à discussão. Afinal, o Porto de Santos ficou de fora da listadas empresas consideradas invendáveis pelo governo Lula. Isso é visto como um bom sinal.
Segurança
O vice-governador explica que não compôs o secretariado de Tarcísio justamente para poder auxiliar o governo e outros secretários com sua experiência administrativa e política. Felício já mostrou ao secretário da Segurança Pública do Estado, Guilherme Derrite (“um craque”, elogia), como se dá, em São José dos Campos, a integração das forças de segurança e o uso intenso da tecnologia no combate ao crime.
O diálogo defendido pelo vice-governador, entretanto, não dispensa as críticas. Contundente adversário do PT, Felício critica o vandalismo dos ataques em Brasília, mas faz questão de dizer que a esquerda já promoveu quebra-quebra também. E, seguindo essa linha, defende ainda que as decisões judiciais sobre a retirada das famílias do Banhado devem ser respeitadas.
Na terça-feira, Felício estará em São José dos Campos como governador do Estado, já que o titular, Tarcísio de Freitas, estará fora do País, em sua primeira viagem internacional, cumprindo agenda no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). Mas quem encontrar com o governador em exercício na cidade, na próxima semana, durante sua agenda oficial, pode chamá-lo de Felício mesmo. É assim que ele prefere. Sem protocolo, mais perto das pessoas.