
“Ser mãe é padecer no paraíso”, diz o famoso ditado popular. Essa frase, que muitas vezes é dita como um elogio a maternidade, pode nos trazer algumas reflexões sobre o “ser mãe” e é essa a nossa proposta hoje, refletir sobre a maternidade de uma forma um pouco menos emotiva.
O tema maternidade traz muito a tona um lado emocional das pessoas, principalmente das mulheres. O assunto sempre trazido como algo positivo, leve e quase sagrado dominou, durante muito tempo, a imaginação feminina e a concepção geral das pessoas sobre “ser mãe”. No entanto, cada vez mais mulheres expõe as suas experiências com a maternidade, o que nos faz pensar sobre a dualidade desse ditado.
O paraíso da expressão nos faz pensar sobre a maravilha que é ser mãe, afinal, quando o assunto é maternidade é o que mais ouvimos. Sendo colocado como inerente ao feminino e como se o “instinto materno”já existisse dentro de todas nós, uma mulher só seria completa se fosse mãe. A problemática disso é fazer com que a maioria das mulheres assuma isso como uma verdade, sem questionar verdadeiramente o seu desejo, colocando como único destino digno para sua vida ser considerada plena e feliz. O termo “maternidade compulsória” surge dessa ideia da imposição da maternidade como o único caminho para a felicidade feminina e propõe, exatamente o questionamento do desejo.
Esse questionamento passa pela reflexão do quanto ser mãe é um desejo da mulher e quanto disso vem de uma pressão externa, social. Eu não sei da experiência de todas as mulheres, mas digo pela experiência de algumas amigas e pacientes, que ouviram de amigos, familiares e até pessoas não próximas frases como “como assim você não quer ser mãe?”, “você já está na idade de planejar um filho”, “mas você precisa ter pelo menos um, se não vai se arrepender depois”, entre outras, que geram algum tipo de pressão em relação à decisão de ser mãe. Não há nada de errado em querer ser mãe, mas que tenhamos autonomia nessa decisão tão importante.
Para além do paraíso, temos o padecer que tem como significado de ser atormentado, afligido, martirizado, ter que suportar algo. A ideia de maternidade quase como um sacrifício, um padecimento sagrado e sublime que faz parte de alcançar a plenitude através de ser mãe, faz com que consideremos a realidade do que as mães enfrentam. Um movimento atual vem mostrando a “propaganda enganosa” da maternidade, quando que douram a pílula dizendo sobre o quanto é bom, mas omitindo a verdade, que é o quão difícil é exercitar esse papel, o quanto ele vem carregado de dificuldades, duvidas, insegurança, e o pior, culpa.
O padecimento surge através da exposição a essas dificuldades sem o suporte emocional adequado e sobrecarga de funções, que acumulam o cuidar do filho, da casa e trabalhar fora. Sabemos que estamos no caminho da divisão de tarefas e responsabilidades, mas também é notório que ainda há muito o que buscar nesse aspecto. Diante desse esgotamento surgem novas denominações, como a Síndrome do Esgotamento Materno, utilizado para caracterizar a exaustão e estresse crônico, que algumas mães podem desenvolver devido à sobrecarga de uma rotina agitada e funções maternas.
Ser mãe é uma decisão importantíssima na vida de uma mulher, cabe a ela ter autonomia e decidir assumir esse projeto de vida, sendo fundamental o acolhimento da família e da sociedade para essas pessoas cansadas e sobrecarregadas, assim como uma maior aceitação sobre a decisão do não desejo da maternidade, ser mãe é uma decisão, uma escolha e não um destino.
Feliz dia das Mães, a todas que escolheram essa empreitada.