
Você já teve seus dois minutos de ódio hoje? Quem é seu Grande irmão? Quantas vezes você se viu abrindo um perfil especificamente pra alimentar seu ódio? Sendo de um influencer, um grupo político, uma pessoa com um estilo de vida duvidoso ou algo que lhe fizesse franzir o cenho? Ou melhor, quantas vezes você se viu comentando em um post que te incomodou? O ódio alimenta as massas, e as massas elegem candidatos que replicam a fórmula do ódio.
Na obra de ficção distópica — que hoje em dia talvez seja mais utópica do que nosso país atual — 1984, de George Orwell, escrita em 1948, o autor imagina um Estado totalitário em que o governo controla não apenas as ações, mas também a informação e, principalmente, o pensamento da população.
É nesse mundo que existe o “Big Brother”, ou em português, Grande Irmão, figura máxima do Partido, que tudo vê e tudo controla. A população é constantemente observada pelas teletelas, aparelhos instalados nas casas e espaços públicos que transmitiam propaganda do governo e, ao mesmo tempo, funcionavam como instrumentos de vigilância. Uma espécie de televisão que também olha de volta para você.
Entre os mecanismos de controle está o Dois Minutos de Ódio, momento diário em que os cidadãos são obrigados a se reunir diante das teletelas para assistir a imagens de Emmanuel Goldstein, apresentado pelo Partido como o inimigo número um do Estado e grande traidor da nação. As imagens são acompanhadas por acusações, cenas de violência e conspirações, construídas para provocar raiva e indignação.
O objetivo é canalizar a frustração, a energia e a raiva da população para um inimigo individual, enquanto o ódio ao adversário é transformado em adoração ao Grande Irmão e ao Partido.
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Quem é o seu Grande Irmão?
Ao sair da ficção e olhar a nossa realidade, cada pessoa anda com sua própria teletela na mão, consumindo seu próprio Grande Irmão, que pode não mandar na nação inteira, mas tem poder sob seu grupo de eleitores.
E isso não para na obviedade dos presidenciáveis. Até mesmo candidatos a deputados abordam muito mais o que NÃO VÃO FAZER ou o que são contra, do que aquilo que de fato são favoráveis ou querem elaborar. E isso engaja!
O que mais engaja nas redes? Um candidato preparado, com formação, estudos, plano de governo embasado em resultados, ou um candidato que tem uma obsessão freudiana (talvez um fetiche disfarçado) em um grupo que se diz contrário?
Veja o eleitor médio: nossa pátria se vê resumida a uma incessante luta entre Bolsonaro e Lula há três eleições. E parte dos apoiadores de cada grupo vota em um ou outro não porque seu candidato tenha propostas que necessariamente agradam ao eleitor, e sim porque ele odeia mais o lado oposto.
É o nosso próprio Dois Minutos de Ódio, só que agora não precisamos esperar pelo horário determinado pelo Partido. O algoritmo pode nos entregar o inimigo a qualquer hora. E nós, voluntariamente, podemos abrir a teletela, assistir, comentar, compartilhar e pedir mais.
Em terra de cego, quem tem um olho é rei, é o que diz o ditado. Porém, no Brasil de 2026, quem tem olho é tratado como déspota.
Se queremos quebrar a fórmula do ódio, da qual as redes sociais lucram, devemos engajar no que amamos, apoiamos ou respeitamos.
Em vez de perder tempo e privilegiar a razão de seu ódio com engajamento, engaje no que te faz feliz, no que te aquece o coração, e não no que aumenta sua frequência cardíaca.
E o mais importante: seja seu próprio Big Brother! Se liberte dos grilhões de ser fanático daqueles que deveriam trabalhar pelo povo.