
Toquinho chega aos 80 anos com a vantagem de nunca ter parecido candidato a monumento. Monumento junta pombo, poeira e, na inauguração, discurso comprido. Toquinho sempre preferiu coisa melhor: um violão afinado, uma cadeira, dois ou três parceiros, a música saindo sem pedir licença e o público percebendo, tarde demais, que aquela melodia já virou parte da mobília da casa.
Nasceu Antonio Pecci Filho, no Bom Retiro, em São Paulo, filho de família italiana, e ganhou da mãe o apelido que poderia ter morrido no almoço de domingo, entre macarronada, bronca e café passado na hora. Não morreu. Foi parar nos discos, nos cartazes, nos programas de televisão e nas escolas, onde crianças que nunca ouviram falar em Vinicius, bossa nova ou Paulinho Nogueira sabem cantar “Aquarela” com a seriedade de quem está explicando o mundo.
Aos 20 anos, já gravava. Antes disso, estudava. Essa parte costuma ser esquecida porque o Brasil gosta de acreditar que talento nasce pronto, penteado e iluminado. Não nasce. Toquinho aprendeu violão com paciência, ouvido e disciplina, três palavras pouco fotogênicas, mas indispensáveis para quem deseja durar mais que uma temporada. O milagre, nele, foi esconder o trabalho atrás da leveza. O sujeito toca difícil parecendo fácil, e essa é uma forma de crueldade com os violonistas comuns.
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Depois apareceu Vinicius de Moraes, que para qualquer jovem músico poderia ser uma bênção, um problema ou uma ressaca internacional. Para Toquinho, foi tudo isso, mais uma universidade. Com Vinicius, fez canções, discos, viagens, palcos, noitadas e uma coleção de músicas que continuam melhores do que muitos discursos sobre o Brasil. “Tarde em Itapuã” não precisa explicar nada: basta começar e já se vê o mar, a preguiça, o copo, a conversa e aquele Brasil que talvez nunca tenha existido direito, mas que a música inventou com tanta competência que passamos a sentir saudade dele.
Toquinho teve também a ousadia de escrever para crianças sem fazer voz de criança, sem botar chapéu colorido na poesia, sem transformar infância em recreio obrigatório. “O Caderno” é quase uma confissão disfarçada de material escolar. “Aquarela” começa humilde, com um sol amarelo, e dali a pouco já colocou meio planeta dentro da canção. Pouca gente percebe que música infantil boa não é a que simplifica o mundo, mas a que devolve ao adulto a vergonha de ter complicado tudo.
A frase dele, “a fama nunca foi um projeto”, presta um grande serviço nestes tempos em que a fama virou profissão antes mesmo de existir obra. Toquinho fez o caminho antigo, hoje quase suspeito: estudou, tocou, compôs, acompanhou, ouviu, errou, acertou, encontrou parceiros e só então ficou famoso. A fama veio depois, com a educação de quem chega atrasada e não faz barulho na sala.
Aos 80 anos, ele continua com cara de quem ainda pergunta ao violão o que pode sair dali. Talvez seja esse o segredo. Toquinho nunca tratou a música como troféu, carreira ou biografia oficial. Tratou como companhia. E companhia boa é assim: não precisa anunciar entrada, não exige explicação, não envelhece no calendário dos outros. Fica.
No caso dele, fica desde o primeiro acorde.