Por Luiz Antonio

Foto: Reprodução gratuita/ Gazzeta It
A última corrida da China marcou a milésima ocorrência de um Grande Premio da categoria máxima do automobilismo. Evento que realmente merece ser celebrado! Depois de passar por tantas criseseconômicas, políticas, recorrentemente ser assombrada pelo marasmo da falta de competividade, pelo fantasma do esvaziamento do grid em virtude de seus altos custos, entre outros fatores, a categoria chega a esta marca histórica ainda mostrando alguma vitalidade, mesmo que não tenha se livrado de todos os problemas citados, muito pelo contrário. Talvez a capacidade de se reinventar tanto técnica quanto esportivamente seja um dos motivos dessa grande longevidade, apesar de muitos ainda torcerem o nariz sobre a falta de emoção e a previsibilidade que muitas vezes é transmitida pela competição se comparado a outras categorias do esporte a motor, ou mesmo, outras modalidades esportivas.
Como em todas as datas festivas do tipo, retrospectivas, estatísticas e comparações são realizadas em tão saudosista com a história da competição e com o intuito de dimensionar sua importância ao longo do tempo. E foi isso que se viu na mídia especializada nas semanas que precederam o GP da China: enquetes sobre a melhor corrida da história, o melhor piloto, etc.. Quem conhece a categoria em sua complexidade sabe que comparações desse tipo são quase inviáveis de serem realizadas de forma objetiva, especialmente na Fórmula 1.
Em primeira mão, a complexidade da categoria é tão grande e mudou tanto ao longo de sua história que se torna impossível isolar determinadas variáveis para realizar comparações ao longo do tempo: seja de melhor corrida, seja de melhor piloto. Quanto ao fator corrida, por exemplo, qual seria o critério objetivo? Número de ultrapassagens? Alternância da liderança? Importância para o campeonato? Performances individuais? O que mais?
Sabe-se, por exemplo, que as ultrapassagens no que se refere a sua dificuldade mudaram muito ao longo do tempo, tanto pela evolução técnica dos carros com a descoberta da aerodinâmica, quanto pelas mudanças no regulamento técnico com pneus, DRS (asa móvel) e sistemas de recuperação de energia. Sabe-se também que as circunstancias de corrida também mudam o peso das variáveis técnicas citadas, seja por fatores meteorológicos, como chuva, ou por alternância de estratégia de corrida pelos pilotos e equipes. Enfim, é apresentada uma pequena parcela de fatores que devem ser ponderados para tais comparações serem minimamente justas.
Na medida em que se avança mais no tempo com essas comparações, a tarefa se torna ainda mais difícil e o risco de se realizar injustiças se torna cada vez maior e foi isso que se viu nos rankings realizados de melhores corridas e pilotos da Fórmula1 ao longo desses 1000 GPs. Geralmente foram eleitas as corridas e pilotos dos anos 80 até os dias atuais. Os anos 50, 60 e 70 parecem que foram esquecidos da história do esporte.
Se o GP do Brasil de 2008 foi realmente muito marcante para a categoria e especialmente para nós brasileiros, sendo um dos mais citados nos rankings promovidos, por que, por exemplo, o GP da Itália de 1965, com 40 trocas de liderança e vencido por Jackie Stewart, também não merece ser celebrado? Se Senna, Schumacher, Hamilton são recorrentemente lembrados como os melhores de todos os tempos da categoria, por que Fangio, Jim Clark, não podem entrar nessa lista?
Em virtude desta grande longevidade da categoria, poucas pessoas ainda vivas podem se dar luxo de realizar essas comparações com justiça histórica, justamente por terem acompanhado Formula 1 em toda sua extensão. Me lembrodo jornalista Claudio Carsugui, grande admirador de Senna, dizer taxativamente que considerava Fangio o melhor da categoria. Ele, de fato, acompanhou a categoria desde seus primórdios até os dias atuais, e, por isso, tem muito mais credibilidade para realizar tal tipo de juízo de valor.
É certo, que ninguém em suas análises, incluindo aquele que aqui escreve, é capaz de realizar uma análise estritamente objetiva, especialmente num esporte que desperta tantas paixões como a Formula 1. A subjetividade faz parte de jogo, e não pode ser eliminada, nem quando consideramos todas as variáveis técnicas do tão complexo circo da Formula 1.
Todavia, especialmente para os entusiastas, vale a pena uma pesquisa mais longeva sobre a história da categoria, tanto para entender as disputas que moldaram os seus anos iniciais quanto os bastidores de cada época. Talvez, realmente sejamos menos injustos com os heróis do passado que foram tanto importantes quantos atuais para se chegar a marca de 1000 GPs.