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Acácio Oliveira: um violão sempre afinado com a modernidade de Villa-Lobos

Violonista “embaixador da música de São José dos Campos” quer celebrar os 100 anos da Semana de Arte Moderna, em 2022, trazendo o violão e instrumentistas joseenses para o centro do palco.

José Guilherme R. Ferreira • Publicado em 7/10/2021, às 22:35 • Atualizado em 7/10/21, às 23:51




Quando o violonista Acácio Maurício de Oliveira Jr. estiver desembarcando na Rússia, em 2023, estará repetindo um gesto que vem coroando sua carreira musical como um dos respeitados intérpretes do compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Desde 2007, Acácio tem sido convidado para a banca de jurados do “Tabula Rasa”, um tradicional concurso de formação de jovens violonistas, realizado anualmente em Moscou.

Durante três décadas, a partir de São José dos Campos, Acácio conjugou a atividade de instrumentista, em concertos aqui e ao redor do mundo, com a de educador, estimulando talentos à frente do Conservatório Villa-Lobos e da Faculdade Villa-Lobos do Cone Leste Paulista. Não à toa, em 1998, foi nomeado “embaixador da música” de São José dos Campos. Sua atuação, entretanto, não se atém às fronteiras desse título carinhoso. Seu trabalho de irradiação internacional da obra de Villa-Lobos tem a chancela do Museu Villa-Lobos, (RJ), sacramentada então pela viúva do compositor, Arminda Villa-Lobos. Esse reconhecimento tem sido o principal passaporte de Acácio.

Mesmo vivendo hoje na pequena cidade de Divino (MG),
oito horas de viagem daqui, numa espécie de período
sabático, Acácio tem se debruçado sobre algumas curadorias musicais para São José dos Campos, a cidade que o adotou
em 1969, quando a família veio transferida de Botucatu (SP).
Os projetos, previstos para 2022, estão sendo encaminhados para apreciação da Fundação Cultural Cassiano
Ricardo (FCCR), que gere as atividades artísticas da cidade.
O objetivo de Acácio é celebrar com música os 100 anos da Semana de Arte Moderna de 22, trazendo o violão para
o centro da cena, como fez Villa-Lobos com algumas composições.

Acácio e os também violonistas Alexandre Wuensche e Milton Costa já começaram a ensaiar. Na verdade, o concerto “O abraço entre o erudito e o Popular”, no próximo dia 18 de novembro, no Teatro Benedito Alves, em São José dos Campos, será uma prévia aos demais a celebrar o violão e o modernismo na música do Brasil. Fará parte da já tradicional programação do “Mês da Música”, da Fundação Cultural Cassiano Ricardo. “A ideia é trazer ao público a eloquência do antropofagismo cultural presente nas obras dos artistas da Semana de Arte Moderna de 22”, diz o curador.

Villa-Lobos

“Villa-Lobos era moderno antes da própria semana de arte moderna, nasceu moderno”, gosta de dizer Acácio, que tem visto de perto como as obras do maestro brasileiro continuam a emocionar, mantêm sua vitalidade e provocam aplausos no mundo inteiro. As Bacchianas Brasileiras, Trenzinho Caipira, Choro nº1 sempre alimentam repertórios dos Estados Unidos ao Japão. Em 1987, para comemorar o centenário de nascimento do maestro, Acácio fez concertos pelo Brasil. Em 2019, nos 60 anos da morte de Villa-Lobos, levou as peças de violão do compositor ao Sesc, mas também a palcos de universidades de Moscou e do México. Sucesso absoluto. Um disco inteiro foi dedicado a Villa-Lobos em 2004.

Sinal dos tempos, o célebre brasileiro foi vaiado em 22 durante concerto no Teatro Municipal de São Paulo. Na ocasião, mais do que a música, a elite não perdoara a modernice de sua apresentação de gala em chinelos (na verdade o compositor enfrentava era uma crise de gota). As apresentações, entretanto, deram muita visibilidade ao artista que, no ano seguinte, partiu para uma curta temporada em Paris. “Voltou mais Villa-Lobos do que nunca”, responde Acácio ao ser questionado sobre as influências europeias do compositor. Não que elas não existissem. Essas, Villa-Lobos as deglutiu, ao ritmo do antropofagismo assinalado por Oswald de Andrade, parte de um tripé onde entravam ainda suas variadas pesquisas folclóricas, resultado de caravanas pelo país, e aquelas de raízes africanas.

Em documento que entrou para a história da música – e nem era partitura! –  o grande maestro e pianista americano Leonard Bernstein (1918-1990), talvez para não se atrapalhar com tanta novidade, anotou numa ficha a profusão de instrumentos incorporados por Villa-Lobos nas peças compostas para várias formações: estão lá a matraca, o reco-reco, o pandeiro, o tamborim (“tocado com o joelho”), na simbiose criativa com os mais clássicos. Alguns críticos dizem que o violão sempre funcionou muito bem como mediador entre o universo da música clássica e o da música popular. Villa-Lobos sabia disso.

Acácio Oliveira

Há muito de persistência na carreira de Acácio Oliveira até chegar a Villa-Lobos. Em 1977, ainda jovem autodidata, ouviu um “pára! está muito ruim!” do professor, o grande violonista Turíbio Santos, durante uma audição no Festival de Inverno de Campos do Jordão. Não tinha se dado bem ao tentar interpretar uma sonata de Domenico Scarlatti. Em 1982, de volta ao festival, conseguiu levar até o fim uma composição espanhola e ouviu do mesmo Turíbio um: “Acácio, está perfeito!”. Na ocasião, o violonista não se lembrou de Acácio, que lhe contou a história tempos depois.

O primeiro contato de Acácio com a música se deu ainda na adolescência, no final dos anos 1960, em Botucatu, interior de São Paulo. Integrava a banda Os Jetsons, no contrabaixo, arrasando como cover dos Beatles. Tocavam no Tênis Clube da cidade, no espaço Tristão de Athayde (no andar superior do Cine Paratodos) e faziam um som também no programa “O Reino da Gurizada”, na PRF-8, popular rádio local.

Já em São José dos Campos, a partir de 1969, encontrou o cavaquinho, passou a interagir com grupos de choro e até atuou no Carnaval, acompanhando o puxador de samba da Calazans e seus Acadêmicos. A paixão pelo violão e o deslumbramento com a música clássica aconteceram em 1977, ao participar do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Além de Turíbio Santos, teve como professores Henrique Pinto, Alexandre Lagoya, Miguel Angel Girold e Àlvaro Pierri.

O aperfeiçoamento, a experiência de concertista, levaram o instrumentista à criação do Conservatório Musical Heitor Villa-Lobos, em 1980, em espaço que durante um tempo dividiu com o atelier de artes plásticas da mãe, a pintora Sônia Oliveira. Anos mais tarde, fundaria a Faculdade Heitor Villa-Lobos do Cone Leste Paulista. As escolas enfrentaram crises financeiras e foram fechadas, sem que a cidade desse um pio, sem que houvesse interesse de empresários em adquiri-las ou o poder público as incorporasse. E isso porque foram mais de três décadas dedicadas ao ensino de música!

“Sua Majestade o Violão”

Batizado de “Sua Majestade o Violão – O Mal Dito pelo Bem Dito”, um dos projetos pensados por Acácio em Divino (MG) prevê cinco dias de concertos em São José dos Campos, com repertório do violão seresteiro solo. Na pesquisa preliminar do curador estão incluídos compositores e artistas como Aníbal Augusto Sardinha (Garoto), João Teixeira Guimarães (João Pernambuco), Américo Jacomino (Canhoto), Baden Powell, Paulinho Nogueira e Dilermando Reis.

“Será uma reflexão histórica do desenvolvimento técnico e musical desse instrumento brasileiríssimo, focando em seus principais intérpretes e compositores do século passado”, diz Acácio. Para apresentá-los, violonistas joseenses: Alexandre Wuensche, Bruno Madeira, Lucas Pulin, Milton Costa, além do próprio Acácio. Ao lado dos concertos, o plano é montar ainda uma exposição de fotografias, acompanhadas de 50 discos em acetato da época de ouro do violão. Acácio não esqueceu de incluir nesse pacote, uma homenagem a Elmano Ferreira Veloso, prefeito de São José dos Campos entre 1959 a 1962, respeitado seresteiro do violão joseense, integrante do conjunto musical “Seresteiros ao Luar”, então muito presente na Rádio Clube da cidade.

Camerata & Virtuosos

Já o projeto “Camerata Joseense & Virtuosos do Banhado 2022” propõe duas séries de apresentações instrumentais, num total de nove concertos, com o objetivo de difusão da música de câmara dos períodos Renascentista, Barroco, Clássico e Contemporâneo. Acácio quer aproximar violonistas e pianistas internacionais de São José dos Campos dos músicos da Orquestra Comunitária da cidade. A orquestra, constituída em 2020, é gerida pelo AFAM (Instituto para o Apoio e a Formação Artística Musical em São José dos Campos) e tem como maestro titular Bartholomeu Vaz que, segundo Acácio, “tenta recuperar o sentido de uma orquestra comunitária na cidade”. Acácio defende que “envolver jovens músicos da comunidade é fundamental para a própria sobrevivência de projetos importantes como esse da orquestra; assim se consegue criar raízes”. Jovens da Camerata (violino, viola, violoncelo e contrabaixo) terão oportunidade de aperfeiçoamento técnico, explorando a experiência de solistas, os violonistas Alexandre Wuensche, Bruno Madeira, Lucas Pulin, Milton Costa e Acácio Maurício e as pianistas Rosana Civile, Olga Lazareva e Clara Sarur.

Outra interação dos músicos da comunidade e músicos profissionais está prevista em “Orquestra Comunitária & Solistas Joseenses”, projeto para o mês da Música, em novembro de 2022. Para a performance dos solistas estão programados: Concerto Andaluz para 4 Violões e Aranjuez, de Joaquin Rodrigo, e a execução orquestral de temas espanhóis.

Acácio é um músico eclético, e defende esse ecletismo. Dedica-se, sim, ao estudo da fantástica obra para violão de Villa-Lobos, mas encara a Bossa Nova com a mesma paixão (“considero Tom Jobim um continuador de Villa-Lobos”). Pode ser ouvido interpretando Bebê, de Hermeto Paschoal, na companhia de Dennis Belik e Nilton Blau, ou dedilhando sozinho o Prelúdio 1, de Bach. Consegue “ranger” suas cordas para dar vida aos “carros-de-boi”, aos “carrilhões” de João Pernambuco. Tem um CD pronto, Unforgettable American Songs (Standards for Classical Guitar), com hits dos anos 1910 a 1940. Acácio concorda que o violão é um bom acompanhamento para voz. Vale lembrar do sucesso do instrumento entre os bossanovistas, sempre com seus Di Giorgio, Giannini e Del Vecchio a tiracolo (“o meu foi mesmo um Rei dos Violões”, diz Acácio). O violão do instrumentista já acompanhou o Romancero Gitano, de Garcia Lorca, todo cantado, em performance pioneira na América Latina. Acácio confessa que tem mesmo uma queda por música espanhola. Lembremos que foi com uma delas que ele ouviu um “perfeito!” de Turíbio Santos.

 

Discografia

1999 – Preludium

2001 – Violão e Orquestra Gestual

2003 – Un elegant recital

2004 – Acácio Oliveira interpreta Heitor Villa-Lobos

2005 – A Voz do Violão

2006 – Romancero Gitano (participação)

2021 – Unforgattable American Songs

 

 



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