
Uma boa notícia, cercada de algumas dúvidas…
Dias atrás, a Prefeitura de São José dos Campos e a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado anunciaram a instalação do Museu da Casa Brasileira na Casa Olivo Gomes, projetada por Rino Levi e um dos marcos do Parque da Cidade. O imóvel, que pertence ao município, já passa por obras de restauro e deve abrir ao público em maio, segundo a Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
A notícia é super bem-vinda…
Afinal, há tempos a Casa Olivo Gomes vem sendo subutilizada e carece de valorização frente à sua importância. Projetada pelo arquiteto Levi nos anos 1950 para a família do empresário Olivo Gomes, fundador da Tecelagem Parahyba, o conjunto arquitetônico é considerado um dos mais importantes exemplares do modernismo paulista, com destaque para os jardins assinados por Roberto Burle Marx e o espelho d’água que acompanha a fachada.
Hoje, infelizmente, o paisagismo de Burle Marx é uma leve lembrança do que foi, tendo perdido espécies nativas e seu traçado original. E a Casa, até tempos atrás, sofria com abandono parcial.
Isso vai mudar? Espero eu sim…
Curioso com tudo isso (jornalistas são curiosos por natureza), busquei mais informações nas diversas matérias veiculadas sobre o assunto, mas encontrei poucas respostas.
Afinal, como chegamos até o acordo entre a Fundação Cultural e a Pinacoteca? Em que termos esse acordo foi firmado? A Fundação informou que obras de restauração estão sendo feitas lá (afinal, o imóvel é tombado), mas, de fato, o que está sendo feito e por quê? Qual o valor do restauro? Quem aprovou? Quando abrigar o Museu da Casa Brasileira, o acesso à Casa vai ser pago? O convênio entre Fundação e Pinacoteca interfere, de alguma forma, no processo de concessão do Parque da Cidade à iniciativa privada, já em andamento?
Fiz perguntas aqui e ali, tanto para a Fundação quanto para a Pinacoteca. Algumas perguntas foram respondidas, outras não. Pedi também acesso ao termo de parceria. Não obtive resposta.
Leia mais: De papel passado
Respostas & dúvidas
As respostas enviadas pelas instituições ajudam a contar melhor a história. O termo de cooperação entre município e Estado vale inicialmente até 2028, segundo a Fundação Cultural.
De acordo com a Pinacoteca, em 2025, a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado autorizou a realização de uma exposição em São José dos Campos e iniciou os trâmites para formalizar um convênio em razão da importância da Casa Olivo Gomes e sua relação intrínseca com o acervo do Museu da Casa Brasileira.
Dessa forma, o termo de cooperação foi assinado em dezembro entre a APAC (Associação Pinacoteca Arte e Cultura), responsável pela concepção artística e gestão da exposição de média duração, e Prefeitura de São José dos Campos.
A Associação Pinacoteca está executando a readequação do imóvel, com obras de conservação e adaptação para receber o Museu e sua programação expositiva e cultural. O valor investido inicial é R$ 1.104.854,40, segundo a Pinacoteca.
Esse valor, particularmente, me chama a atenção. No projeto de concessão do Parque da Cidade, aberto ao público, consta que a recuperação da Casa Olivo Gomes custaria em torno de R$ 10 milhões, segundo cálculos feitos à época pela Secretaria Municipal de Obras Públicas, para dois anos de trabalho. Isto é, quase 10 vezes mais do que a Pinacoteca está investindo atualmente. Isso levanta uma dúvida: o que está sendo feito?
Bem, sobre isso as respostas foram interessantes.
A Fundação fala em reparos no piso, teto, telhado, instalações elétricas e sanitárias, além de pintura, mediante projeto aprovado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico), ligado ao Estado. Um detalhe: a nova iluminação interna, de LED, será amarelada, para reproduzir o ambiente original de uma casa dos anos 50.
Mas não tive acesso ao documento do Condephaat, assim como não tive acesso ao termo de cooperação entre município e Estado, como registrei acima, apesar de ambos serem documentos públicos. Ainda não desisti.
Pelo site da Associação Pinacoteca Arte e Cultura (APAC), cheguei até a cotação da reforma, tratada no material como readequação de espaço. Pelo site também é possível verificar todas as intervenções listadas para a obra.
Mais respostas
Sobre alguma interferência entre o termo de cooperação e o projeto de concessão, a Fundação Cultural nega qualquer obstáculo.
Isso foi dito pelo presidente da Fundação, Tom Freitas, em entrevista ao portal spriomais, e reiterado pela assessoria da entidade. É caso de anotar para ver mais tarde…
E, uma informação extra: no primeiro ano de funcionamento do Museu Casa Brasileira no Parque da Cidade, o acesso ao espaço será gratuito. Depois, é provável que o Museu vá cobrar ingresso, a exemplo do que era feito em São Paulo.
Ufa, texto grande…
Mas a importância do espaço vale cada letra, palavra, linha ou parágrafo gastos até aqui. O espaço paisagístico e arquitetônico do Parque da Cidade é um tesouro de São José dos Campos.
Preservá-lo e dar uma boa destinação a ele é um dever do poder público, desde a criação do espaço, na década de 90, durante a gestão da prefeita Angela Guadagnin (PT).
Torço pelo parque, pela preservação da Casa, pela recuperação dos jardins e pelo projeto de concessão da área para a iniciativa privada. Sendo tudo bem feito, ganhamos todos nós.
PS 1:
Conheci o espaço chamado hoje de Parque da Cidade há mais de 40 anos, quando, como repórter do antigo jornal “ValeParaibano”, estive na casa algumas vezes para entrevistar o empresário Clemente Gomes na época da crise da Tecelagem Parahyba.
Nunca me esqueci da minha primeira visita ao local, em um final de tarde, das árvores imensas, da varanda aberta com vista ao jardim e ao lago, das formas geométricas da construção, da escada em caracol. Ex-estudante de Arquitetura e apaixonado pela obra de Burle Marx, me senti em um cenário de filme.

PS 2:
Frequento o Parque da Cidade até hoje. No ano passado, fiquei triste ao ver a escada em caracol pichada.
Hoje cedo, passei pela Casa Olivo Gomes para ver, de fora, o trabalho de recuperação. O telhado estava sendo limpo com jatos d’água. Espero ver, em breve, a Casa aberta.