
As eleições não tiveram o clima bélico das anteriores, mas a polarização se repetiu, consolidando uma guinada à direita na política brasileira. A disputa central foi entre uma narrativa de futuro e uma narrativa de realizações passadas.
Muitos já observaram que o antipetismo é o maior movimento político do país. Uma das novidades das eleições deste ano foi a junção de antipetismo e de indignação com as instituições (leia-se Supremo).
Neste caso, muitos votos contra Lula e contra os políticos identificados como governistas foram a resposta de um eleitor furioso com a balbúrdia institucional instalada no STF.
Mas 2026 pode representar também o fim de um grande ciclo político no Brasil. É a última eleição de Lula, e o lulismo não apresenta nenhum sinal de renovação.
Isso significa que a direita vai governar o Brasil eternamente? Pouco provável.
O voto é produto de uma interpretação momentânea da realidade, e essa realidade, em 2026, favorece a direita. E por quê?
Aqui é preciso ir além do antipetismo.
A direita aprendeu a falar sobre futuro com o eleitor brasileiro, especialmente os mais jovens, enquanto o lulismo se apega aos feitos do passado.
Gosto de exemplificar isso citando o ministro do Trabalho, Luiz Marinho. Um homem do século 20, que enxerga o mundo do trabalho sob o prisma de um sindicato do ABC. Um sujeito que passou quatro anos do atual mandato de Lula sem conseguir se conectar com o novo mundo do trabalho, que é dominado por autônomos, motoboys, microempreendedores, prestadores de serviço.
É gente sem carteira assinada, e alguns que nunca cogitaram em tê-la. Seja porque o mercado de trabalho formal encolheu, seja porque acredita que é melhor “viver sem patrão fixo”.
Que futuro o lulismo oferece para essa parcela gigantesca da população brasileira? O mundo do século 20 (reindustrialização, desenvolvimentismo, Estado indutor da economia).
O que a direita faz, neste contexto? Apresenta o eleitor como protagonista de seu próprio futuro e associa essa promessa à redução dos obstáculos impostos pelo Estado. A promessa é que o Estado não vai atrapalhar ninguém e vai preservar a liberdade de todos (inclusive a religiosa). É genérico e vazio? Pode ser. Mas são mensagens que alimentam a esperança de dias melhores.
O mapa dos votos é taxativo: o eleitor conservador não mora apenas no Centro-Oeste e cria bois. Ele está espalhado pelo país, e sempre existiu. Faltava quem (ou um movimento) que lhe desse voz.
Este cenário está dado.
O desafio da esquerda e do centro será construir uma ideia de futuro que combine autonomia, proteção e oportunidades — e que faça sentido na experiência cotidiana de quem trabalha e vive fora das referências tradicionais da linguagem política.