
Foto: Arquivo
As críticas de ministros e do presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) revoltaram membros da comunidade científica.
De norte a sul, o instituto foi defendido por pesquisadores, cientistas e dirigentes de entidades como a Academia Brasileira de Ciências, a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e o Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).
Por detrás das críticas de Bolsonaro e de ministros como Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Marcos Pontes (Ciência e Tecnologia), pesquisadores do Inpe perceberam a tentativa de desqualificar o trabalho do instituto na observação do desmatamento da Amazônia, com o objetivo de controlar os dados e minimizar danos à imagem brasileira no exterior.
“Ao invés de combater o desmatamento, que é a função do Ministério do Meio Ambiente, o governo quer mudar os dados”, diz o matemático Acioli Antonio de Olivo, servidor aposentado do Inpe e secretário de Comunicação e Cultura do SindCT (Sindicato Nacional dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial).
“Governo não conhece o estado que administra. O que está fazendo é só exercer o poder e falar bobagem sem nenhuma bagagem empírica”, completa Antonio Miguel Vieira Monteiro, pesquisador da área de Processamento de Imagens do Inpe e coordenador do programa Espaço e Sociedade.
Nesta entrevista, ambos analisam as críticas do governo e defendem a qualidade do trabalho feito no Inpe.
Há ameaça de censura ao trabalho do Inpe na Amazônia?
Olivo – Complexo isso. Esse ataque recente não é fato isolado. O que é novo é a citação ao diretor do Inpe. Em dezembro de 2018, Ricardo Salles foi convidado por Bolsonaro para ser ministro do Meio Ambiente. Naquele dia, deu entrevista e colocou o Inpe sob suspeita. Há várias tentativas de membros do governo de desqualificar o monitoramento do Inpe dos biomas e o trabalho de aquecimento global. Essas duas áreas são vítimas de ataque.
O que esperar da reunião de Ricardo Galvão [diretor do Inpe] com o governo?
Miguel – Ainda não está marcada e quem tem que marcar é o ministério. Estamos tranquilos e Galvão está tranquilo. Ele se posicionou da maneira como deveria. Ele vai colocar o que deve ser colocado. O ministro e o presidente não compreendem os dados. O pedido de relatório é completa idiotice, os dados são públicos. Não tem nenhuma razão para ter essa situação. Tentar colocar algum tipo de censura ao Inpe.
Vê motivo nos ataques?
Olivo – Acena com algo do tipo: ‘Se o Inpe não faz o que queremos, está manchando a imagem pública’. Como se os dados fossem isso, e não o desmatamento. A resposta do diretor do Inpe foi exemplar: ‘Presidente falou bobagem e não conhece os dados’. Temos equipes trabalhando há 40 anos nesses dados, ninguém chega à conclusão do presidente. Não tenho prova, mas criminalizar o diretor do Inpe parece-me que é tentativa de calar e substituir por alguém da confiança deles.
Bolsonaro tinha os dados?
Miguel – O governo tem acesso aos dados do Inpe cinco dias antes da publicação. É um protocolo de anos. O governo não sabe nem os protocolos de funcionamento que existem há três governos. É imbecil esse pedido. O presidente foi pego sem calça e cueca. Chamar para ver relatório é só exercitar a autoridade.
Salles quer trocar Inpe por empresa privada. Que acha?
Olivo – Ele disse que o serviço que o Inpe faz não seria qualificado. Mas na empresa que ele quer contratar, a pessoa mais qualificada fez mestrado no Inpe. E o Inpe não cobra nada pelo serviço, é missão institucional. Privatizar é para ter controle dos dados.
Comunidade científica vai reagir?
Miguel – Vamos mobilizar servidores e mandar uma carta de apoio, além de organizar um seminário científico, grande e aberto e de maneira clara para a população, convidando cientistas nacionais e internacionais. Essa desqualificação é um absurdo em qualquer lugar.