
Durante muito tempo ouvi “Cheiro de Amor” como se a canção tivesse nascido exatamente onde a encontrei, na voz de Maria Bethânia, sem imaginar que, antes daquele canto, existira uma história muito menos solene e talvez por isso mesmo muito mais saborosa, dessas que a música popular brasileira coleciona sem fazer esforço, porque ninguém se sentou diante de uma mesa decidido a produzir uma canção destinada a atravessar gerações, e tudo começou simplesmente com um motel de Salvador precisando anunciar o Dia dos Namorados.
O motel chamava-se Le Royale, Duda Mendonça estava envolvido na criação da campanha e o que se queria era apenas um jingle, alguns segundos capazes de despertar no ouvinte a vontade de conhecer o lugar, nada que exigisse posteridade, crítica musical ou lugar na história da MPB, somente uma boa peça de propaganda que cumprisse sua temporada no rádio antes de desaparecer, como desaparecem anúncios, slogans e quase tudo aquilo que nasce comprometido com uma data.
Aconteceu, porém, uma dessas coincidências das quais dependem tantas histórias que depois parecem inevitáveis, quando Maria Bethânia entrou num táxi em Salvador, ouviu o jingle no rádio, interessou-se imediatamente pelo que estava tocando, perguntou a respeito e recebeu a informação de que se tratava da propaganda de um motel, detalhe incapaz de afastá-la daquela melodia, porque Bethânia percebeu ali o que talvez nem os próprios envolvidos percebessem por inteiro: uma canção esperando para deixar de ser anúncio.
Sempre que penso nessa passagem, imagino quantas músicas desapareceram porque a pessoa certa não estava ouvindo no momento certo, quantos livros deixaram de ser escritos porque determinada conversa não aconteceu, quantos encontros dependeram de alguém perder um ônibus, entrar numa rua diferente ou demorar alguns minutos diante de uma vitrine, e naquele dia bastaram um táxi, um rádio ligado e o ouvido de Bethânia para que uma propaganda destinada a vender algumas horas começasse uma viagem de quase meio século.
O jingle precisava crescer, porque alguns segundos podiam resolver a vida do Le Royale, mas não sustentariam uma faixa de disco, e nesse processo a composição ganhou corpo até chegar à forma assinada por Duda Mendonça, Jota Moraes, Paulo Sérgio Valle e José Francisco Ribeiro, tornando-se finalmente a música que Bethânia gravaria em Mel, em 1979, num repertório em que o desejo podia entrar pela porta da frente sem precisar disfarçar-se de amor casto para merecer respeito.
E é justamente aí que essa história se aproxima um pouco mais de nós, porque “Cheiro de Amor” traz em seu DNA Jota Moraes, João do Amor Divino Moraes Pontes, nascido em Caçapava, músico que fez do piano, dos teclados e do vibrafone uma longa passagem pela melhor música brasileira, trabalhando com Gonzaguinha, Elis Regina, Gal Costa, Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan e tantos outros, e, para quem vive no Vale do Paraíba, é impossível encontrar seu nome entre os autores sem sentir aquele prazer particular de reconhecer, numa canção que pertence ao país inteiro, a presença de alguém saído da nossa própria geografia.
Conheço Jota, e por isso essa informação nunca me pareceu uma curiosidade destinada a preencher rodapé, muito menos uma tentativa de puxar para o Vale uma obra que não precisa de fronteiras, mas uma dessas coincidências afetivas que tornam uma história ainda melhor, pois, entre Salvador, o Le Royale, Duda Mendonça, o táxi de Bethânia e o disco que viria depois, estava também um músico de Caçapava ajudando uma pequena peça publicitária a encontrar o tamanho que ainda não possuía.
Quando ouvi a gravação pela primeira vez, naturalmente não sabia de nada disso, porque naquela época eu não precisava conhecer a engenharia de uma música para ser atingido por ela, e lembro muito mais da impressão provocada pela voz de Bethânia do que de qualquer verso isolado, daquela maneira de aproximar desejo e memória até que já não fosse possível saber onde terminava um e começava a outra, como se amar alguém significasse também começar, naquele mesmo instante, a preparar a lembrança que um dia teríamos daquela pessoa.
Depois, a vida se encarregou de me ensinar o restante, colocando pessoas onde antes havia apenas música, retirando algumas, deixando outras, transformando certezas em episódios e episódios em lembranças, enquanto “Cheiro de Amor” permanecia disponível para ser ouvida novamente, sempre igual na gravação e sempre diferente em mim, porque uma canção antiga possui essa vantagem quase cruel sobre nós, podendo permanecer jovem enquanto somos obrigados a comparecer a cada reencontro carregando tudo o que nos aconteceu desde a última vez.
Talvez seja por isso que sua origem num motel me pareça hoje tão perfeita, porque o Le Royale vendia justamente aquilo que ninguém consegue conservar, algumas horas retiradas da vida comum, uma porta fechada, duas pessoas acreditando por algum tempo que o mundo podia esperar do lado de fora, enquanto a música criada para levá-las até ali fez o percurso contrário, escapou daquele quarto imaginário, atravessou Salvador, entrou por acaso num táxi, encontrou Maria Bethânia e continuou viajando muito depois de terminada a campanha, até chegar a nós como chegam certas canções cuja origem quase ninguém conhece, mas que acabam guardando, sem saber, o cheiro das pessoas que fomos.