Foto: Arquivo/SPRIO
A vacinação contra a Covid deve sim ser comemorada por cada cidadão que, nos últimos meses, já ofereceu seu braço para um profissional do SUS. É um sinal legítimo de luta pela vida, de resistência diante de alguns fracassos da sociedade brasileira, escancarados mais recentemente na CPI da Covid. Fantasias de jacaré estão liberadas: protestos contra negacionismos e inações do governo federal, como demora na compra de vacinas, podem ganhar força também com bom-humor. E quantas emoções já foram registradas nas redes sociais, servindo de apoio à imunização que salva vidas, filhos dividindo alegria com seus idosos vacinados!
Estender o braço à vacina, entretanto, não pode ser confundido com baixar a guarda para uma pandemia ainda sem controle e que não tem data para acabar, que não se resolve num passe de mágica, pandemia envolvida numa teia política que precisa ser, essa sim, desmascarada.
Números
Enquanto escrevo este texto, há o registro de que 69.652.020 brasileiros já receberam a primeira dose da vacina, o que representa 33% da população. Com duas doses, são 25.220.995 (12%). Como se vê, ainda há muito chão pela frente. E não é preciso fazer ranking comparativo nenhum. Os especialistas da área afirmam que a realidade seria outra se a vacinação tivesse começado antes. De outro lado, familiares das 511 mil vítimas da Covid não querem saber de estatísticas, que em nada consolam a sua dor. Alguns já pensam em acionar judicialmente o governo pelas perdas.
Na quarta-feira desta semana, um novo recorde no número de novos casos – 116 mil em um único dia – assustou os infectologistas. A transmissão continua a todo vapor e o país não tem conseguido baixar o patamar do número de mortes, hoje em 2.000.
“É triste falar, mas enquanto a política sanitária federal não mudar, a gente não sai da Covid”, disse o biólogo e doutor em Virologia, Átila Iamarino, em live com a historiadora Lilia Schwarcz. “Só a vacina não vai fazer isso [acabar com a Covid]”, afirmou. O especialista lembra que o fim da pandemia “não é por ano, não é por data, não vai virar com o calendário. Sem um grande esforço, não tem Carnaval no ano que vem, não tem festa junina, não tem Natal”. De novo!
Máscara e distanciamento físico
Para o especialista, “não é hora de circular livremente”, principalmente com “um governo que promove o contágio”. A cena mais perturbadora da semana, a do presidente Jair Bolsonaro retirando a máscara de crianças, é o símbolo nefasto de uma política que vai contra a ciência e o bom senso.
Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio Libanês, de São Paulo, também acredita que o uso de máscara e o distanciamento físico (que ele prefere ao termo distanciamento social) ainda são fundamentais, com eficiência hoje mais do que comprovada (no início da pandemia, havia dúvidas sobre isso). Para ele, são as barreiras não-imunológicas indispensáveis no controle da contaminação. Sem máscara e distanciamento, “dependemos totalmente da imunidade de toda a população, que não atingiremos, porque as vacinas não têm 100% de eficácia”, diz Chapchap. Segundo o médico, é possível que precisemos até de outras doses de vacina para aumentar a imunização.
Em resumo, vacinados ou não: uma resposta imunológica consistente leva tempo e não dá para abrir mão de máscara e distanciamento físico. Ele não vê problema nenhum na abertura de parques e liberação de praias, onde o contágio mostrou ser mínimo. Mas alerta para os riscos dos encontros em festas, eventos e restaurantes, onde há que se tirar a máscara para comer.
Outra questão que preocupa os especialistas são as variantes do vírus da Covid. A probabilidade do aparecimento de variantes é diretamente proporcional ao grau de replicação viral. Hoje o Brasil já é um covidário, como a Índia, garante Chapchap.
“Se houvesse um vírus estável, imutável, que teoricamente não produzisse mutações mais eficientes, um grupo de pessoas se imunizaria pela infecção natural e a vacina completaria o trabalho. Mas isso num surto pequeno. Numa pandemia, o número de vírus em replicação ao acaso tende ao infinito. Não se consegue controlar de maneira alguma de forma natural”, explicou o infectologista David Urbáez Brito, da Sociedade Brasileira de Infectologia, ao repórter Eduardo Maretti, da Rede Brasil Atual. Urbáez Brito repercutia a tese da contaminação de rebanho proposta pelo deputado Osmar Terra ao presidente Bolsonaro.
Delta plus
Nesta semana, a Índia anunciou ao mundo a variante Delta Plus, vírus “mais sofisticado” que a Delta em termos de transmissibilidade. A Delta Plus já está em nove países. A Delta, que também tem o poder de se espalhar rapidamente, já atingiu 92 países, incluindo o Brasil, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Diante do quadro nada festivo de transmissão, agravado pelas variantes, Átila Iamarino é claro: você pode estar vacinado, mas com muito vírus circulando, uma hora a vacina pode não funcionar.
