
Sempre gostei de ler resenhas de livros, tanto daquelas escritas por críticos literários (sim, não tenho nenhum problema em enfrentar leituras acadêmicas) quanto as de leitores não especialistas apaixonados, que escreviam à mancheia quando havia grandes jornais de papel e grandes suplementos literários. Os jornais encolheram e o número de resenhas também.
Vamos ser justos e lembrar que há ainda publicações em jornais sobreviventes (e suas versões digitais) e de editoras com textos muito interessantes, e alguns mesmo brilhantes. (Cito uma: a Revista Pernambuco, “de literatura, do livro e da leitura”).
Aquelas primeiras resenhas estavam, digamos, mais à mão. Hoje é preciso selecionar muito bem as que prosperam, na internet, mais como resumões para quem vai enfrentar algum teste. Não estamos tratando disso aqui.
Eu mesmo já escrevi algumas, por dever de ofício, mas não só por isso. É tão bom e, ao mesmo tempo, desafiador indicar um livro que te cativou e dar pistas (nunca spoilers) de bons textos… Bom é acertar na indicação. Sempre lembrando que há mistérios insondáveis entre livro e leitor.
Muita satisfação tive, por exemplo, há muito tempo, ao escrever para o Jornal da Tarde sobre Seda (1997), do escritor Alessandro Baricco, um mestre da literatura italiana contemporânea.
Estava sendo traduzido pela primeira vez para o português, numa narrativa singela e lírica adequada ao tema exótico: o transporte, do Japão à França, em 1861, de ovinhos de Bombix mori, a lagarta que devora folhas de amoreira para a fabricação da seda (o livro é muito mais do que isso, “uma caixinha de joias”, escrevi, com direito a paixões).
A resenha, entretanto, para cumprir sua missão, tinha que ter a leveza do livro Seda e de cada um daqueles ovinhos… Consegui levar ao leitor esse espírito?
Outra: escrevi sobre O fotógrafo (2004), de Cristovão Tezza, um escritor nascido em Santa Catarina, mas crescido no Paraná, premiado por um talento inconteste. Até então menos conhecido do que merecia, como vários outros escritores nesse Brazilzão de muitas histórias, foi também uma maneira de prestar uma homenagem à sua forma de narrar: em O fotógrafo ele escreve à luz de retratos do cotidiano, como fotografias analógicas, cheias de camadas, de claros e escuros existenciais. Não que minha simples resenha, que fique claro, tenha qualquer papel no sucesso que ele viria a ter.
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As resenhas servem, afinal, para garantir espaço para os novos escritores, apontar aqueles que estão fora da curva, aqueles que trabalham a linguagem e valorizam nosso idioma, servem para perpetuar os clássicos (vale a pena a leitura de Por que ler os clássicos?, um clássico de Italo Calvino). E, sim, para falar de lançamentos (não sejamos hipócritas).
Até aqui, fiz foi um grande nariz de cera, daqueles que, com razão, deixam os editores de hard news irritados, não é, Hélcio Costa? Me agarro ao “isso é uma crônica”. Mas vamos ao lead:
Visitando a Livraria Mantiqueira para escolher um presente de fim de ano, livraria de rua que acaba de abrir suas portas em São José dos Campos, percebi uma série de post-its amarelos colados aqui e ali, aleatoriamente, em alguns exemplares das estantes. E percebi um movimento muito vivo de leitores, trocando figurinhas.
Chamei essas mensagens espontâneas de “nanoresenhas de post-its”. Pois os leitores estão indicando livros lidos, preferidos etc, uns aos outros. Atento, o proprietário da livraria, Roberto Guimarães, vibra: “dar voz aos leitores é muito bacana”, e tem estimulado as ações: post-its à disposição e caneta emprestada.
No exemplar do clássico O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway, Paloma foi sintética: “sensível, delicado, carinhoso”. Logo abaixo do papelzinho amarelo, outra mensagem, em diálogo: “O Velho e o Mar é tão bom que dá vontade de escrevê-lo ao invés de somente ler”, anotou Úmero.
Escrevi sobre a chuva de post-its amarelos, mas há um vermelho assanhado, assinado por Roberto, exaltando as qualidades da escritora Nara Vidal: “sensível, forte, inesquecível. Um dos grandes romances brasileiros dos anos 2020”.


“Intrigante, fora da caixinha”, escreveu Rô sobre A metamorfose, de Franz Kafka, numa cuidada edição da Martin Claret. Sobre Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, Stella diz na sua nanoresenha: “As irmãs March são as meninas mais doces e alegres da literatura! Excelente companhia quando a gente se sente sozinha.” E abre-se, como um suspiro: “tem final feliz” (mais três coraçõeszinhos).


Luma fez questão de destacar Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Nas primeiras linhas, citou um trecho marcante da obra, a dedicatória: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”. Para depois analisar: “Clássico intenso que rompe a narrativa tradicional, com o narrador morto e ironia constantes”.
Memórias Póstumas de Brás Cubas, coincidentemente, é um dos meus livros preferidos. Eu também assinaria um post-it como o de Luma.

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