Foto: Agência Brasil/Marcelo Casal
Quando uma crise hídrica se apresenta, reacendendo o fantasma dos apagões, do racionamento de energia – e da conta de luz mais cara (que ganha corpo e definição com extrema rapidez), costuma-se jogar toda culpa nas costas de São Pedro – figura de linguagem celestial que acaba deixando nubladas as inações dos governos de plantão.
Não há dúvida de que as autoridades estão hoje agitadas diante de um problemão. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem reforçado o tamanho do quadro de escassez: trata-se da pior seca desde que os indicadores começaram a ser medidos, em 1931. O presidente Bolsonaro já disse aos seguidores que o louvam nas imediações do Planalto que a coisa “vai dar dor de cabeça”.
Com situação hídrica semelhante à enfrentada em 2001, o fantasma mais assustador é o do racionamento, que marcou o governo de Fernando Henrique Cardoso, com impactos negativos no PIB e bom peso nas eleições presidenciais de 2002.
Reservatórios baixos
Os reservatórios de hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste, que respondem por 70% da capacidade de armazenamento do País, estão muito baixos, alguns com 30% da capacidade. “Em agosto, poderão estar a 20% e em até menos de 10%, em outubro”, lembrou Adriano Pires, fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), um dos maiores especialistas em energia do País, em entrevista ao Radar Infomoney. Uma previsão que, a depender do clima, indica um prolongamento do problema em 2022. Os economistas começam a ficar preocupados, pois a falta de energia pode comprometer a tão desejada recuperação pós-pandêmica.
Relatórios de bancos e corretoras também apontam para os níveis críticos de reservatórios em Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo, retrato da estação pouco chuvosa.
Apesar desse quadro crítico, diretores da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) juram de pé junto que não há risco de racionamento ou apagões. Eles participaram de audiência pública realizada na terça-feira (15), na Comissão de Minas e Energia da Câmara e deram essa boa notícia aos parlamentares. Acreditaram?
“Tudo indica que temos o controle da situação”, disse o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, ao O Globo. O presidente do Fórum das Associações do Setor Elétrico (FASE), Mário Menel, também concorda que o suprimento este ano está sob controle, segundo relato da epbr – uma agência de informação independente na área de energia.
Os técnicos do governo, de seu lado, no curto prazo, tratam de acionar o arsenal de energia disponível: termelétricas a diesel, óleo combustível, gás natural e biomassa. A ordem é preservar ao máximo os reservatórios das hidrelétricas. As autoridades não descartam ainda uma campanha de economia voluntária no uso de eletricidade, principalmente nos horários de pico. É bom lembrar que parte dos bons resultados da gestão da crise, em 2001, se deveu à boa comunicação.
Acionar as térmicas é o mesmo que dizer gastar mais (e nem vamos falar, poluir mais). Há alguns dias, a Aneel confirmou a bandeira vermelha no patamar 2, o que equivale a um acréscimo de R$ 6,24 por 100 kWh consumidos, o mais alto do sistema tarifário.
Segundo a Aneel, a ativação de todas as termelétricas terá um custo de R$ 9 bilhões. Preparem o bolso: o valor estará palpitante nas contas de 2022. A lógica do mercado é esta: a pressão sobre os reservatórios será reduzida tendo em vista que a elevação do custo da energia, “mesmo em magnitude pequena”, poderá controlar a demanda.
2021 não é 2001
Autoridades do setor fazem questão de frisar que a situação do Brasil hoje é melhor do que a do País em 2001, quando FHC foi obrigado a decretar o racionamento.
Segundo o diretor-geral da Aneel, André Pepitone, a expansão das linhas de transmissão e uma maior variedade de fontes renováveis na matriz elétrica deixaram o País mais preparado para momentos de crise. “Mais robusto”, como assinalam alguns analistas. Leia-se, em resumo: o Brasil tem hoje mais usinas térmicas.
No entender de Adriano Pires, do CBIE, as térmicas a gás, mais baratas, deveriam ter sido ligadas antes. Com 70% delas rodando desde fevereiro, o risco de faltar energia seria zero, segundo ele.
O especialista vê problemas na maneira como o planejamento do setor elétrico tem sido feito no Brasil, tornando a matriz energética brasileira “refém do clima”, ao apostar demais em fontes renováveis intermitentes, o que tira a segurança do abastecimento quando não chove, não venta e não há sol. Ele defende como solução a implantação de mais térmicas a gás natural, para que se possa gerenciar melhor o nível dos laboratórios, enquanto se expande as matrizes eólica e solar com mais segurança.
Os planejadores, mesmo os que torcem os olhos para a ciência, também têm de levar em conta as mudanças climáticas. O coordenador-geral de Ciências da Terra do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Gilvan Sampaio, disse na audiência pública da Câmara que, a cada ano, nos últimos 20 anos, a estação seca tem começado mais cedo e se prolongado mais em todo o País. É melhor tomar as medidas antes do que correr atrás do prejuízo e ficar vendo fantasmas.