
Diante de uma rotina esmagadora, o contato com a argila, água e pincéis pode se tornar uma forma de tirar a pressão do tempo. A cerâmica é uma arte que exige paciência e cuidado, e cada etapa tem um ritmo próprio. Em uma vida que tudo acontece cada vez mais rápido, aprender a esperar fundamenta a experiência.
Ao frequentar pela primeira vez uma aula de cerâmica, a ideia de sair com a peça pronta desaparece assim que se descobre essa cadeia de longos processos, que começam com uma bolinha de 500g de argila, moldada com tapas delicados, furada com o polegar e aberta com dedos de pinça.
Parece jogo rápido, mas a partir daí a produção se estende. Depois de abrir a massa com cuidado suficiente, você precisa alisar cada pequena rachadura que surge. Esse pentear da argila, como os ceramistas chamam, exige calma e paciência. É preciso apoiar o dedo de um lado da peça e alisar a superfície na mesma direção até eliminar as imperfeições.
As peças costumam levar cerca de um mês para ficarem prontas. Portanto, para que um vasinho de plantas ou caneca vá do barro à sua nova função é preciso serenidade, já que na vida real não há a opção de colocar na velocidade 2x, como fazemos com áudios de WhatsApp.

A administradora Catarina de Pádua (49) é aluna de cerâmica há três anos. Nesse tempo, adquiriu não apenas a virtude da paciência como passou a enxergar beleza na imperfeição. “A cerâmica tem um negócio que nunca uma peça vai ser igual a outra, né? E eu acho isso bonito”, diz.
Ela entendeu que suas mãos podem não levar às referências que vemos no Pinterest, e que esse caminho desvirtuado pode trazer resultados mais interessantes. “Não adianta a pessoa falar que quer um potinho redondinho, amarelo, com a borda rosa. Às vezes não vai sair desse jeitinho”.

Ela fez sua primeira aula durante a pandemia e considera a prática uma forma de terapia. “Acho que todo mundo devia ter algum tipo de hobby assim, porque nesse mundo loucão, uma coisa que a cerâmica ensina demais é que você tem que esperar o tempo certo das coisas”, reflete.
Atualmente, Catarina tem aulas no recém-inaugurado ateliê “Oi, Potinhos”, na avenida Adhemar de Barros. O espaço é fruto da união entre Walquiria Santos, arquiteta, professora de cerâmica há quatro anos, e Debora Saito, designer que frequentava as aulas de Walquiria em um antigo ateliê.

Ansiedade queimada a 890°C
A atividade que antes poderia ser superficialmente tratada como luxo, diz Walquiria, hoje é estabelecida como um momento para esvaziar a cabeça, especialmente para as mulheres.
“É uma maneira de sair daquela realidade pesada que a gente tem no dia a dia, não só de trabalho, mas também de decisão dentro de casa, de filho, de marido, de tudo isso que carregamos nas costas”, afirma.
As aulas duram duas horas, mas a peça modelada nesse período leva, em média, uma semana para atingir o ponto ideal para receber adereços, como uma alça. Depois disso, a argila deve secar naturalmente antes de ir ao forno para uma primeira queima, a 890 °C, por oito horas.
É necessário metade de um dia para que a peça resfrie completamente. Só depois disso que entram os acabamentos com cores, antes da segunda e última queima, a mais de 1.200 °C.
Debora conta que o ateliê tem sido procurado por quem busca conviver melhor com a ansiedade. A maior parte das alunas já chega destacando: “Eu sou muito ansiosa”, ela revela, “Muita gente pergunta se já vai sair com a peça pronta”, diz a designer, que descobriu a cerâmica há dez anos, durante um intercâmbio.
A prática também costuma ser uma maneira das mães tirarem os filhos da tela “a gente vê que muitas crianças só ficam no celular, então a gente tem bastante procura de pais para trazer as crianças pra fazer alguma coisa fora do celular, sabe?”, disse a empresária.
A fuga do mundo virtual foi o que motivou Monalisa Cardoso (30), profissional de marketing, que faz aulas junto com a irmã, Natália Cardoso (28), estudante de ciências de dados. Além de passar tempo juntas, com a cerâmica elas podem distrair a cabeça.
“Eu sou uma pessoa muito ansiosa, eu fico muito tempo no celular, uma coisa que acaba tomando muito nosso tempo, às vezes a gente precisa de alguma coisa que seja mais tranquila, que faça a gente parar um pouquinho”, disse Monalisa.

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