
Um dos hábitos que adquiri como jornalista foi conversar…
No uber, na padaria, na roda do cafezinho, na fila do barbeiro, na banca de jornais (sim, elas ainda existem e, acreditem, até vendem jornais; poucos, raros, mas vendem), na roda de amigos, no whatsapp, sempre dá para trocar um dedo de prosa.
O bate-papo serve para muita coisa, mas, com certeza, ajuda a medir a “temperatura” do dia, sobre o que as pessoas estão falando, com o que estão preocupadas, que temas estão na boca e, principalmente, na cabeça do povo. E um tema, em especial, tem chamado a minha atenção nos últimos dias: a quantidade de gente (muita gente mesmo) que diz que não vai votar nas eleições deste ano.
As razões são várias…
Descrédito com a política, cansaço com a polarização que domina o cenário há mais de uma década, a crença de que um voto não muda nada entre milhões e milhões de votos, a aversão aos escândalos que dominam o noticiário 24 horas por dia, o excesso de candidatos e de números para decorar na hora de votar e muito, muito mais.
Motivos, de fato, não faltam. E nem a multa por deixar de votar assusta. Pudera, ela é de R$ 3,51. Imagine, R$ 3,51. Ridícula. Justificar? Dá para fazer pelo celular. E, olha, nem isso. Um motorista de aplicativo me contou outro dia que não vota e nem justifica há mais de 10 anos. “Dá trabalho”, disse.
Pois é…
Esse cenário acima é a cristalização de uma previsão bastante sombria para as eleições de 2026: elas devem cravar um novo recorde de eleitores faltosos. É triste.
Entre 2006 a 2022, houve um aumento de 21 milhões para 33 milhões de eleitores faltosos, gente que, simplesmente, não foi às urnas. As eleições gerais de 2022 bateram recorde de abstenções — 20,95% do eleitorado não votou, um aumento de 2 milhões de pessoas sobre 2018. Em 2026, 158,7 milhões de eleitores estão aptos a votar em todo o país, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Se o eleitor mantiver a curva crescente de abstenções dos últimos pleitos, o Brasil pode bater um novo recorde este ano, com a marca de 35 milhões de ausentes. Isto é, 22,0% dos eleitores brasileiros vão fazer outra coisa no dia 4 de outubro, menos votar. Ou seja, mais de um em cada cinco eleitores pode deixar de comparecer às urnas.
É gente pra caramba, votos que poderiam, com certeza, decidir a eleição.
Esse índice está bem acima da abstenção de 1989, na primeira eleição direta para presidente da República após o ciclo cinzento da ditadura militar. Naquele ano, o índice de abstenção ficou na faixa de 11,9% e o brasileiro vivia anos de esperança.
Em 2026, com a esperança em viés de baixa, o índice tende a dobrar. Pior: alguns analistas (mais pessimistas; ou realistas?) acreditam que a o patamar de abstenções pode chegar a 25%. Isso sem falar dos votos brancos e nulos, que também devem registrar aumento nas eleições deste ano. Somando tudo, é muito voto perdido. É como se uma parte do país desse as costas para o Brasil e afirmasse: isso não é mais comigo. Triste, muito triste.
Segue o baile…
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