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    Por que frutas nativas quase não chegam ao mercado? Universitários querem mudar isso no Vale do Paraíba

    Ação busca resgatar o consumo de espécies locais e combater o desconhecimento sobre a biodiversidade do Vale do Paraíba
    Autor: Gabriel Blois Moreira28 de abril de 2026Nenhum comentário6 Minutos de Leitura
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    (Créditos: Gabriel Blois Moreira / Portal Spriomais)

    Um grupo de universitários do Vale do Paraíba está empenhado em uma missão que une gastronomia, educação e preservação ambiental: resgatar o valor das frutas nativas da Mata Atlântica. O projeto de extensão visa combater o desconhecimento sobre a biodiversidade local e incentivar o cultivo e consumo de espécies que crescem naturalmente na região, mas que perdem espaço nas prateleiras para frutas “exóticas” e commodities agrícolas.

    Dificilmente se ouve falar em “cambuci”, “juçara”, “araça” e “uvaia” na mesma frequência que são faladas outras frutas não nativas.

    (Créditos: Gabriel Blois Moreira / Portal Spriomais)

    Segundo Olga Maria Carvalho Morais, de 24 anos, veterinária e estudante do curso de biologia da UNIVAP (Universidade do Vale do Paraíba), e integrante do projeto, a iniciativa surgiu da percepção de que a dieta contemporânea ignora a abundância local.

    “A nossa dieta é muito baseada em frutas exóticas. Banana, maçã, abacaxi… Frutas que achamos muito facilmente no mercado, mas não são necessariamente originárias daqui, mas são produzidas exponencialmente“, explica Olga.

    A estudante aponta que essa desconexão cultural leva a crenças errôneas, onde crianças e adultos muitas vezes temem consumir frutas encontradas em árvores urbanas ou na mata por medo de toxicidade, ignorando alimentos seguros e nutritivos que muitas das vezes estão “ali na calçada”.

    Cambuci, fruta nativa do Vale do Paraíba (Créditos: Gabriel Blois Moreira / Portal Spriomais)

    Por que não achamos essas frutas na maioria dos mercados?

    Carlos Alberto da Silva Filho, engenheiro agrônomo e produtor rural (Créditos: Gabriel Blois Moreira / Portal Spriomais)

    Para entender de perto como essas frutas nativas estão sendo resgatadas, a reportagem decidiu acompanhar o trabalho do grupo de estudantes em campo, em um sítio parceiro em Paraibuna, onde espécies da Mata Atlântica são cultivadas e estudadas na prática.

    Para o engenheiro agrônomo e produtor rural Carlos Alberto da Silva Filho, o apagamento das frutas nativas do consumo cotidiano não é um fenômeno recente, mas resultado de uma construção histórica e cultural.

    “Quando você vem de um processo colonial, você tem uma tendência maior de valorizar mais o que é estrangeiro, o que é da metrópole.”

    Segundo ele, esse afastamento também tem raízes na forma como o uso dessas espécies se organizava.

    “No passado, essas frutas existiam nos pomares domésticos. Então, as pessoas viviam em chácaras ou em casas com um quintal grande e elas tinham essas frutas.Então, nunca ninguém se preocupou em comercializar isso.”

    Jaracatiá, fruta que não é nativa do Vale do Paraíba, mas passa pela mesma situação de “desconhecimento” do público geral (Créditos: Gabriel Blois Moreira / Portal Spriomais)

    Carlos observa que, quando algumas dessas espécies ganharam “fama”, isso geralmente aconteceu fora do Brasil ou por influência indireta.

    “O maracujá é uma fruta nativa que despertou interesse mundial e muitas vezes é isso: ela desperta interesse fora e depois é cultivada dentro. Com o abacaxi foi parecido, e com a goiaba também houve o desenvolvimento de variedades por produtores japoneses radicados no Brasil.”

    Ele resume que, apesar da riqueza da biodiversidade brasileira, ainda falta estrutura para transformá-la em cadeia produtiva. “Nós não temos muito forte uma cultura de estar pegando a nossa biodiversidade e transformando em produto comercial. Essa é uma proposta que a gente está tendo aqui no sítio.”

    Para o agrônomo, o cenário é diferente em algumas regiões do país, onde frutas nativas aparecem mais no extrativismo do que no cultivo estruturado.

    Araça-boi, fruta nativa do Vale do Paraíba (Créditos: Gabriel Blois Moreira / Portal Spriomais)

    Oficinas com geleia, sucos e fruta

    O plano de ação do grupo foca na realização de oficinas educativas. O objetivo é apresentar o ciclo completo: desde a identificação da planta e o ensino sobre sua importância ecológica, até a degustação.

    Para tornar o tema mais atrativo, especialmente para o público infantil, a abordagem gastronômica é fundamental.

    “Pretendemos levar a parte gastronômica para elas experimentarem e terem esse contato mais íntimo. Geleia, principalmente, porque é mais palatável e chama a atenção da criança, mas também sucos e a fruta in natura”, detalha Olga.

    Além das degustações, o projeto desenvolveu um manual de cultivo e cuidado de mudas, além de receitas, para distribuir ao público, incentivando que a população plante essas espécies em casa.

    Frutas locais já são parte do cardápio infantil em cidade do Vale

    Pé de Cambuci (Créditos: Gabriel Blois Moreira / Portal Spriomais)

    O projeto traça um comparativo entre as dinâmicas de diferentes cidades do Vale do Paraíba. Olga destaca o município de Paraibuna como um modelo positivo, onde a prefeitura e produtores locais realizam um trabalho ativo de inclusão de frutas nativas, como o Cambuci, na merenda escolar da rede pública e em festivais gastronômicos.  

    Desde 2023, o município tem intensificado a introdução desses alimentos na merenda escolar. Um dos exemplos foi a experimentação do pão de juçara por alunos da rede municipal. A juçara, fruto semelhante ao açaí e proveniente de uma palmeira típica da Mata Atlântica, passou a integrar receitas em fase de teste para avaliar a aceitação das crianças.

    De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, a cidade já havia incluído anteriormente frutas como cambuci, uvaia e araçá-boi nos sucos naturais, geleias e bolos servidos nas escolas, adquiridas diretamente de produtores rurais locais por meio do Programa de Agricultura Familiar

    “São José dos Campos, muita tecnologia, mas pouca fruta”

    Em contrapartida, a estudante observa que São José dos Campos, apesar de sua infraestrutura, ainda carece dessa conexão com a flora nativa. 

    “Aqui a gente tem uma cultura muito enraizada em tecnologia, fazer avião, engenharias, e acaba faltando muito na questão ambiental“, analisa. 

    Ela menciona que, salvo exceções como algumas palmeiras de Juçara na Univap ou no Parque da Cidade, a diversidade de frutas nativas na paisagem urbana joseense é escassa.

    Além do resgate cultural, o projeto enfatiza a sustentabilidade. Por serem plantas adaptadas ao clima e solo da região, o cultivo de espécies como Araçá, Grumixama e Uvaia demanda menos intervenção humana e químicos do que as culturas tradicionais.

    “Justamente por serem frutas aqui da região, são frutas que podem dar muito facilmente. Não precisa adicionar tantos químicos e não precisa passar por hibridismo”, afirma Olga.

    A sazonalidade também é um ponto forte destacado pelo grupo, permitindo colheitas variadas ao longo do ano:

    • Primavera: Uvaia
    • Verão: Araçá
    • Outono: Cambuci
    • Inverno: Juçara

    O projeto segue em desenvolvimento, com a expectativa de ampliar o acesso à informação e provar que a Mata Atlântica no Vale do Paraíba oferece uma “abundância local” que vai muito além das frutas convencionais encontradas nos supermercados.

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