
O ciclista acelera as pedaladas. Indefeso, tenta escapar de uma nuvem preta-avermelhada que avança em sua direção velozmente e vai engoli-lo a qualquer momento. A tempestade de areia escurece tudo e o alcança. Mesmo desconcertado com a violência das rajadas, consegue fazer o registro para as redes sociais. Esse cenário catastrófico de fim de mundo ocorreu na tarde do último domingo (26) na região norte do Estado de São Paulo. A “tempestade desértica” varreu cidades como Guaíra, Ribeirão Preto, Franca, Orlândia, Jardinópolis e Viradouro, levando susto a seus moradores. Depois da areia, a chuva pesada. Os meteorologistas tinham a resposta pronta: seca de mais de 100 dias e um vento de 100 km/h foi um casamento perfeito para o fenômeno. Tempestades semelhantes foram registradas também em outros estados brasileiros, com destaque para aqueles onde a agricultura “prospera”.Ficam sempre faltando nas explicações, entretanto, o relato sobre os antecedentes, a “ficha corrida” da situação: queimadas, desmatamento, uso intensivo e indiscriminado do solo, assoreamento de rios, exploração ilegal de minérios. Essas as reais “fábricas” da poeira que embaçou o fim de semana.
Dust Bowl brasileiro
Walter Falceta, do Jornalismo e Cidadania, chegou a comparar essas tempestades brasileiras àquelas que trouxeram calamidade ao planalto central americano na década de 1930. No texto “O Horror do Dust Bowl brasileiro”, ele escreve que frequentes tempestades de areia arrebentaram a economia norte-americana e deixaram as terras inférteis por décadas. As secas prolongadas, efeitos de conjunturas climáticas, foram fatores preponderantes nessa derrocada agrícola e humana. Estudos recentes, entretanto, mostram o nada desprezível peso da ação do homem nesse drama que abalou os Estados Unidos de Roosevelt.
A história registrou uma corrida desatada para a produção. “A necessidade de alimentar a Europa do pós-guerra e redirecionar o investimento governamental e força de trabalho fizeram com que os Estados Unidos abrissem uma ferida gigantesca no solo, plantando indiscriminadamente ao longo de toda faixa central do país”, escreveu Lucas Coelho. Houve também uma certa entrega mística dos campos ressequidos aos céus, sem necessários cuidados de manejo, na base do “Deus segue o arado”. A seca encarregava-se de produzir areia a partir desses terrenos abertos sem medida.
Steinbeck
Quem já leu o romance Vinhas da Ira, de John Steinbeck, tem o retrato visceral da família de “okies” (como eram chamados os refugiados da área do Dust Bowl) em toda a sua miséria. Durante cerca de 10 anos, as tempestades de areia foram uma constante. Milhares foram as vítimas com problemas respiratórios. As rajadas de areia tinham potência para cruzar estados, atingindo navios no Oceano Atlântico. Chegaram a riscar a estátua da Liberdade, em Nova York. Era um sinal. As tempestades de São Paulo também são.
Mais informações sobre o Dust Bowl: https://www.history.com/topics/great-depression/dust-bowl