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    Da janela do Helbor

    T. Guy: estradas e estrelas que levam ao blues

    12 de agosto de 2021Updated:12 de agosto de 2021Nenhum comentário7 Minutos de Leitura
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    Foto: Fabio Stamato / Divulgação

    Alguns posts “enxutos” no Facebook não conseguem esconder a dimensão e o andamento do projeto musical de T. Guy, o Tiago Civile, jovem de coração joseense, 27 anos, que vive hoje em New Orleans, na Louisiania (EUA). Com uma bolsa de estudos, cursa Música na Loyola University. Com talento, tem conseguido abrir espaços na cidade que “respira música” (desculpem o inevitável clichê). Eu acrescentaria que toda essa busca de inserção é feita sem alarde, com uma elegante discrição.

    Ao abraçar com intensidade o blues, o R&B, o soul, sem desprezar suas férteis vertentes, T. Guy vem amplificando a epifania musical despertada na infância, entre cenas de cinema e discos de Howlin’ Wolf e Ray Charles. New Orleans parece ser, assim, tanto um ponto de chegada como de partida para um novo ciclo.

    T. Guy resume uma das primeiras experiências na cidade, ao legendar um de seus vídeos: “fazendo um som de New Orleans em New Orleans, com amigos da Looka Here”. Na ocasião, dedilha sua Telecaster (a guitarra que levou na bagagem) ao lado de Tom Worrel (piano) e Lionel Batiste Jr. (bass drum). Não esquece, entretanto, de anotar um bastidor revelador. “Posso fazer uma música de Eddie Bo?”, pergunta a Lionel. E este responde: “Sabia que o Eddie Bo era meu amigo, né?! T. Guy pontua, com fino humor: “sem pressão!”, justamente para assinalar a consciente responsabilidade e o desafio de executar Eddie Bo em New Orleans. Afinal, Eddie Bo foi um dos grandes pianistas e cantores de blues de NOLA, com uma carreira que brilhou por décadas.

    Com os músicos do Looka Here, T. Guy dividiu no dia 6 de agosto o acolhedor (e infernal) palco vermelho do Buffa’s, localizado desde 1939 bem na “borda do Quarter”, como eles mesmos anunciam (o French Quarter é o centro histórico de New Orleans). Teve, como escreveu, de “lutar, simultaneamente, contra o andamento e o decibelímetro do outro lado da sala”. Semanas antes, tinha feito um som com os amigos do lado de fora do Maple Leaf, na Oak Street, um dos mais tradicionais e vivazes pontos de encontro de músicos de New Orleans. O respiro dos músicos “com máscaras”, entretanto, durou pouco. Tiago acaba de me informar que o Maple Leaf voltou a fechar por causa da pandemia.

    A New Orleans da música, com seu spleen atávico, foi guerreira após a passagem do furacão Katrina, em 2005 (T. Guy conta que ainda há marcas da tragédia). Os jornais da época registraram para sempre as apresentações musicais “de resistência” justamente no Maple Leaf, quando a cidade ainda chorava sobre seus escombros e seus mortos. Agora, nesses ensaios de adeus à pandemia, a natureza inquieta do lugar voltou a se revelar. E T.Guy é testemunha.

    “Santiago”

    A produção mais recente do compositor, a balada acústica “Santiago”, também tem a marca dos distanciamentos. O single, já nas plataformas de streaming, foi gravado na capital do Chile, justamente a escala necessária, de quarentena, em direção a New Orleans. Tudo gravado na raça. Tiago canta acompanhado de longe/perto pelos músicos Jaderson Cardoso (bateria), Leo Duarte (guitarra) e Luciano Leães (hammond) – guitarras captadas por Chico Blues. O clipe de “Santiago” e assinado por Leandro Cavera Barbeta e Vanessa Noerenberg, com imagens adicionais de Gustavo Bordieri.

    A largada da carreira de T. Guy foi dada em jam sessions, em bares de blues da região central de Londres, onde passou uma temporada. “A cena lá é forte.” Foi para Londres como engenheiro, voltou como músico e um trabalho que começava a ser delineado.

    Tell Uncle John, o primeiro CD, é o resultado, como diz o autor, de uma fusão de “elementos harmônicos e  rítmicos que compõem o R&B e 0 soul tradicional, com letras com características narrativas mais semelhantes às encontradas no folk e Americana”.  Tell Uncle John foi gravado em São Paulo com músicos de destaque da cena brasileira de blues e masterizado em Los Angeles pelo premiado engenheiro Robert Hadley. Um show no teatro do shopping Colinas, em São José dos Campos, em 2019, com base no Tell Uncle John, deu impulso definitivo à carreira. Um segundo disco está a caminho. Tiago diz que as músicas já estão compostas e é só entrar em estúdio e gravar, quando houver condições e recursos.

    Tell Uncle John

    Convidado a ouvir o trabalho de T. Guy, o jornalista e crítico musical Marino Maradei, que durante anos esteve à frente da Rádio Eldorado, fez inteligentes elogios ao trabalho: “A voz analasada, como a de bons blueseiros, me agrada, embala. Quando precisa aprofundar, aprofunda e toca no âmago, como [Janis] Joplin sofrida gostava de ser.” Para Maradei, Etta James certamente gostaria de gravar “Brother, Help Me”. Não é preciso dizer que todo um sentimento do blues está condensado na chave “Brother, help me to find my way back home”. O crítico disse ainda que sentiu um “estilão de [Eric] Clapton” na canção “The Valley”, com uma “guitarra solitária à vontade e dolente”. Em “No Friend of Mine”, devidamente apreciada “a economia vocal, quase um recitativo”.

    De certo modo, a sintética avaliação de Maradei reflete a sensibilidade estética de T. Guy, forjada na tradição, mas que não perde o bonde do contemporâneo. E se T. Guy construiu inicialmente um panteão com nomes como os de Sam Cooke, Blind Willie Johnson, Bill Land Ford & The landfordaires, não deixa de lembrar, por exemplo, de Doctor John, versátil artista de Nova Orleans, com sua inigualável mistura de gêneros. Um dos cantores preferidos de T. Guy? Jack Teagarden, um “trombonista lendário”. Em post no Facebook, Tiago canta “Meet me Where They Play the Blues”.

    Do trompete à guitarra

    Antes da guitarra, Tiago foi apresentado a um trompete. E isso aconteceu aos 10 anos de idade, quando a família morava na Índia. Por lá, estudou em uma escola americana, onde aprendeu o inglês impecável com o qual escreve e canta suas canções. Estudou piano por um curto período com a tia, a pianista clássica Rosana Civile, idealizadora do importante Núcleo Hespérides. Diz arrepender-se de não ter aproveitado mais as preciosas lições. Tiago conta que foi o pai quem o incentivou a passar para a guitarra, já que ele próprio (TG) gostava do rock dos anos 60. E assim se fez o guitarrista fã dos Beatles. No ano passado, no início do “fique em casa”, Tiago e Rodolfo Civile, o pai também pianista, movimentaram a vida de amigos com descontraídas lives. 

    Assim, muitas são as estradas que levam ao blues. A epifania musical citada no começo deste texto, carregada para a vida, aconteceu durante o filme Os Matadores de Velhinhas, dos irmãos Coen. Algumas cenas marcantes ao menino mostravam um coro cantando e vibrando “Shine on me”, num crescendo alucinante, velhinhas bem vestidas nos bancos da Igreja, marcando o ritmo com palmas, lequezinhos ao ar. T. Guy diz que parecia então coisa de outro mundo.

    Fizeram também a alma e a cabeça de Tiago, lá atrás, os discos de Howlin’ Wolf, da coleção dos pais Rodolfo e Natacha. Howlin’ Wolf, o homem do blues de Chicago. Howlin’ Wolf que tocava frequentemente… no Maple Leaf da Nova Orleans agora também, cada vez mais, de T. Guy.

    Confira vídeos de apresentações de T.Guy em https://t-guy.com/

    Uma entrevista no lançamento de “Tell Uncle John” para a Guitarload

    http://guitarload.com.br/2019/12/23/t-guy-tell-uncle-john/

     

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    José Guilherme Ferreira

    José Guilherme Ferreira

    Escritor, jornalista e editor, José Guilherme Rodrigues Ferreira é formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi editor-chefe do Diário do Comércio e participou de equipes nas redações da TV Globo, Agência Estado, Agência Folha, Jornal da Tarde e Globo Rural. É autor de Vinhos no Mar Azul, agraciado em 2009 com o Gourmand World Cookbook Awards, e de O Almofariz de Deméter.
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