
Talvez pelos mesmos criadores do já esquecido “morango do amor”, instagramável, coberto por camadas de brigadeiro e caramelo vermelho, eis que nas últimas semanas, entre um reels e outro, é imposta pelo algoritmo a nova tendência gastronômica que também muito em breve deverá ser esquecida, o “morango cravejado”.
Desta vez, não apenas o morango mas também o caramelo foi reciclado. Ao invés da casquinha brilhante de maçã do amor, o morango agora recebe na finalização um banho de chocolate branco derretido com caquinhos de caramelo vermelho sangue, que alguns minutos depois endurecem formando essa preciosa joia culinária.
A verdade é que nem mesmo o repeteco de ingredientes batidos, num formato recém-explorado, foram suficientes para frear o sistema faminto por trás das redes sociais.. É um exemplo muito claro do que podemos chamar de receita de TikTok, dessas feitas mesmo para comer com os olhos pelas telas brilhantes dos nossos celulares.
É fácil gostar de morango com caramelo, pistache, leite Ninho com Nutella. A questão é o quanto eles têm aparecido pra gente, tornaram-se ingredientes hegemônicos. Eles não precisam se reinventar a cada mês nos mesmos bombons e sobremesas lambuzadas, e seria mais interessante a todos se não ditassem o cardápio da maioria das docerias — há registros de sorveterias e até pastelarias anunciando seus produtos cravejados.
Não se pode culpar os confeiteiros por aderirem à moda, especialmente os pequenos, com as mãos atadas à massa, pois vivem de se tornar influencers de si mesmos, como fazem também dentistas, corretores, fotógrafos, tantas outras profissões nesse mundo em que prospera quem se expuser nas vitrines digitais, diante do ácido tribunal de arrobas. No fim do mês, o que importa é o morango cravejado colocar comida na mesa de quem o vende. E se também forem decisivas assim, que sejam bem-vindas suas futuras variantes.
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“É um meio muito difícil de trabalho, então toda tendência que gera algo positivo para nossa classe eu acho válida”, disse Julia Barreto, mãos e mente por trás dos cardápios sempre frescos de ideias da confeitaria Perdita, em São José dos Campos, que dificilmente acompanha essas trends relâmpago.
Ela prefere uma filosofia que prioriza constância, o tempo dos ingredientes e a sazonalidade, “mais do que o que está no TikTok”, conta. Aos poucos, ela tem usado cardápios mensais, seus “espaços livres de criação”, para sentir a temperatura do público e levar o cardápio fixo da loja à algo que absorva mais de sua personalidade.
O novo cold brew com xarope de tangerina, xodó absoluto de Julia, de tanto que foi piada entre os amigos cavou seu merecido lugar. “Eu tava percebendo que a bebida que eu bebia todos os dias não tava no cardápio. Isso é um absurdo”, brincou pelo Instagram, no vídeo em que abre o coração para revelar o passo a passo de seu café secreto.
Mas há quanto tempo estamos desbravando somente as receitas que vemos deslizando o feed? E por que seguimos nos colocando no estreito caminho delas, quando temos um universo tão vasto quanto o paladar? Na Abientô, também em São José, Gabriel Bittencourt aproveita as tendências para pescar clientes e apresentá-los ao seu mundo particular de chocolates artísticos.
”É sempre bom utilizar desse hype para engajar seu propósito”, defende o confeiteiro, que assina obras de arte em bombons. Nos seus chocolates, podemos encontrar a beleza do cosmos, sua paixão por Katy Perry, sabores brasileiros como cupuaçu e caipirinha, derreter de amores por vaquinhas e porquinhos fofos. Em datas comemorativas, como Páscoa e Natal, as Copas do Mundo de todo confeiteiro, ele entra em campo sempre armado de invenções.




Formamos uma sociedade com medo de seguir seus instintos, recheada de indivíduos que compram a segura ideia de replicar uns aos outros, passando a viver a vida do personagem que criaram na rede social, muito parecida com as vidas de vários personagens virtuais que encontramos sendo interpretados nas ruas.
Quando levamos toda a concorrência a fazer igual neste ciclo enganoso provocado pelas redes, perdemos não apenas a variedade, mas oportunidades de conhecer as fantásticas criações de cozinheiros que poderiam se sentir assim, mais artistas do que máquinas, verdadeiros donos das próprias ideias e cardápios.
Somos todos vítimas do comodismo coletivo. Experimentar é sempre mais ameaçador, em qualquer circunstância, mas há custo-benefício melhor do que experimentar e então viver uma grande descoberta? Apenas uma garfada lhe separa da magia que há no desconhecido.
Do outro lado da moeda, está a oportunidade de provar um delicioso sabor inédito, sensação que pode ditar o rumo de uma vida. Um pedaço daquilo que você acaba de descobrir que poderia degustar por horas, e que perdeu tempo não experimentando anos antes. Vai enriquecer seu repertório e alimentar barriga e alma na mesma proporção. E depois você, de volta ao mundo real, passará a indicar a descoberta para gente que realmente aprecia, no velho boca a boca, sem jamais saber quantos likes esse novo ingrediente da vida ou prato favorito renderia no Instagram.
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