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    Da janela do Helbor

    Alex Ribeiro: retratos de um Afeganistão muito além da fúria do Talibã

    18 de agosto de 2021Updated:18 de agosto de 2021Nenhum comentário7 Minutos de Leitura
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    Alex Ribeiro: retratos de um Afeganistão muito além da fúria do TalibãFoto: Alex Ribeiro. Adolescentes afegãs mostram o rosto ao saírem de escola em Cabul, 2002

    Em março de 2002, meses depois da queda do Talibã, o fotógrafo Alex Ribeiro conseguiu registrar a incontida alegria de crianças nas ruas empoeiradas de Cabul, em um festival de bandeirinhas com a cor de seu Afeganistão. Foi um sentimento de liberdade que se estendeu por meses. Alex viu também os olhos brilhantes de meninas nas escolas reabertas, mulheres sendo atendidas por médicos (isso tudo era proibido), certo clima de esperança.

    Vinte anos depois, o Talibã anuncia a retomada de Cabul. Um dos guias do fotógrafo nas suas viagens ao Afeganistão teve que  escapar depressa da cidade. Contou a Alex que fugiu para um país da Europa, onde já está em segurança com a família. A cena caótica no aeroporto da capital, com centenas de afegãos tentando a todo custo um lugar no avião americano lotado, correu o mundo para avisar que o medo tinha voltado, principalmente entre aqueles que trabalharam com as forças ocidentais. As promessas de “anistia”, anunciadas nesta segunda-feira, dado o histórico, não são motivo para tranquilidade. Os talibãs dizem que mudaram e que, desta vez, deixarão as meninas em paz nas escolas.

    Burca e barba

    Agora não são mais as crianças com bandeirolas a dar o ar da graça. São integrantes sisudos de um exército armado que já arregimentou cerca de 85 mil homens, segundo dados da OTAN. O todo poderoso co-fundador e líder do Talibã, mullah Abdul Ghani Baradar, acaba de chegar ao Afeganistão para formar um novo governo. No ar, portanto, as lembranças de práticas repressoras que vigoraram de 1996 a 2001, período em que o Talibã foi lei maior que o próprio Islã e sob o qual a obrigatoriedade de burca e barba eram apenas as intimidações mais visíveis. Antes deles estiveram os “russos”.

    “Sempre quis mostrar com minhas fotografias  que existe um Afeganistão que não é o Talibã, um país que existe muito antes disso tudo e apesar disso”, conta Alex sobre sua motivação como jornalista e fotógrafo que já passou por importantes redações de jornais de São Paulo (na imagem abaixo, Alex em pose para lambe-lambe em Cabul).

    Campo de refugiados

    O seu primeiro contato com o país, “onde os olhos aquosos das crianças saltam brilhantes, em contraste com os rostos empoeirados (como se houvesse uma espessa camada de maquiagem), deu-se por meio da RAWA (Associação Revolucionária das Mulheres Afegãs).

    Impressionado com o relato da crueldade e da violência com que as mulheres afegãs eram tratadas pelo Talibã, o fotógrafo queria conferir a realidade de perto. Para isso, esteve num campo de refugiados afegãos na região de Peshawar, a primeira cidade paquistanesa na fronteira com o Afeganistão. Campos de refugiados com uma aura socialista: horta comunitária, posto de saúde, padaria, oficina para confecção de tapetes e – até – escolas! Eram para esses locais, protegidos dentro de uma espécie de muralha, que quase sempre acorriam os refugiados da fúria dos talibãs. A cena voltará a se repetir?

    Cabul

    Na segunda viagem, já sem o Talibã dando as regras, Alex avançou a fronteira até a capital Cabul. No caminho, registrou o colorido da retomada das plantações de papoula (Jalalabad), estudantes voltando às aulas (Khonar), tira burca põe burca, o cenário da rota de Sar Suba Kandao, “onde refugiados disputam as trilhas com contrabandistas” e até uma visita à fábrica dos tradicionais chapéus de caracul, modelo usado com elegância pelo então primeiro presidente pós-Talibã, Hamid Karzai. Ou a parada em uma fábrica de próteses, em um dos países mais minados do mundo.

    A metralhadora

    Alex conta que não é nada fácil fotografar em um país vigiado, com gente armada até os dentes. E essa tem sido uma realidade que independe de o Talibã estar ou não no poder. Simplesmente, no Afeganistão, não se fotografa e nem mesmo se aponta uma máquina fotográfica para uma mulher, seja uma preciosa Leica ou uma Canon 5D Mark X (uma arma provavelmente sim). E Alex se arriscou muito quando decidiu mirar um grupo de mulheres lavando tapetes no rio Cabul. “No terceiro clique, uma metralhadora apareceu do meu lado”. Foi preciso muita negociação. Na verdade, diz Alex, não dá para saber de onde vem a pessoa armada, já que não há uniformes e identificação nenhuma e cada tribo tem os seus homens armados. Simplesmente aparecem. E estarão com certeza muito mais presentes a partir de agora, em todo lado, em todo canto.

    Conheça o site do fotógrafo Alex Ribeiro em http://visormagico.com.br

    P.S: Só para não esquecer: o Talibã cresceu com apoio dos Estados Unidos, na luta contra forças soviéticas de ocupação. Da derrubada do grupo em 2001, na esteira do 11 de Setembro, até poucos dias atrás, o governo norte-americano já tinha desembolsado cerca de US$ 83 bilhões para treinar e equipar as forças de segurança locais, com a mobilização de 98 mil soldados.

    Fotos de Alex Ribeiro:

    1. Camelo transporta caminhonete contrabandeada para o Pasquistão, na mesma rota usada para refugiados afegãos entrarem ilegalmente no país – Sar Suba Kandao, Afeganistão – abril de 2002.

    2. Menino refugiado afegão aguarda por comida no campo de refugiados Jalozay, a 25 Km de Peshawar, no Paquistão – março de 2002.

    3. Cavaleiros afegãos disputam uma partida de Buskashi em Herat. O jogo consiste em transportar um carneiro abatido até um circulo determinado, enquanto os outros cavaleiros tentam tomá-lo. Março de 2012.

    4. Refugiadas afegãs vestidas com burca, próximo ao campo de refugiados Khywa, a 15 Km da cidade de Peshawar, no Paquistão – fevereiro de 2001.

    5. Jardineiro do antigo Palácio Darul Aman, destruído durante a guerra civil, depois da expulsão das tropas russas, em 1992.

    6. Mulher abandonada em rua no centro de Cabul. Março 2012.

    7. Crianças refugiadas afegãs esperam em fila por água, no campo de refugiados Jalozay, a 15 Km de Peshawar, Paquistão – março de 2001.

    8. Rotina na Unversidade de Cabul, reaberta depois da queda do governo Talibã. Março 2012.

    9. O comandante Shah Zaman, 51 anos, exibe seus soldados mais novos: Ameer, 13 anos (à esq.) e Abdul, 15 anos – Assad Abbad – Khonar, Afeganistão – abril de 2002.

    10. Adolescente no transporte de tijolos em olaria nos arredores de Peshawar, na fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Março de 2012.

    11. Palácio Darul Aman, destruído durante a guerra civil, depois da expulsão das tropas russas em 1992. Março 2012.

    12. Praça dos pombos, em frente da Mesquita Azul em Mazar Sharif, norte do Afeganistão. Março de 2012.

    13. Afegão anda de bicicleta em rua deserta do bairro Bariko, hoje em ruínas, na capital Cabul – março de 2002.

    14. Rapaz afegão sentado em canhão russo, um dos muitos abandonados na estrada que liga Jalalabad a Cabul, no Afeganistão – março de 2002.

    15. Estudantes comemoram a queda do regime Talibã em Assad Abbad, na província de Khunar, nordeste do Afeganistão. Março de 2012.

    16. Adolescentes afegãs mostram seu rosto ao saírem da escola Zargona Girls High School em Cabul, Afeganistão – abril de 2002.

    17. Refugiadas afegãs caminham usando burcas pelo pátio central do campo de Khiwua, no Paquistão.Fevereiro de 2001

    18. Shaiz, 9 anos, às margens da rodovia “rota da seda” no Afeganistão –  março de 2002.

    19. Marena, 13 anos, joga “queimada” durante o intervalo das aulas, na escola para meninas do campo de refugiados Khywa, próximo a Peshawar, Paquistão – março de 2001.

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    José Guilherme Ferreira

    José Guilherme Ferreira

    Escritor, jornalista e editor, José Guilherme Rodrigues Ferreira é formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi editor-chefe do Diário do Comércio e participou de equipes nas redações da TV Globo, Agência Estado, Agência Folha, Jornal da Tarde e Globo Rural. É autor de Vinhos no Mar Azul, agraciado em 2009 com o Gourmand World Cookbook Awards, e de O Almofariz de Deméter.
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