
Desde a exibição da cerimônia do Oscar 2022, que aconteceu no domingo (27/03), um dos assuntos mais comentados mundialmente, foi a confusão envolvendo o ator Will Smith e o comediante Chris Rock.
Na ocasião, Will subiu ao palco e deu um tapa no rosto do comediante depois dele ter feito uma piada muito infeliz, diga-se de passagem, com a esposa do ator, a atriz Jada Smith, usando sua calvície originada de uma doença chamada alopecia e comparando-a com uma personagem do filme “Até o Limite da Honra”, que também possui os cabelos raspados.
Todos conseguimos nos colocar no lugar do Will Smith, ao ver alguém que você ama sendo ridicularizado ou humilhado, é normal e, até mesmo, esperado, que uma mistura de sentimentos tome conta do nosso ser, mas a grande questão está em como você lida os seus sentimentos e como eles se refletem em suas ações.
O desejo de expressar nosso descontentamento com a situação é algo mais do que aceitável, no entanto, quando estamos emocionalmente instáveis e não conseguimos nos controlar, atitudes como a de Will, que está visivelmente abalado e tomado por suas emoções pode ocasionar em um episódio como o do Oscar. Algumas pessoas defenderam a atitude de Will, como uma forma de limpar a honra da família Smith, ou até mesmo como a falta de limites de Cris merecesse um limite físico, ok, consigo entender a lógica, mas vamos lá, e se todos que se sentirem ofendidos decidirem que é uma boa ideia dar um tabefe na cara do sujeito que o ofendeu? Estaríamos todos perdidos e fadados a resolvermos nossos problemas em um grande duelo, como nos filmes da idade média.
A raiva é um sentimento natural, sendo, inclusive, benéfica, se racionalizada de maneira saudável, já que pode ser um sentimento impulsionador de mudança. Porém, nesse caso, não foi canalizada de maneira assertiva, fazendo apenas com que Will protagonizasse uma cena triste e violenta na cerimonia. O ideal seria que ele tivesse subido ao palco e usasse sua força para falar com as milhões de pessoas e conscientizá-las sobre uma doença tão séria e envolta a tantos preconceitos, poderia ter alertado Chris sobre o quão inapropriado era brincar com um problema de saúde ou com a aparência física de alguém ou esperasse o momento certo para dizer como ele se sentiu, repreendesse Cris posteriormente ou até mesmo tomasse as medidas cabíveis na lei para que isso pudesse ser retratado. Não é aceitável legitimarmos atos de violência.
Já Cris Rock, bom, Cris nos faz pensar sobre quais são os limites do humor. Sabemos que a função do humorista é encontrar formas de fazer piadas de situações e pessoas, como nas caricaturas, muitas vezes evidenciando pontos e características das pessoas, mas então, qual o problema de falar da calvice de Jada? O problema está na fragilidade do outro. Quando vamos fazer um comentário ou uma piada usando outra pessoa, devemos levar em consideração o quanto isso pode ser invasivo ou ofensivo para quem recebe, faltou o tal do bom senso.
.
Bom senso esse que pode ser definido como a nossa capacidade de perceber quando e como falar, assim como, saber a hora de nos mantermos calados, ou mesmo, de nos afastarmos em certo momentos. Esta é uma habilidade essencial para construirmos relações sociais saudáveis. Entretanto, ela não é inata, ou seja, cada experiência nos amadurece e nos ajuda a compor uma espécie de repertório emocional, para agirmos de forma mais adequada de acordo com cada situação e para convivermos melhor com as pessoas ao nosso redor.
E no meio de toda essa confusão, pouco se falou de Jada que não somente foi ridicularizada por sua doença (alopecia) e aparência física, na frente de milhões de pessoas, como também acabou ficando mais exposta após toda essa confusão. Pensarmos sobre o quanto a doença pode ter afetado a sua saúde emocional, assim como interferido em sua autoestima, essa importante na construção de sua visão sobre sua autoimagem.
Para além do problema de saúde, de sua calvice, da exposição, esses já debatidos indiretamente quando falamos de Will e Cris, temos uma mulher que não pode escolher se gostaria de toda essa exposição, afinal de contas, apenas julgamos o bom ou mal comportamento de Will, mas pouco falamos como pode ser sido para Jada ver o marido se levantar e tomar essa atitude. Você pode pensar que qualquer mulher ficaria lisonjeada em ser “defendida” dessa forma, mas talvez não.
Quando Will decide ir até Cris, podemos especular que talvez ela não pudesse se defender sozinha. Como se ela fosse dele e ele devesse zelar por sua honra. A família não é uma propriedade particular, sendo assim não devemos agir em nome de outra pessoa. A necessidade de resposta é uma decisão pessoal e intransferível, devendo partir de Jada Pinkett Smith, ela que deveria tomar a decisão do que fazer diante do constrangimento que passou, até porque ela é uma mulher inteligente, articulada e independente do marido.
Com isso, lembro aqui de alguns comentários de outras mulheres sobre o acontecido, em que enaltecem a atitude de Will e falam “não aceitem menos do que isso”, mais uma vez, eu entendo a lógica que diz que, se ele fez isso é porque se importa, mas nos deparamos novamente com a ideia de um defensor, alguém que vem e nos salva do mal, posição essa questionável, já que a melhor pessoa para nos salvar somos nós mesmas.
Devemos nos apropriar dos nossos sentimentos e das atitudes que nos levam a coerência do que acreditamos como correto, somos capazes de fazer isso por nós mesmas. Ter alguém ao nosso lado, tomando as nossas dores e se posicionando ao nosso lado, tem muito mais a ver com uma posição em relação a vida e uma atitude diante da relação, do que com um homem que vai se sentir ofendido por você em uma situação social e vai se sentir no direito de lutar por sua honra em um espaço publico.
Afinal, até onde estamos dispostos a lutar por nossa honra?