
Duas guerras mundiais, duas pandemias, as duas maiores crises financeiras da história e todas as Copas do Mundo. Foi por tudo isso e mais um pouco que a banca Cerealista Dona Linda, do Mercadão de São José dos Campos, resistiu. Hoje, a banca existe para manter a tradição do comércio.
A história da banca começa antes mesmo de existir um Mercadão em São José dos Campos. A primeira geração a vender ali foi o bisavô de Luana Aparecida Machado de Oliveira, de 37 anos, Evaristo. Ele produzia, junto com sua família, toda uma linha de produtos à base de milho e, aos finais de semana, ia até a feira livre no centro, onde hoje é o mercado municipal, para comercializar. O ano era 1916.
Com o passar das décadas, a produção artesanal de farinha de milho se manteve como marca registrada deles. Hoje, no entanto, a Cerealista Dona Linda não produz mais o próprio produto: Há mais de 30 anos são outros grupos familiares parceiros que fornecem a farinha vendida na banca. A Banca Cerealista tornou-se revendedora, mas manteve o compromisso com o artesanal.
O maior desafio para manter essa tradição viva, segundo Luana, está justamente na escassez de produtores artesanais. Para ela, antigamente era comum encontrar muitos produtores de farinha, mas ao passar dos anos, esses comerciantes foram falecendo ou se aposentando, e nem todas as famílias deram sequência à tradição, tornando escassas as fontes de produtores e dificultando preservar a comercialização de produtos artesanais.

O que a familia viu ao longo dos 100 anos
Quem toca o negócio hoje é Luana, formada em administração de empresas, que trabalha na banca há quase 15 anos. Antes de assumir a gestão, ela chegou a cogitar seguir carreira na gastronomia, área em que iniciou os estudos. Mas o contato direto com o público e o ambiente do próprio Mercadão pesaram na decisão.
“Eu gostava do atendimento ao público, que o ar do mercado municipal é algo que ia de encontro com o que eu acreditava. O aspecto de feira, de você conhecer os vizinhos, da interação com o cliente é algo que eu gostava, que eu tinha familiaridade“, conta Luana.
Luana conta que o consumo mudou ao longo do tempo. Antigamente, sem supermercados, o comércio funcionava mais no estilo de feira livre, e as pessoas compravam quantidades maiores para suprir a demanda mensal da casa. Hoje, ela explica, elas levam só o suficiente para preparar uma receita.






Nostalgia que atravessa gerações
A banca também guarda histórias de clientes fiéis. A maior parte dos clientes do mercado municipal são idosos, alguns deles consumidores desde a época em que a mãe de Luana, Dirce de Araújo Machado Oliveira começou a trabalhar na venda de cereais.
Esses clientes acabam repassando o hábito para seus parentes: pedem que os mais jovens passem na banca sempre que estiverem no centro da cidade, buscando ingredientes para receitas específicas.
“Infelizmente, com a partida desses clientes, a família acaba pegando essa memória afetiva. ‘Para reproduzir o prato que a avó fazia precisa ser tal farinha’”, relata Luana.
Para ela, esse vínculo vai muito além do produto em si. “Então tem todo esse vínculo afetivo, não é só apenas a farinha em si, é algo que o supermercado acaba não proporcionando.”
Depois de mais de um século de história, o comércio da família passou a representar algo além do sustento financeiro, uma batalha pessoal para preservar uma tradição.
“A gente luta para tentar preservar a tradição, o rústico, o artesanal, o diferenciado, para não nos tornarmos um simples armazém com produtos industrializados.“
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