
O fechamento das urnas no primeiro turno presidencial tende a levar a análise para uma aritmética que aponta a resolução do pleito. Como Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47% dos votos válidos, contra 45% do presidente Lula, e quem votou nos eliminados pende, em sua maioria, para a direita, o raciocínio parece lógico. E, para ajudar, a história ainda reforça a aposta: desde 1989, quem liderou a primeira rodada venceu a segunda. A conta tem lógica, mas só enxerga o eleitor que decidiu escolher um candidato.
Fora dessa matemática estão mais de 39 milhões de eleitores: 33,4 milhões que não compareceram e quase 6 milhões que votaram em branco ou anularam. Trata-se de um quarto do eleitorado. A vantagem de Flávio, de cerca de 2,2 milhões de votos, é a menor de um primeiro colocado no período e cabe quase 18 vezes nesse contingente. Basta que uma pequena fração deste montante se mova para alterar o resultado.
Esse universo não é novo nem estático. Nas três últimas eleições presidenciais, oscilou entre 24% e 27% do eleitorado. Entre os turnos de 2022, seu tamanho quase não mudou, mas a abstenção caiu 570 mil enquanto os nulos subiram 440 mil. A estabilidade era do agregado, não dos indivíduos.
A Ciência Política oferece uma chave para ajudar neste entendimento: o cálculo do voto, formulado por Anthony Downs. O eleitor pesa a distância que enxerga entre os candidatos, a chance de seu voto influir no resultado, o custo de comparecer, o senso de dever cívico e o anseio por mudança ou continuidade. Quem não vê diferença relevante tende a ficar em casa ou a anular.
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O segundo turno reescreve cada termo dessa equação. Para o eleitor dos eliminados, a distância entre os finalistas pode sumir ou se agigantar pela rejeição a um deles. Numa disputa apertada, cresce a sensação de que cada voto decide. Quem votou no dia 4 pode desistir no dia 25; quem desistiu, agora pode voltar.
Por isso, nas semanas que restam, mobilizar pesará tanto quanto convencer. O saldo entre os eleitores que cada lado conseguir trazer e os que deixar escapar pode produzir a virada de Lula ou ampliar a margem de Flávio. A campanha que mirar apenas os votos válidos disputará três quartos do eleitorado e abrirá mão justamente do quarto que pode decidir a eleição.
Sobre o autor
Fernando Ivo Antunes é Cientista Político, MBA em Marketing Político e pós-graduado em Teoria Social e Filosofia Política. Membro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e do Clube Associativo do Marketing Político (CAMP)