
Timor-Leste é um país resiliente que não quer ser apenas um ponto no mapa do Sudeste Asiático. Um dos mais novos países do mundo, com histórica luta pela independência (liberdade reconhecida internacionalmente somente em 2002), Timor-Leste sobrevive e se reconstrói numa ilha dolorosamente cortada ao meio, de cara para seu pior inimigo.
Mas não é só ali na pequena ilha que há uma movimentação pelo avanço do país, no enfrentamento de carências graves e no combate ao alto analfabetismo. Seus jovens, alegres, têm abraçado o mundo, correm em busca de formação técnica e intelectual e estão atrás de sonhos de progresso para um país democrático (vivem certamente mais em sintonia com perfumado sândalo, uma de suas riquezas, do que com a “pólvora”, uma de suas desgraças).
“Se não formos nós [a desenvolvê-lo], quem o fará”, pergunta o jovem timorense Gabriel Bere (21), artista e estudante que cursa Engenharia Civil na Universidade Federal de São João Del Rei (MG), com bolsa do governo do Timor, país empenhado nesse movimento de restauração. Gabriel participou em janeiro de uma residência artística aqui em São José dos Campos, no ateliê de gravuras De Etser, e é um dos convidados para uma exposição no próprio De Etser, que inaugura agora em 21 de fevereiro.



Três Beres
A mostra Maun alin Bere foi batizada na língua tétum, que significa “Três Berês” em português. Tétum é a língua mais falada na ilha, ao lado do português de ancestralidade colonial. A ideia foi reunir “três jovens timorenses que têm uma íntima ligação com o De Etser”, explica o curador da mostra, Fábio Sapede. São jovens que têm aproximadamente a mesma idade do Timor-Leste democrático.
“O que me emociona nesses jovens é a determinação de se superarem constantemente, e conseguirem isso através do trabalho contínuo e intenso; afinal eles sabem que têm um país para consolidar. Isso os torna especiais, competentes, interessantes, e, principalmente grandes artistas”, diz Sapede.
Inu é o irmão mais velho. Com 28 anos, é hoje um dos artistas mais proeminentes do sudeste da Ásia. Entre 1995 e 2020 cursou Artes Visuais, na Univap (Universidade do Vale do Paraíba), em São José. Foi durante esse período que frequentou o De Etser, mergulhando a fundo na xilogravura.
Será possível admirar seu trabalho graças às matrizes que ficaram no ateliê e foram retrabalhadas por Gabriel. Sapede explica que as paisagens de Inu, “em grandes formatos, propõem fusões visuais entre São José e Aileu Vila, seu estado natal, deixando claro que Brasil e Timor também compartilham suas almas culturais”.
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Gabriel Bere, o mais novo, tem 21 anos. Gabriel já havia feito uma formação em xilogravura no Projeto Montanha, coordenado por Inu depois que voltou ao Timor. (O Projeto Montanha é uma das poucas e bem sucedidas ações voltadas para formação de artes no país.)
As obras de Catarino Bere, de 26 anos, estão a caminho da exposição. Fabio espera que ele participe um dia do programa de residência no De Etser. Ele vive hoje no Minho, em Portugal, onde faz graduação em Artes. Catarino também bebeu das fontes do Projeto Montanha. O curador enumera suas qualidades: exímio desenhista, gravador, pintor hiper-realista, compositor, músico.
Arquitetura do Timor-Leste
O foco principal de estudos de Gabriel Bere é a arquitetura tradicional do Timor-Leste. Sapede diz que “esse conhecimento ganha corpo tanto em sua vocação como futuro engenheiro civil quando no seu tema como artista”. Gabriel apresentará trabalhos produzidos durante sua residência no De Etser e algumas que trouxe consigo para o Brasil.



A tradicionais construções timorenses são verdadeiros “templos afetivos” de vida e cultura do seu país. Estudar a cultura do Timor, preservá-la, é uma de suas obsessões. Não à toa pretende realizar um grande levantamento dessas construções típicas dos clãs timorenses.
É nesse tipo de “casa” que os três jovens ouviram dos mais velhos as histórias de resistência dos timorerenses, as agruras dos tempos coloniais portugueses (a partir do século XVII), da guerra civil e, principalmente, a violência de seu vizinho, a violenta Indonésia.
Exposição Maun alin Bere
- Abertura: 21 de fevereiro, 11 h;
- Local: Ateliê de Etser – Estrada Pedro Moacir de Almeida, km 9,5 – Alto da Ponte, São José dos Campos
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