
A boa filha à casa torna… Boa? Bem, pelo sim, pelo não, brincadeiras à parte, a jornalista e escritora Vanessa Alves lança neste sábado (23), em São José dos Campos, seu primeiro romance, “Anônima” (Editora Telha), com direito a bate-papo com ela e com o escritor George Furlan. Marque na agenda: 18h no Momentum Lounge Café, no Jardim Augusta.
Anônima é uma obra vertiginosa, que mescla prosa e poesia para dar voz a uma mulher, anônima, que vive permanentemente entre delírio e lucidez, prazer e autodestruição, escrevendo, sem parar, cartas para seu amante — que nunca responde, nunca aparece, mas que domina quase todos os seus pensamentos. Eu li e gostei.
Vanessa gosta de citar óperas nas suas postagens nas redes sociais, mas não se engane: Anônima é puro rock ‘n’ roll, com direito a sexo, drogas e muita adrenalina. Após um percurso marcado por narrativas poéticas e eróticas em “Peguei meu coração e comi” (2019), Vanessa estreia em uma nova fase, aos 34 anos, com um romance corajoso, despudorado, quase sempre incômodo, dilacerante.
Bati um papo com ela pelo Zap. Segue abaixo:
— Ansiosa por lançar o livro na sua terra?
“Muito. Como dizia a Hilda Hilst, quando publicou o “O Caderno Rosa de Lori Lamby”, seu livro polêmico, agora eu levantei a saia e pretendo permanecer com ela levantada.”
— Anônima é seu primeiro romance. Como foi seu processo criativo e como você definiu a estrutura do livro, construído como um diário da protagonista, cartas para um amante que não aparece, não responde?
“É meu primeiro romance e o processo de escrita aconteceu durante as violências que sofri quando vivia na cidade do Rio de Janeiro. Existia naquele momento também meu forte entusiasmo com o autorretrato e a nudez, a solidão erótica da mulher (faço pesquisas sobre o erotismo há mais de dez anos), então resolvi escrever e ficcionar. Criei um personagem para quem pudesse endereçar minhas cartas, uma espécie de analista onipresente e fiquei confortável com a transferência, pude sentar finalmente em poltronas macias, já que a vida havia se tornado insuportável e áspera.”
— Anônima transita entre prosa e poesia e traz temas como solidão, sexo, desejo, violência, dependência emocional e vulnerabilidade feminina. Que impacto vc quer ter no púbico com sua obra?
“Anônima é um livro híbrido, na literatura contemporânea temos uma espécie de ‘liberdade’ e eu acho que comecei a utilizá-la, ainda não cheguei ‘além do bem e do mal’, (fiquei com medo de questões jurídicas) mas o desejo é percorrer esse trajeto, ora. Tantos escritores já tiveram essa coragem, por que não? Cummings fez um poema visual respondendo a todas as editoras que recusaram seu livro com a obra ‘No thanks’, ele a auto publicou com a ajuda de sua mãe e a dedicou às 14 editoras que a rejeitaram. Edouard Loui criticou Emmanuel Macron em seu livro ‘Quem matou meu pai’. Eu pergunto, por que não? Arte não é feita para amaciar, é um punch, todo o contrário disso é entretenimento e estrelinhas na noite feliz — infeliz.
Quero alertar as mulheres sobre a situação de subserviência feminina em que estamos colocadas nesse sistema feito para apagar nossas memórias. O próprio nome já diz: Anônima. Quantas mulheres já não escreveram literatura e utilizaram pseudônimos anônimos? Isso por si só já é de uma violência brutal. O que eu desejo com essa obra é estimular a escrita feminina, é cutucar a coragem de sairmos um pouco do lugar de colonização do olhar do Outro, precisamos abrir nossas terras, (mesmo que manchadas de sangue), mas precisamos instaurar cartografias feéricas, as mulheres sabem muito bem fazer isso.”
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— O que tem de Vanessa na protagonista de Anônima?
“Tudo. Uma escrita começa no corpo. Claro que é uma ficção, é quase uma ‘auto-pulp fiction’. O livro é absolutamente irônico. Não há perdão. E, sim, uma parte da minha obscenidade e da minha coragem estão em Anônima.”
— Doeu escrever?
Muito. Escrever é um ato absolutamente solitário e catártico. Catarse pressupõe a dor.
— O livro tem recebido críticas bastante positivas. Como isso mexe com vc?
“Adoro as críticas. Todo escritor é vaidoso, mente quem diz o contrário. Mas o que me interessa sobretudo é a crítica do leitor. Essa mexe comigo, fico com os olhos marejados, porque ela é absolutamente honesta e desprovida de qualquer interferência que não seja a obra.”
— E agora, o que vem pela frente?
“Estou escrevendo um novo romance, talvez seja a continuação do Anônima, talvez não. Estou tateando para encontrar vestígios dos escombros, preciso entender se a personagem do Anônima ainda estará viva nos próximos capítulos.”
PS: em agosto, Anônima vai ser lançado em São Paulo, na unidade do Sesc da Avenida Paulista.
Ficha técnica
- Livro: “Anônima” – Editora Telha, 2026
- Autora: Vanessa Alves
- Preço: R$ 40 (78 páginas)
- Data de lançamento: 23 de maio (sábado), às 18h, com bate-papo com o escritor George Furlan
- Local: Momentum Lounge Café – rua Viena, n° 65, Jardim Augusta – São José dos Campos
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